Infecção aguda pelo HIV – Sintomas e tratamento


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Revisado e atualizado em outubro 16, 2025
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O que é infecção aguda pelo HIV?

Desde meados da década de 1980 já sabemos que os pacientes recém-contaminados com o vírus HIV podem desenvolver um quadro semelhante a uma gripe ou mononucleose após o primeiro contato com o vírus.

A infecção aguda pelo HIV é um quadro totalmente diferente da AIDS. Essa infecção aguda ocorre geralmente entre duas a quatro semanas após a contaminação, sendo causada pela rápida multiplicação do vírus no nosso organismo.

Enquanto a AIDS é um quadro de imunodeficiência, resultado de anos de destruição do sistema imunológico pelo vírus HIV, a síndrome retroviral aguda é provocada pela rápida multiplicação do HIV nos primeiros dias de contaminação.

Acredita-se que a maioria dos indivíduos contaminados pelo HIV apresentarão algum tipo de infecção aguda nas primeiras semanas, porém, pelo fato de muitos terem quadros respiratórios aparentemente comuns, semelhantes a uma gripe, essa síndrome retroviral aguda pode passar mais ou menos despercebida.

Em geral, quando diretamente questionado, o paciente recém-diagnosticado com HIV consegue se lembrar de uma síndrome infecciosa que tenha ocorrido 2 ou 3 semanas após um comportamento de risco. Muitos, inclusive, referem ter procurado atendimento médico para ajudar no controle dos sintomas.

Quando o paciente não tem consciência de ter tido um comportamento de risco, ele geralmente encara os sintomas da fase aguda apenas como uma gripe mais forte.

Como surge a síndrome retroviral aguda?

O vírus HIV é o agente causador da grave doença chamada síndrome da imunodeficiência adquirida, mais conhecida pelas siglas AIDS ou SIDA.

A AIDS é uma doença que surge devido à destruição de parte relevante do nosso sistema imunológico pelo vírus, principalmente as células de defesa chamadas linfócitos T-CD4+. Como esse processo se dá de forma lenta e gradual, habitualmente, os sintomas da AIDS só surge após alguns anos de contaminação pelo HIV.

O vírus HIV não tem capacidade de se multiplicar sozinho. Para sobreviver em um organismo, o HIV invade os linfócitos T-CD4+, altera o funcionamento normal dos mesmos e, após injetar o seu material genético, faz com que essas células se transformem em “zumbis” produtores de vírus HIV.

Com o passar do tempo, esses “linfócitos zumbis” morrem, fazendo com a sua contagem de células CD4+ total caia. O paciente contaminado pelo HIV torna-se  susceptível a uma variedade de infecções porque a maioria das suas células CD4+ ou foram destruídas, ou estão inutilizadas, servindo apenas como “fábrica” de vírus.

Quando o HIV entra em contato com o nosso organismo pela primeira vez, ele encontra um meio rico em linfócitos T-CD4+ e pobre em anticorpos específicos contra ele mesmo. Como resultado, nas primeiras semanas de contaminação, o HIV multiplica-se de forma acelerada, causando grande destruição dos linfócitos T-CD4+. No período de fase aguda, o paciente tem elevada carga de vírus na corrente sanguínea e uma baixa contagem de linfócitos T-CD4+.

Com o passar dos dias, porém, o sistema imune consegue contra-atacar através de anticorpos específicos contra o HIV e outras células imunológicas, tais como os linfócitos T-CD8+ citotóxicos. Como resultado, a carga viral despenca e o número de linfócitos T-CD4+ volta a subir. Neste momento o paciente deixa de sentir os sintomas da infecção aguda pelo HIV.

Em geral, o quadro de infecção aguda do HIV demora de 7 a 14 dias para desaparecer. Os pacientes que apresentam maior dificuldade em controlar essa multiplicação viral inicial, apresentando sintomas por mais de 14 dias, são aqueles que irão desenvolver AIDS mais precocemente, geralmente dentro dos 3 primeiros anos após a contaminação.

Transmissão do HIV durante a fase aguda

O risco de uma pessoa infectada transmitir o vírus HIV para um parceiro ou parceira é diretamente proporcional à carga viral no sangue. Nos homens, por exemplo, a quantidade de vírus no sêmen aumenta conforme a quantidade de vírus no sangue se eleva.

Como a fase de infecção aguda pelo HIV é um período de elevada carga viral, o paciente contaminado encontra-se altamente contagioso neste momento. Em geral, o pico de infectividade ocorre entre o 5º e o 6º dia de sintomas da síndrome retroviral aguda.

Nos pacientes que não apresentam sintomas da infecção aguda, o pico de infectividade costuma ser ao redor do 20º dia após a sua contaminação.

Para saber mais sobre as formas de transmissão do HIV, leia: Como se pega o vírus HIV.

Sintomas

Estudos mostram que cerca de 90% dos pacientes recém-contaminados com o HIV irão apresentar algum tipo de sintomas de infecção viral. Como os sintomas são muito inespecíficos, em alguns casos, é difícil saber se o que o paciente teve foi realmente uma infecção aguda pelo HIV ou apenas uma virose comum qualquer.

Os sinais e sintomas mais comuns da síndrome retroviral aguda em homens e mulheres, com suas respectivas frequências, são:

  • Febre: 74% dos homens e 83% das mulheres.
  • Cansaço: 67% dos homens e 78% das mulheres.
  • Dor muscular: 50% dos homens e 26% das mulheres.
  • Rash de pele: 48% dos homens e das mulheres.
  • Dor de cabeça: 45% dos homens e 44% das mulheres.
  • Faringite: 40% dos homens e 48% das mulheres.
  • Linfonodos aumentados: 39% dos homens e das mulheres.
  • Dor articular: 30% dos homens e 26% das mulheres.
  • Suor noturno: 28% dos homens e 22% das mulheres.
  • Diarreia: 27% dos homens e 21% das mulheres.

Em geral, os sintomas surgem entre 2ª e a 4ª semanas após a contaminação, mas podem demorar até alguns meses para aparecer.

Os sinais e sintomas mais comuns da síndrome retroviral aguda são febre (entre 38ºC e 40ºC), cansaço, dor muscular, manchas avermelhadas na pele (rash), aumento dos linfonodos, dor de garganta e diarreia.

A tabela ao lado mostra os resultados de um trabalho científico de 2008, que acompanhou cerca de 380 pacientes com infecção aguda pelo HIV.

O rash da fase aguda do HIV costuma acometer principalmente a parte superior do tronco e a face. Os membros, incluindo palmas das mãos e plantas dos pés, também podem ser acometidos.  As lesões costumam ser múltiplas, avermelhadas, pequenas (cerca de 1 cm de diâmetro) e ovais. Algumas delas podem ter algum relevo. Coceira é incomum. O rash surge, em geral, no 2º ou 3º dia de sintomas e dura uns 5 dias.

A faringite pode ser exatamente igual a uma faringite viral, com intensa dor e vermelhidão. Habitualmente, não há pus nas amígdalas, mas isso não é uma regra.

Os linfonodos palpáveis costumam ser indolores e surgem com mais frequência no pescoço. Outros locais, porém, também são possíveis, como nuca, axilas e na região inguinal (virilhas). Em geral, o linfonodos aparecem mais tardiamente, somente nos últimos dias de sintomas.

Outros sinais e sintomas que podem também estar presentes são anemia, perda de peso (até 5 kg), perda do apetite, enjoos e vômitos.

Dois sinais não muito comuns, mas que, se também aparecerem, falam muito a favor de síndrome retroviral aguda, são as úlceras orais dolorosas (também podem ocorrer na genitália ou ânus) e a candidíase oral.

Na maioria dos casos, os sintomas duram de 7 a 10 dias e desaparecem espontaneamente. Após a fase aguda, o paciente entra na fase latente da doença, um período sem sintomas que pode durar vários anos.

Pacientes que apresentam sintomas de fase aguda por mais de 14 dias, ou apresentam um quadro muito agressivo, com vários dos sintomas descritos acima, costumam ter pior prognóstico, com maior risco de terem uma fase latente curta e evoluírem precocemente para AIDS.

Para saber quais são os sintomas da AIDS, leia: Principais sintomas do HIV e AIDS.

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Diagnóstico

Os mais modernos testes para o HIV, como o ELISA de 4ª geração, já são capazes de detectar o vírus na sua fase aguda. A contagem viral também pode ser realizada e costuma apresentar valores elevados (maiores que 100.000 cópias/mL). A contagem de linfócitos T-CD4+ habitualmente apresenta valores baixos durante a fase aguda. No hemograma comum, pode haver anemia e os valores de linfócitos e leucócitos costumam estar baixos.

Para mais informações sobre o diagnóstico do HIV: Como Saber se Tenho HIV.

Tratamento

Até pouco tempo atrás, o tratamento com o coquetel antirretroviral só era oferecido aos pacientes que apresentavam critérios clínicos e laboratoriais de imunodeficiência pelo HIV. A abordagem mais recente, porém, indica o tratamento para TODOS os pacientes portadores de HIV que queiram se tratar, independentemente da fase da doença e do seu estado imunológico.

Os pacientes com infecção aguda do HIV que iniciam tratamento com coquetel antirretroviral apresentam menor risco de contaminação de parceiros e maior período livre de sintomas, diminuindo a chance de evoluírem para AIDS.


Referências



Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Edimo Augusto

    Aconteceu um acidente de moto na frente da minha casa,o piloto veio a óbito e teve muito sangue no chão, 5 dias depois esqueci e pisei descalço onde rolou o acidente, e estou com umas feridas no pé,mas já fez sol e chuveu,sera que tem risco de pegar hiv assim? Estou paranoico e com medo sofro de toc de contaminação

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Risco nenhum. O vírus sobrevive muito pouco tempo no ambiente.

  2. Cesar Alberto

    Como eliminar essas manchas vermelhas na pele?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Se as manchas vermelhas apareceram no contexto de infecção aguda pelo HIV, elas costumam ser um exantema maculopapular autolimitado, que melhora sozinho em 1–2 semanas.

  3. Elias

    Doutor faz mais de 2 meses que fiz sexo com uma pessoa sem camisinha, e a uma semana atrás sentir por dois dias febre alta, dor de garganta e gripe , agora começaram aparecer bolinhas de foliculite , é sintomas de HIV?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Os sintomas que você descreveu — febre, dor de garganta, gripe e bolinhas parecidas com foliculite — podem estar presentes na fase aguda da infecção pelo HIV (chamada de infecção primária), mas também são comuns em várias outras viroses e condições benignas, como gripes fortes ou infecções de pele.

    Como já se passaram mais de 60 dias desde a relação sem preservativo, é possível fazer um teste de 4ª geração (antígeno + anticorpo) com alta confiabilidade. Esse exame já é considerado conclusivo nesse período.

    Na dúvida, o melhor é fazer o teste de HIV, mesmo que os sintomas desapareçam. Testar é a única forma segura de saber. Além disso, aproveite para investigar outras ISTs, como sífilis, hepatites e gonorreia, que também podem ser silenciosas.

  4. Rose

    Sou dentista e furei meu dedo mesmo com luva, com uma broca que estava fazendo ajustes na prótese do paciente . Aparentemente a broca parecia não ter sangue, não dei importância , mas nas outras consultas percebi que apaciente tinha uns hábitos promíscuo . Há riscos?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Depende de que tipo de fluidos que essa broca teve contato antes. Se a broca ficou restrita à prótese, e basicamente só teve contato com saliva, o risco de contaminação é muito baixo.

  5. Thiago Rezende

    Prezado Dr,

    Eu cuspi na pia de um banheiro (shopping) e a saliva acabou voltando na minha boca depois de bater “na cuba”.
    É possível contrair o HIV dessa forma … considerando que a pia poderia estar suja e foi usada por outras pessoas antes?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Não.

  6. Queiroz

    Doutor bom dia, tira uma dúvida, fiz exame hiv ano passado ,deu não reagente 0.06,esse ano fiz 2 apos a exposição com 33 dias,deram também não reagente 0.06,só que fiz um depois de 58 dias apos exposição deu não reagente 0.243 ,isso que dizer que com 90 dias pode dar positivo, todos 4 geração

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Não, os valores dentro da faixa do negativo são irrelevantes. Não é porque um deu 0,06 e outro 0,243 que isso indique que o próximo dará um valor maior e, portanto, positivo.

  7. Leandro

    Boa tarde doutor
    Pratiquei fisting( introduzi a mão no mais do meu parceiro) sem lesões aparentes na minha mão, 35 dias depois tive uma alergia em baixo do msm braço
    (axilas) posso ter me infectado ou o risco com essa prática é nulo?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Não existem relatos de transmissão do HIV por esta forma.

  8. Anderson Gonçalves

    Boa tarde Doutor, parabéns pelo ótimo trabalho! Minha dúvida é se uma pessoa recém infectada com HIV transmitir o vírus para o cônjuge algumas semanas pós a infecção, e o casal continuar a se relacionar sem saber que estão infectados, pode haver reinfecção com o mesmo vírus da mesma origem? Isso poderia alterar a janela imunologica e gerar soroconversao tardia para o casal?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    1. Uma pessoa infectada recentemente pode transmitir para o parceiro(a).
    2. Como é a mesma cepa do vírus, isso não é considerado reinfecção.
    3. Não, não altera a janela imunológica.

  9. Anderson

    Boa tarde Doutor. Parabéns pelo trabalho. Gostaria de saber qual a diferença entre os testes HIV 1 e 2 antigeno/anticorpos Clia e P24 QUANTITATIVO? Qual o teste de 4° geração que geralmente se referem? Fiz 3 testes de terceira geração, o último com 185 dias e todos deram negativo, porém tive vários sintomas, qual seria o exame pra poder descartar a infecção por HIV com 190 dias?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Testes HIV 1 e 2 Antígeno/Anticorpos CLIA (ChemiaLuminescence ImmunoAssay): Esses testes são conhecidos como testes de quarta geração. Eles são capazes de detectar tanto os anticorpos (produzidos pelo sistema imunológico em resposta ao HIV) quanto os antígenos (partes específicas do vírus, como a proteína p24). O principal benefício desses testes é a capacidade de detectar infecções pelo HIV mais cedo do que os testes de gerações anteriores, pois podem identificar o antígeno p24 geralmente dentro de 2 a 4 semanas após a exposição.

    Teste P24 Quantitativo: Este teste é específico para a detecção do antígeno p24 do HIV, uma das primeiras partes do vírus a ser detectável após a infecção. O teste quantitativo mede a quantidade de antígeno p24 presente no sangue. Este teste é útil no diagnóstico precoce da infecção pelo HIV, mas não é tão abrangente quanto os testes de quarta geração, pois não detecta anticorpos contra o HIV.

    O teste de quarta geração é geralmente referido como o padrão ouro atual para o teste inicial do HIV. Ele oferece a vantagem de uma “janela diagnóstica” mais curta (o tempo entre a infecção e a detecção do vírus) em comparação com os testes que detectam apenas anticorpos.

  10. Gomes

    A gripe da fase aguda da pessoa com HIV passa pra outra pessoa?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Depende. Se for realmente uma gripe, causada pelo vírus Influenza, sim, passa de uma pessoa para outra. Agora, se forem apenas os sintomas da infecção aguda pelo HIV, que podem se parecer com uma gripe, aí, não, não é transmissível pelo ar.

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