O que é paroníquia?
A paroníquia (ou paroníquia ungueal), conhecida popularmente como panarício ou unheiro, é uma inflamação que acomete a pele ao redor da unha, geralmente acompanhada de dor, inchaço, pus e vermelhidão.
Essa inflamação do canto da unha pode ser causada por infecções bacterianas, fúngicas ou processos irritativos não infecciosos, e costuma ocorrer após algum tipo de ferimento ou lesão na região periungueal (ao redor da unha).
A paroníquia é uma das infecções de pele mais comuns relacionadas às mãos e pés. Ela pode afetar tanto os dedos das mãos quanto os dedos dos pés, sendo mais frequente nos primeiros devido à maior exposição a traumas, maior facilidade de roer as unhas, mais contato com umidade e com agentes irritantes.
Clinicamente, a paroníquia é classificada em duas formas principais:
- Paroníquia aguda: evolui rapidamente, em horas ou poucos dias, geralmente após um trauma ou lesão recente na pele ao redor da unha. Tem como causa mais comum a infecção bacteriana, frequentemente pelo Staphylococcus aureus.
- Paroníquia crônica: caracteriza-se por inflamação persistente ou recorrente que dura semanas ou até meses, geralmente associada à exposição contínua à água, produtos químicos irritantes ou alergênicos. Pode haver infecção secundária por bactérias ou fungos, especialmente pelo Candida albicans, mas a inflamação não infecciosa (eczema periungueal) é a base do quadro.
Como surge a inflamação da unha
A paroníquia se desenvolve quando a pele ao redor da unha sofre uma lesão ou fragilização, permitindo a entrada de bactérias, fungos ou agentes irritantes que desencadeiam um processo inflamatório.
Mecanismo básico
A pele ao redor da unha atua como uma barreira protetora natural contra microrganismos presentes no ambiente. Quando essa barreira é rompida, mesmo por pequenas fissuras quase imperceptíveis, germes que normalmente vivem na pele de forma inofensiva, como a bactéria Staphylococcus aureus, podem penetrar em camadas mais profundas, provocando infecção localizada.
No caso das formas não infecciosas (crônicas), a inflamação resulta de irritação contínua ou alergia de contato, que danifica a pele periungueal e facilita infecções secundárias.
Principais causas
A paroníquia pode surgir em qualquer pessoa, mas certas situações aumentam bastante o risco. Entre os gatilhos mais frequentes estão:
- Pequenos traumas nas unhas ou cutículas
- Cortar as unhas de forma muito curta ou irregular.
- Retirar cutículas de maneira agressiva.
- Lesões acidentais com ferramentas de manicure ou pedicure (“tirar um bife”).
- Hábitos nocivos
- Roer as unhas (onicofagia) ou morder a pele ao redor delas.
- Chupar o dedo, hábito mais comum em crianças.
- Fatores ocupacionais e ambientais
- Trabalhos que exigem contato constante com água (ex.: lavadeiras, cozinheiros, profissionais da saúde).
- Manipulação frequente de produtos químicos irritantes sem uso de luvas adequadas (ex.: detergentes, desinfectantes).
- Profissões que envolvem jardinagem, devido ao contato direto com solo contaminado e pequenos espinhos ou farpas.
- Fatores anatômicos e mecânicos
- Uso de calçados apertados que traumatizam repetidamente as unhas dos pés.
- Topadas ou pancadas em dedos dos pés (especialmente no hálux).
- Condições médicas associadas
- Diabetes mellitus, por alterar a circulação e a resposta imunológica.
- Problemas vasculares periféricos, que dificultam a cicatrização.
- Imunossupressão (HIV, uso de corticoides ou quimioterapia).
Quais germes provocam a unha inflamada?
A paroníquia é causada por microrganismos que penetram na pele ao redor da unha quando a barreira cutânea está comprometida. Os agentes variam conforme o tipo de paroníquia (aguda ou crônica) e a forma de contaminação.
Paroníquia aguda: bactérias
Na forma aguda, a infecção geralmente é bacteriana e de evolução rápida.
- Staphylococcus aureus: é o germe mais comum. Vive normalmente na pele e, quando penetra por pequenas fissuras, provoca inflamação, dor intensa e formação de pus.
- Streptococcus pyogenes: pode causar uma inflamação mais difusa, com inchaço e vermelhidão mais extensos, frequentemente sem abscesso evidente.
- Pseudomonas aeruginosa: embora menos frequente, pode ocorrer em pessoas com exposição prolongada à água. Um sinal característico é a descoloração esverdeada na área inflamada, causada por pigmentos produzidos pela bactéria.
Paroníquia associada a contato com a boca
Quando a infecção ocorre após roer unhas, chupar dedos ou sofrer mordidas, microrganismos da flora oral podem invadir a pele. Exemplos:
- Eikenella corrodens.
- Fusobacterium (anaeróbio).
- Peptostreptococcus.
- Prevotella e Porphyromonas.
Esse tipo de paroníquia pode evoluir de forma mais grave, pois envolve germes menos comuns na pele que podem requerer antibióticos específicos de amplo espectro.
Paroníquia crônica: fungos e inflamação não infecciosa
Nas formas crônicas (duração > 6 semanas), além de irritação química ou alergia de contato, é comum a colonização por:
- Candida albicans: fungo oportunista que prospera em ambientes úmidos. Sua presença mantém a inflamação e dificulta a cicatrização da pele periungueal.
Importante: nem toda paroníquia crônica é infecciosa. Muitas vezes trata-se de uma dermatite eczematosa (inflamação alérgica ou irritativa) sem microrganismos envolvidos inicialmente, mas que se torna colonizada secundariamente por bactérias ou fungos.
Infecções mistas
É frequente encontrar infecções mistas em paroníquia crônica: pele inflamada inicialmente por irritação química ou alergia é posteriormente colonizada por Candida e bactérias cutâneas, perpetuando o quadro e dificultando a cura.
Sintomas da paroníquia
Os sintomas da paroníquia variam conforme o tipo (aguda ou crônica) e a gravidade da inflamação. Reconhecer essas diferenças é fundamental para o diagnóstico correto e para definir o tratamento mais adequado.
Sintomas da paroníquia aguda
A paroníquia aguda é caracterizada por uma inflamação rápida e dolorosa, geralmente limitada a um único dedo.
Principais sinais e sintomas:
- Dor intensa e localizada, que piora ao tocar ou pressionar o dedo.
- Inchaço (edema) e vermelhidão ao redor da unha (hiperemia periungueal).
- Calor local na região inflamada.
- Formação de pus (abscesso): comum nos cantos da unha, visível como uma mancha esbranquiçada ou amarelada sob a pele.
- Dificuldade para mexer o dedo devido à dor.
- Evolução rápida: geralmente atinge o pico entre 24 e 48 horas após a lesão inicial.
Febre não é comum. Quando presente, pode indicar que a infecção está se espalhando para tecidos adjacentes, evoluindo para erisipela ou celulite, especialmente em pessoas com imunidade comprometida.
Sintomas da paroníquia crônica
A paroníquia crônica tem evolução mais lenta e persistente, com sintomas menos intensos, mas que duram semanas ou meses.
Principais características:
- Inflamação leve a moderada ao redor da unha, sem pus evidente.
- Inchaço persistente nas pontas dos dedos (aspecto de dedo inchado).
- Dor discreta ou apenas desconforto, especialmente ao pressionar a área.
- Alterações na unha: deformidades, ondulações, estrias ou descolamento parcial da unha (onicólise) ao longo do tempo.
- Pode afetar vários dedos ao mesmo tempo, geralmente nas mãos.
- Agravamento após contato com água, produtos químicos ou traumas repetidos.
Nos casos associados à infecção fúngica (Candida), a inflamação é mais discreta, mas persistente, com sinais de descamação ou pele esbranquiçada devido à maceração.
Imegens de inflamação da unha




Diferença para outras doenças das unhas
É importante diferenciar a paroníquia de outras condições que afetam unhas e dedos, como:
- Onicomicose (micose da unha): infecção fúngica da lâmina ungueal que causa espessamento, fragilidade e alteração da cor da unha, mas não provoca inflamação aguda da pele ao redor dela.
- Felon (panarício profundo): infecção bacteriana da polpa digital, mais profunda e dolorosa, que se diferencia da paroníquia por não estar restrita à região periungueal.
- Dermatites de contato: inflamações irritativas ou alérgicas da pele ao redor da unha, desencadeadas por produtos químicos ou alergênicos, sem presença de microrganismos infecciosos.
- Unha encravada (onicocriptose): ocorre quando a borda da unha penetra na pele adjacente, provocando dor, vermelhidão e, em casos mais graves, infecção secundária semelhante à paroníquia. Diferencia-se porque o trauma é mecânico e localizado, relacionado ao crescimento anormal da unha ou ao uso de calçados apertados.
Tratamento da paroníquia
O tratamento da paroníquia depende do tipo (aguda ou crônica), da gravidade dos sintomas e da presença ou não de infecção bacteriana ou fúngica. Em ambos os casos, medidas locais simples e cuidados preventivos têm papel central na recuperação.
Tratamento da paroníquia aguda
A paroníquia aguda, geralmente causada por bactérias, costuma responder bem a medidas locais. Compressas mornas aplicadas de três a quatro vezes por dia ajudam a reduzir a inflamação, aliviar a dor e favorecer a drenagem espontânea de pequenas coleções de pus. A higienização adequada da área é fundamental para evitar a progressão da infecção.
Quando há presença de pus visível ou formação de abscesso, muitas vezes é necessário realizar a drenagem. Em casos leves, a imersão do dedo em água morna seguida de massagem suave pode ser suficiente para facilitar a saída do conteúdo purulento. Entretanto, quando o abscesso é volumoso ou a dor é intensa, a drenagem deve ser feita por um profissional de saúde, em ambiente adequado e com técnica estéril, para evitar complicações.
Na maior parte dos casos, antibióticos não são necessários. Porém, se houver sinais de agravamento, como expansão da vermelhidão, dor progressiva ou febre, o uso de antibióticos orais pode ser indicado para conter a disseminação da infecção.
Os mais utilizados incluem cefalexina, amoxicilina associada ao clavulanato e, em casos de alergia ou resistência, clindamicina. Em situações específicas, como infecções relacionadas a mordidas humanas, antibióticos com cobertura para flora oral são recomendados.
Pacientes com diabetes, imunossupressão ou doenças vasculares periféricas exigem atenção especial, já que apresentam risco maior de complicações e podem precisar de avaliação médica precoce.
Tratamento da paroníquia crônica
O manejo da paroníquia crônica requer mais paciência, pois o objetivo principal é interromper o ciclo de inflamação e exposição irritativa. Evitar a umidade e reduzir o contato com produtos químicos são as medidas mais eficazes para permitir a regeneração da pele e da cutícula. O uso de luvas protetoras, preferencialmente de vinil com forro de algodão, é indicado para pessoas que lidam frequentemente com água ou substâncias irritantes.
Além das medidas de proteção, pomadas contendo corticoides de média a alta potência, como betametasona, ajudam a controlar a inflamação quando não há sinais de infecção ativa. Em casos em que há colonização por fungos, pomadas antifúngicas contendo cetoconazol ou terbinafina podem ser utilizadas. Se a infecção fúngica for extensa ou refratária ao tratamento tópico, antifúngicos orais como itraconazol ou fluconazol podem ser prescritos.
Nos últimos anos, medicamentos como o tacrolimo tópico têm se mostrado eficazes para reduzir a inflamação crônica em casos de dermatite periungueal sem infecção associada, sendo uma alternativa útil para pacientes que precisam evitar corticoides por uso prolongado.
A recuperação completa da paroníquia crônica pode levar várias semanas ou meses. Durante esse período, manter a pele seca, hidratada e protegida é essencial para evitar recaídas.
Prevenção e cuidados gerais
Medidas preventivas são tão importantes quanto o tratamento, especialmente para evitar recorrências. Manter a pele das mãos hidratada, evitar remoção agressiva das cutículas e não roer unhas são cuidados simples, mas eficazes. Em contextos ocupacionais, o uso consistente de luvas apropriadas ajuda a proteger contra irritantes químicos e umidade prolongada. Para quem frequenta manicures, é fundamental garantir que os instrumentos sejam esterilizados e que as cutículas não sejam retiradas de forma excessiva.
Referências
- Paronychia – UpToDate.
- Paronychia – Harvard Health Publishing.
- Acute and Chronic Paronychia – American Family Physician.
- Paronychia – Medscape.
- Management of Chronic Paronychia – Indian journal of dermatology.
- Imagens: arquivo pessoal, Depositphotos.
Dúvidas de leitores sobre este tema
Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.
Mais comentários dos leitores
Doutor,
Estou usando a pomada nebacetin, é também indicado?
Grato!
Muito obrigada!
A matéria me ajudou muito!
Está super bem escrita e de fácil compreensão!
Parabéns por este trabalho tão importante e necessário!
Posso tomar azitromicina para dedo com inflamação em baixo da unha?
Pode me ajudar estou com uma unha q está crítico na vdd nao tem nem unha
o que acontece se espreme?
Estou com Paroníquia no dedão do pé. Estou usando Mud creme no ferimento e tomando Cataflan Drágeas e creme em volta do dedo. Está correto?
Adorei sua explicação sobre a unha inflamada…😊
Muito obrigada…
Quê Deus abençoe sempre sua vida…
Puts, me ajudou muito. Obrigado.
Excelente a matéria, ajudou muito. Fui fazer minha unha e cutuquei o cantinho, acabou lesando, doi muito, já sei o nome da inflamação e qual procedimento usar, agora vou seguir as recomendações. Obrigada.
Dr. Pedro meu querido, grato desde já pela atenciosidade, lhe pergunto: Quando o abscesso ou pus se aloja embaixo da unha do pé, qual seria as medidas à serem tomada para tira-lo?. Belo dia e muita luz.