Giardia lamblia (giardíase): sintomas e tratamento


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Revisado e atualizado em abril 8, 2026
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O que é giardíase?

A giardíase é uma infecção intestinal causada pelo protozoário Giardia duodenalis — também conhecido como Giardia lamblia ou Giardia intestinalis. Trata-se de um parasito microscópico que se aloja no intestino delgado dos seres humanos e de outros mamíferos, podendo causar diarreia, cólicas abdominais, gases, náuseas e perda de peso.

A transmissão ocorre principalmente por via fecal-oral, ou seja, pela ingestão de água ou alimentos contaminados com fezes contendo cistos do parasita. Essa infecção é especialmente comum em locais com saneamento básico precário, onde o risco de contaminação por água ou alimentos não higienizados é maior.

Embora muitas pessoas infectadas permaneçam assintomáticas, a giardíase pode causar sintomas intensos e até persistentes, sobretudo em crianças, imunossuprimidos e pessoas desnutridas. Quando não tratada adequadamente, pode levar à síndrome de má absorção intestinal, comprometendo a absorção de nutrientes essenciais.

A giardíase é considerada uma das principais causas de diarreia parasitária no mundo, com distribuição global, afetando tanto países em desenvolvimento quanto regiões com boa infraestrutura, especialmente em surtos ligados à água contaminada.

Ciclo de vida da Giardia lamblia

A Giardia duodenalis possui um ciclo de vida simples, composto por duas formas distintas: cisto e trofozoíto.

  • Cisto: é a forma infecciosa e resistente do parasita, eliminada pelas fezes de indivíduos ou animais contaminados. Os cistos são altamente resistentes ao ambiente, especialmente quando há umidade, podendo permanecer viáveis por semanas ou até meses em água ou solo contaminados.
  • Trofozoíto: é a forma ativa e móvel da Giardia, que se multiplica no intestino delgado do hospedeiro. Os trofozoítos medem cerca de 15 micrômetros (0,015 milímetros) e possuem flagelos que lhes conferem mobilidade, além de ventosas que lhes permitem aderir à mucosa intestinal.

Como ocorre a infecção

A infecção se inicia quando a pessoa ingere cistos viáveis — geralmente por meio de água contaminada, alimentos crus ou contato com fezes. Ao chegarem ao intestino delgado, os cistos sofrem excistamento, liberando dois trofozoítos cada um.

Esses trofozoítos se fixam na parede intestinal e se multiplicam por divisão binária, alimentando-se dos nutrientes presentes no intestino do hospedeiro. Essa colonização pode prejudicar a digestão e a absorção de gorduras, carboidratos e vitaminas, causando sintomas gastrointestinais.

Ao migrarem para o intestino grosso, os trofozoítos se transformam novamente em cistos (processo chamado encistamento), permitindo que sejam eliminados pelas fezes e reiniciem o ciclo no ambiente externo.

Resumo do ciclo de vida:

  1. Ingestão de cistos viáveis pela via fecal-oral.
  2. Excistamento no intestino delgado e liberação dos trofozoítos.
  3. Multiplicação dos trofozoítos e colonização da mucosa intestinal.
  4. Encistamento no intestino grosso.
  5. Eliminação de cistos pelas fezes e contaminação ambiental.

Esse ciclo explica por que a Giardia se espalha facilmente em locais com baixa higiene, como creches, áreas sem tratamento de água e em situações de aglomeração ou desastres naturais.

Formas de transmissão da giardíase

A giardíase é transmitida por via fecal-oral, ou seja, ocorre quando os cistos de Giardia duodenalis presentes nas fezes de humanos ou animais infectados chegam à boca de outra pessoa. Isso pode acontecer de diversas maneiras, principalmente em ambientes com higiene inadequada ou saneamento básico deficiente.

Principais formas de contágio:

  • Ingestão de água contaminada: beber ou entrar em contato com água não tratada — como em rios, lagos, poços ou até mesmo água encanada sem filtragem adequada — é uma das formas mais comuns de transmissão. A Giardia é uma das principais causas de doenças diarreicas transmitidas por água no mundo (leitura sugerida: Doenças transmitidas pela água).
  • Consumo de alimentos contaminados: alimentos crus, mal lavados ou manipulados com mãos contaminadas podem conter cistos. O cozimento destrói os cistos, mas frutas, verduras e alimentos prontos contaminados após o preparo continuam sendo um risco importante.
  • Contato pessoa a pessoa: a transmissão direta pode ocorrer especialmente em ambientes coletivos, como:
    • Creches (principalmente entre crianças pequenas ainda em fase de controle esfincteriano).
    • Instituições de longa permanência, como abrigos e asilos.
    • Ambientes com cuidados de higiene precários.
  • Práticas sexuais de risco: o contato com a região anal durante o sexo, especialmente o sexo anal desprotegido ou o sexo oral-anal, pode levar à ingestão acidental de cistos.
  • Contato com animais infectados: cães e gatos podem abrigar cepas de Giardia, algumas das quais potencialmente transmissíveis a humanos (zoonoses). Embora a relevância clínica da transmissão animal-humano ainda seja debatida, o contato com fezes de pets contaminados pode representar um risco, especialmente em ambientes domésticos (leitura sugerida: Zoonoses: doenças transmitidas por animais).
  • Manuseio de solo contaminado: trabalhar com terra (hortas, jardinagem) contaminada por fezes humanas ou animais sem usar luvas ou sem lavar bem as mãos após o contato também pode resultar em infecção (leitura sugerida: Por que lavar as mãos é importante para a saúde?).

Quem está mais exposto?

  • Crianças pequenas.
  • Pessoas que viajam para áreas endêmicas, ou seja, regiões onde a giardíase é comum, especialmente locais com saneamento básico precário ou acesso limitado à água potável (como algumas áreas rurais ou países em desenvolvimento).
  • Profissionais de saúde ou cuidadores.
  • Indivíduos imunossuprimidos.
  • Campistas e aventureiros que consomem água de fontes naturais.

A prevenção passa por higiene rigorosa das mãos, tratamento adequado da água, cuidados com o preparo dos alimentos e educação sanitária, especialmente em ambientes coletivos e famílias com crianças pequenas.

Sintomas de infecção pela Giardia duodenalis

Nem todas as pessoas infectadas pela Giardia duodenalis apresentam sintomas. Em muitos casos, a infecção é assintomática e passa despercebida.

Nos pacientes que desenvolvem sintomas, eles podem variar de leves a intensos, dependendo da carga parasitária, da saúde geral da pessoa e do tempo de infecção.

Sintomas da giardíase aguda

Geralmente surgem entre 1 a 2 semanas após a exposição aos cistos do parasita. Os sinais mais comuns incluem:

  • Diarreia aquosa ou gordurosa (esteatorreia), de odor forte e aspecto espumoso.
  • Cólicas abdominais ou desconforto na parte superior do abdômen.
  • Flatulência (excesso de gases intestinais).
  • Náuseas e vômitos.
  • Mal-estar geral.
  • Inchaço abdominal.
  • Emagrecimento ou perda de apetite.
  • Febre leve (menos comum, presente em cerca de 10% a 15% dos casos).

Esses sintomas costumam durar entre 2 a 4 semanas e, em muitos casos, desaparecem espontaneamente, mesmo sem tratamento específico.

Giardíase crônica

Quando a infecção não é completamente eliminada, pode evoluir para uma forma persistente ou crônica, especialmente em pessoas com imunidade baixa, crianças ou indivíduos com má nutrição. Nessa fase, os sintomas tendem a ser mais leves, porém duradouros e debilitantes:

  • Fezes pastosas e volumosas.
  • Esteatorreia persistente.
  • Perda de peso progressiva.
  • Fadiga crônica.
  • Desânimo e sintomas de depressão.
  • Distensão abdominal frequente.

Uma das complicações mais importantes da giardíase crônica é a chamada síndrome de má absorção, na qual o intestino tem dificuldade para absorver adequadamente gorduras, carboidratos, vitaminas e minerais. Isso pode resultar em deficiências nutricionais importantes.

Cerca de 40% dos pacientes com giardíase desenvolvem uma temporária intolerância à lactose (o açúcar do leite), agravando os sintomas gastrointestinais, como gases e distensão abdominal.

Em crianças: atenção redobrada

Em crianças pequenas, a infecção prolongada pode comprometer o crescimento, o ganho de peso e o desenvolvimento. Por isso, o diagnóstico e o tratamento precoces são fundamentais.

Diagnóstico

O diagnóstico da giardíase é feito, na maioria dos casos, por meio da análise das fezes para identificar a presença de cistos ou trofozoítos do parasita.

Exame parasitológico de fezes

O método mais tradicional é o exame parasitológico de fezes, que permite visualizar diretamente os cistos da Giardia ao microscópio. No entanto, como a eliminação dos cistos pode ser intermitente (não ocorre todos os dias), é comum que um único exame não seja suficiente para confirmar a infecção.

Recomendação: realizar a coleta de 3 amostras de fezes em dias diferentes, aumentando significativamente a chance de detectar o parasita.

Testes imunológicos e moleculares (mais modernos)

Nos últimos anos, testes mais sensíveis e rápidos passaram a ser utilizados, especialmente em laboratórios com maior capacidade técnica:

  • Pesquisa de antígenos de Giardia nas fezes (imunoensaio tipo ELISA ou imunocromatografia): detectam proteínas específicas do parasita, com maior sensibilidade que o exame microscópico convencional.
  • PCR (Reação em Cadeia da Polimerase): técnica molecular que identifica o DNA da Giardia. É altamente sensível e específica, mas ainda não está amplamente disponível em todos os serviços de saúde.

Esses métodos são especialmente úteis em casos de sintomas persistentes com exames de fezes negativos, ou quando há necessidade de diagnóstico mais rápido e preciso (como surtos em instituições ou escolas).

Quando suspeitar de giardíase?

O médico pode suspeitar de giardíase em pacientes com:

  • Diarreia persistente (especialmente gordurosa).
  • Distensão abdominal frequente.
  • Sintomas gastrointestinais após viagens para locais com saneamento precário.
  • Perda de peso inexplicada.
  • Sintomas crônicos intestinais sem causa identificada.

Em crianças com déficit de crescimento ou sinais de desnutrição, a investigação para giardíase deve ser considerada mesmo na ausência de diarreia clássica.

Tratamento da giardíase

O tratamento da giardíase tem dois principais objetivos: aliviar os sintomas nos pacientes infectados e interromper a eliminação de cistos nas fezes, ajudando a conter a disseminação do parasita na comunidade.

Mesmo pessoas assintomáticas podem ser tratadas, especialmente se viverem com outras pessoas em ambientes fechados, como creches ou instituições, para evitar novas infecções.

Medicamentos mais utilizados

Existem diversos fármacos eficazes no combate à Giardia duodenalis. A escolha depende de fatores como idade, gravidade dos sintomas, tolerância individual e disponibilidade dos medicamentos.

Os principais esquemas terapêuticos recomendados para adultos são:

  • Tinidazol (Pletil®): 2000 mg em dose única. Altamente eficaz, com bom perfil de tolerabilidade.
  • Secnidazol (Secnidal®): 2000 mg em dose única. Outra opção prática e bem aceita, com efeitos adversos leves.
  • Metronidazol (Flagyl®): 500 mg, duas vezes ao dia, por 5 a 7 dias ou 250 mg, três vezes por dia, por 5 a 7 dias. Embora seja um dos tratamentos mais tradicionais, pode causar efeitos colaterais como gosto metálico e náuseas. É eficaz, mas exige maior adesão por parte do paciente.
  • Nitazoxanida (Annita®): 500 mg, duas vezes ao dia, por 3 dias. Este esquema tem boa eficácia, curto tempo de tratamento e menos efeitos adversos.

Outras alternativas eficazes incluem:

  • Albendazol (Zentel®, Zolben®): 400 mg, uma vez ao dia, por 5 dias. Utilizado também contra outras verminoses, tem eficácia moderada contra a Giardia.
  • Mebendazol (Pantelmin®): 200 mg, três vezes ao dia, por 5 dias. Menos eficaz que as outras opções, mas pode ser considerado quando os demais fármacos não estão disponíveis.

O médico pode ajustar o tratamento de acordo com a idade do paciente, condições de saúde pré-existentes, presença de gravidez e gravidade dos sintomas.

Tratamento da giardíase na gravidez

Embora a Giardia duodenalis não cause malformações fetais diretamente, o uso de medicamentos antiparasitários durante a gestação deve ser feito com cautela, especialmente no primeiro trimestre, quando o risco de efeitos adversos para o feto é maior.

  • Em casos leves, é possível adiar o tratamento até o segundo trimestre, desde que a gestante consiga manter boa hidratação e alimentação.
  • Se o tratamento for necessário no primeiro trimestre, a paromomicina é considerada a opção mais segura, pois tem baixa absorção pelo trato gastrointestinal, reduzindo o risco para o feto. A dose habitual é de 10 mg/kg por via oral, três vezes ao dia, por 5 a 10 dias.
  • A partir do segundo trimestre, os medicamentos geralmente aceitos incluem paromomicina, metronidazol, tinidazol e nitazoxanida, sempre sob orientação médica.

É fundamental que o tratamento durante a gestação seja decidido em conjunto com o obstetra, avaliando riscos e benefícios para mãe e bebê.

Prevenção da giardíase

A prevenção da giardíase depende de medidas simples, mas eficazes de higiene pessoal, saneamento básico e segurança alimentar. Como a transmissão ocorre principalmente pela ingestão de água ou alimentos contaminados com fezes contendo cistos de Giardia duodenalis, as estratégias devem focar na interrupção dessa cadeia de contaminação.

Principais medidas preventivas:

  • Tratar e filtrar a água antes do consumo: água de poços, rios, nascentes ou de fontes duvidosas deve ser fervida por pelo menos 1 minuto ou filtrada com filtros certificados que removam protozoários. O uso de hipoclorito de sódio ou cloro doméstico pode não ser suficiente para eliminar os cistos da Giardia.
  • Lavar bem as mãos com água e sabão: deve ser feito sempre antes de comer, preparar alimentos, após usar o banheiro, trocar fraldas ou manusear animais.
  • Higienizar frutas e verduras: lave bem com água corrente e, se possível, mergulhe os alimentos por 15 a 30 minutos em solução de hipoclorito adequada para alimentos (disponível comercialmente).
  • Evitar ingestão de alimentos crus em locais de higiene duvidosa: especialmente importante em feiras, barracas de rua ou durante viagens.
  • Evitar contato com fezes de animais: cuidar da higiene dos pets e recolher suas fezes com segurança ajuda a reduzir a contaminação ambiental.
  • Praticar sexo seguro: o uso de preservativo e evitar práticas que envolvam contato com a região anal reduzem o risco de transmissão sexual da Giardia.
  • Educação sanitária em creches e instituições: treinar cuidadores, manter rotinas de higiene adequadas e supervisionar o uso do banheiro por crianças pequenas são medidas fundamentais.
  • Evitar engolir água ao nadar: piscinas, lagos e rios podem estar contaminados, especialmente se não houver controle sanitário.

A prevenção é essencial para reduzir não apenas os casos individuais, mas também surtos em comunidades, creches, escolas e instituições fechadas.


Referências



Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Dionisia Brito

    Boa tarde,
    Sua informaçao foi optima.
    Obrigada

  2. Sabrina

    Na bula do Albendazol 400 mg aparece que o tratamento para giárdia seria somente pars crianças. Para adultos não mudaria a dosagem ou o tipo de remédio?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    A dose do albendazol é sempre a mesma a partir dos 2 anos de idade. Ele não costuma ser a primeira opção no tratamento da giardíase, mas sua taxa de sucesso é bem alta, acima de 90%.

  3. Marineide Rozario da costa

    Gostaria de saber se a verme giardia da dor de cabeça?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Não costuma dar.

  4. Leandro

    Boa noite !!!

    Tomei metronozadol para giardia já está com seis dias q tomei o antibiótico e ainda sinto uma queimação, isso é normal?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    A queimação não necessariamente indica falha do tratamento.

  5. Arlete celestino

    Estou colocando aqueles verminho eles saí a todo momento e não sei qual remédio comprar isto incomoda muito e coça também, tenho 62 anos, e estou precisando de ajuda urgente, obrigada

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Você provavelmente tem oxiuríase. D~e uma lida nesse artigo e veja se ajuda: Oxiuríase – infecção pelo Enterobius vermicularis

  6. Katia Camargo

    Pra tirá-lo do organismo existem drogas, e pra tirá-lo da água do poço?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Se o poço estiver contaminado, essa água não pode ser usada. É preciso contactar o órgão responsável do seu município para tratar a sua água antes que o poço possa voltar a ser utilizado. Tem que limpar o poço e consertá-lo para não haver novas contaminações.

  7. Josiane Orlowski

    Texto muito bem escrito, esclarecedor. Muito obrigada.

  8. Ariadna Lage

    Deve-se repetir a dose do remédio após 15 dias?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Não, não é necessário repetir o tratamento.

  9. Ariel

    Grávida de 6 meses pode tomar remédio de verme?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Depende do remédio.

  10. Marilac Pitzer

    Excelente texto Dr! Muito bem esclarecido! Obrigada!

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