O que é o tétano?
O tétano é uma doença infecciosa causada pela contaminação de feridas da pele pela bactéria Clostridium tetani, que vive habitualmente no solo, objetos expostos ao ar livre, plantas ou fezes de mamíferos.
O Clostridium tetani ataca o sistema nervoso central, provocando violentos espasmos musculares.
A mortalidade do tétano varia amplamente conforme o acesso a tratamento médico adequado. Em países desenvolvidos, onde há unidades de terapia intensiva e suporte ventilatório, a taxa de óbito costuma ficar entre 10% e 20%. Já em regiões com menos recursos, especialmente em países de baixa renda, a mortalidade pode ultrapassar 50%, chegando em alguns relatos a mais de 70% nos casos neonatais. Mesmo com os avanços médicos, o tétano continua sendo uma das doenças infecciosas com maior letalidade entre as que podem ser prevenidas por vacinação.
Apesar de ser muito grave, o tétano pode ser facilmente prevenido através da vacina. Pessoas com a vacinação em dia não correm risco de contraírem essa infecção.
Nas últimas décadas, o número de casos de tétano caiu drasticamente em decorrência das campanhas de vacinação em massa, sobretudo as direcionadas à prevenção do tétano materno e neonatal. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2022 foram registrados menos de 50 mil casos anuais em todo o mundo, uma redução expressiva em relação às estimativas de mais de 1 milhão de casos na década de 1980.
Apesar desse progresso, a doença ainda persiste em países de baixa renda, principalmente em áreas rurais da África e do Sudeste Asiático, onde a cobertura vacinal é limitada e os partos muitas vezes ocorrem sem condições adequadas de higiene.
Como se pega?
O Clostridium tetani é uma bactéria extremamente resistente, capaz de permanecer em estado de esporo por vários anos no ambiente, independentemente da temperatura ou da umidade. Esses esporos podem ser encontrados no solo, poeira, fezes de animais e objetos contaminados, e chegam a resistir até mesmo a alguns desinfetantes comuns.
Quando ocorre um corte ou ferimento, a barreira natural da pele é rompida e os tecidos internos ficam expostos às bactérias presentes no ambiente. Se houver contato com esporos do Clostridium tetani, eles podem se reativar, transformar-se em bactérias ativas e começar a se multiplicar no local da lesão.
O risco é maior em feridas profundas, sujas ou com pouca oxigenação, já que o Clostridium tetani se desenvolve melhor em ambientes com baixo teor de oxigênio. Nessas condições, a bactéria produz uma potente neurotoxina chamada tetanospasmina, responsável pelos sintomas neurológicos característicos do tétano.
Prego enferrujado transmite tétano?
A relação entre metais enferrujados e o tétano é muito difundida na população, porém, não é de toda real. O fato de um ferro ou prego estarem enferrujados em nada muda o risco dos mesmos estarem contaminados pela bactéria Clostridium tetani. O problema é a perfuração, já que um prego infectado pelo Clostridium tetani consegue inocular as bactérias mais profundamente. E como já referido, quanto mais profundo na pele, menor é a quantidade de oxigênio presente. Portanto, ferir-se com um prego no solo, esteja ele enferrujado ou não, oferece um grande risco de contaminação pelo tétano.
Qualquer objeto ou trauma que perfure ou corte a pele pode inocular o Clostridium tetani, inclusive mordidas de animais, queimaduras, uso de drogas endovenosas e até lesão por arma de fogo (leia: Mordida de cachorro – Cuidados e Tratamento).
Outra maneira de se contaminar com o tétano é manusear ou pisar descalço na terra ou adubo, tendo feridas abertas nas mãos ou nos pés. Na verdade, qualquer ferida que entre em contato com objetos ou sujeira pode ser uma porta de entrada para o Clostridium tetani. Por isso, é essencial manter a vacinação contra tétano sempre em dia (explico mais adiante).
Feridas com tecido desvitalizado (morto), como nos casos de queimaduras profundas ou lesões por esmagamento, apresentam elevado risco de tétano. Do mesmo modo, qualquer ferida que apresente detritos, sujeira ou qualquer corpo estranho também é perigosa. Pacientes politraumatizados por atropelamento ou acidente de carro costumam apresentar grandes feridas sujas, com áreas extensas de tecido morto, estando, assim, sob elevado risco de se contaminarem pelo Clostridium tetani.
Sintomas do tétano
O período de incubação, ou seja, o intervalo de tempo entre a contaminação e os primeiros sintomas, varia entre 2 dias até vários meses. Todavia, na maioria dos casos, os sintomas surgem dentro de 8 dias. A inoculação da bactéria em locais do corpo distantes do sistema nervoso central, como mãos ou pés, resulta em um período de incubação mais longo do que nas inoculações próximas do sistema nervoso central, por exemplo, na cabeça ou pescoço. Habitualmente, quanto mais curto for o período de incubação, mais agressivo será o tétano.
Após penetrar na pele, o Clostridium tetani deixa a forma de esporos e se torna uma bactéria ativa, passando a se reproduzir e a liberar toxinas. A neurotoxina tetanospasmina viaja pelo corpo até o sistema nervoso central, onde irá agir sobre os neurônios. No cérebro, a tetanospasmina causa uma estimulação exagerada dos neurônios, provocando prolongadas e persistentes contrações musculares.
A pintura acima é uma imagem típica de um opistótono, um dos sinais clássicos do tétano, uma violenta contração dos músculos do pescoço e do tronco, que forçam o paciente a ficar em uma posição arqueada. Outro quadro característico é o trismo, uma contração dos músculos maxilares, impedindo o paciente de abrir a boca, o que provoca o chamado riso sardônico.
As contrações são extremamente dolorosas e podem impedir o paciente de se alimentar e respirar. Muitas vezes, os doentes permanecem conscientes, o que torna o quadro ainda mais dramático. Os espasmos tetânicos são desencadeados por estímulos externos, como luz e barulho. Por isso, os pacientes com tétano devem ficar alocados em quartos isolados e silenciosos.

O acometimento dos neurônios pelo tétano também provoca sudorese intensa, palpitações, febre alta, alterações da pressão arterial (episódios de hipertensão alternados com hipotensão), dor de cabeça e agitação psicomotora.
O tétano costuma durar de 4 a 6 semanas.
Existe também o tétano neonatal, causado geralmente por partos fora de ambiente hospitalar e em locais de pouca higiene. O recém-nascido é contaminado pelo manuseio pouco higiênico do coto umbilical, principalmente através de fórmulas caseiras ou produtos não esterilizados, como manteiga, sucos ou moedas.
Tratamento
O tétano é uma doença amplamente prevenível através de vacinação. Porém, muitas pessoas não mantêm sua vacina em dia e se colocam em risco de contaminação pelo Clostridium tetani.
A vacina só serve para prevenir o tétano. Nos pacientes já contaminados e com sintomas, ela não apresenta utilidade. De qualquer modo, todo paciente com tétano curado deve ser vacinado, pois a infecção não confere imunidade e não protege o paciente de se contaminar novamente no futuro.
Para tratar o tétano, o primeiro passo é limpar bem a ferida que deu origem à contaminação, pois se ainda houver tecido morto ou corpo estranho, a bactéria pode permanecer ali alojada, produzindo toxinas indefinidamente.
Os antibióticos não agem diretamente na doença, pois eles não têm ação direta sobre os efeitos neurológicos das toxinas. Porém, o seu uso está indicado para eliminar o Clostridium tetani, interrompendo, assim, a produção de toxinas. Os antibióticos mais usados são o metronidazol ou a penicilina G.
A imunoglobulina contra o tétano é uma espécie de antídoto, que serve para inativar as toxinas circulantes no sangue que ainda não chegaram ao sistema nervoso central. Quanto mais cedo ela for administrada, mais eficaz no controle da doença ela será.
As toxinas já ligadas aos neurônios não são possíveis de serem removidas pela imunoglobulina, por isso, uma vez iniciados os sintomas, o único jeito é controlar os espasmos musculares com sedativos e relaxantes musculares até que o efeito da tetanospasmina se dissipe. Muitas vezes é preciso induzir os pacientes ao coma (leia: O que é coma induzido?).
Nos casos graves, os espasmos musculares podem comprometer a respiração de forma significativa, levando à insuficiência respiratória. Nessas situações, é frequentemente necessário recorrer à ventilação mecânica prolongada em unidade de terapia intensiva (UTI), até que os efeitos da toxina desapareçam. O suporte ventilatório pode se estender por várias semanas, o que justifica a alta mortalidade do tétano em locais com acesso limitado a cuidados intensivos.
Vacina antitetânica
O tétano tem vacina e faz parte do calendário básico de vacinação. A imunização primária é obtida após 3 doses da vacina tríplice contra tétano, coqueluche e difteria, habitualmente administrada durante a infância.
Após essa imunização primária, devemos repetir a vacinação a cada 10 anos com a vacina dupla DT (tétano/difteria) ou com a tripla dTpa (difteria, tétano e coqueluche acelular). A vacina não contém bactérias vivas e pode ser administrada em gestantes.
Quando o indivíduo se fere, é importante confirmar a data da última dose da vacina contra o tétano para saber se é necessário fazer um reforço. Para feridas pequenas, limpas e superficiais, o intervalo seguro é de 10 anos. Porém, em caso de feridas penetrantes, sujas (que tenham tido contato com o solo, fezes, saliva ou sujeira) ou nas lesões extensas, como acidentes automobilísticos, esmagamentos e queimaduras, o intervalo de segurança da vacina do tétano é de apenas 5 anos.
É importante lembrar que, se a ferida for de alto risco e a última vacinação tiver sido há mais de 5 anos, a vacina por si só não basta, é preciso também administrar a imunoglobulina para evitar o aparecimento do tétano.
Nas feridas limpas e superficiais, basta o reforço da vacina, não sendo necessário fazer imunoglobulina, mesmo que a última vacinação tenha sido há mais de 10 anos.
A vacina contra o tétano deve ser aplicada o mais rápido possível, mas os pacientes que só procuram ajuda médica vários dias depois da lesão podem recebê-la também, pois o período de incubação pode ser de meses, apesar do habitual ser apenas 8 dias.
Vacinação em Portugal
Em Portugal, o Programa Nacional de Vacinação (PNV) prevê um intervalo maior para os reforços da vacina contra o tétano em adultos jovens. Quando a última dose de reforço da vacina Td (tétano e difteria) é administrada entre os 18 e os 44 anos, a dose seguinte só precisa ser feita 20 anos depois, e não a cada 10 anos como ocorre em muitos outros países.
A partir dos 45 anos, o esquema volta a prever reforços mais regulares. Nessas idades, ou em situações específicas de risco (como ferimentos graves ou em pacientes com doenças crônicas), recomenda-se manter o intervalo clássico de 10 anos entre as doses. Esse ajuste do calendário português reflete estudos que demonstraram uma proteção mais prolongada contra o tétano em adultos jovens, sem comprometer a eficácia da imunização.
Fluxograma da profilaxia do tétano
O fluxograma abaixo resume quando a vacina e a imunoglobulina contra o tétano devem ser administradas (esquema preconizado pela OMS).

Perguntas frequentes sobre o tétano (FAQ)
Como se apanha o tétano?
O tétano é adquirido quando os esporos da bactéria Clostridium tetani, presentes no solo, poeira, fezes de animais ou objetos contaminados, entram no corpo através de uma ferida. O risco é maior em cortes profundos, perfurações por pregos, queimaduras, esmagamentos e feridas com presença de tecido morto ou sujeira.
Quando levar a vacina do tétano?
A vacina contra o tétano faz parte do calendário básico de imunização e deve ser iniciada na infância. Após as três doses da primovacinação, é necessário fazer reforço a cada 10 anos. Em casos de ferimentos graves ou contaminados, o reforço deve ser feito se a última dose tiver mais de 5 anos.
Quanto tempo dura o tétano no corpo?
O período de incubação do tétano varia de 2 dias até vários meses, mas, em média, os sintomas aparecem dentro de 8 dias após a contaminação. Já a doença, uma vez instalada, pode durar de 4 a 6 semanas, até que a toxina seja eliminada do organismo.
O que acontece se não tiver a vacina do tétano?
Quem não está vacinado corre risco de desenvolver a doença após uma ferida contaminada. O tétano pode causar espasmos musculares intensos, dificuldade para respirar e até levar à morte. Sem a vacina, o risco é muito maior, já que a infecção não gera imunidade natural e pode ocorrer mais de uma vez ao longo da vida.
Como fica a ferida do tétano?
O tétano não altera de forma característica a aparência da ferida. Na maioria das vezes, a lesão pode parecer comum — um corte, arranhão, queimadura ou perfuração. O que diferencia o tétano é que, mesmo com uma ferida aparentemente pequena ou já em cicatrização, a bactéria Clostridium tetani pode liberar toxinas que atingem o sistema nervoso e causam espasmos musculares. Por isso, o risco não está no aspecto da ferida, mas na contaminação e na falta de vacinação adequada.
Qual é o nome da vacina contra tétano?
A vacina contra o tétano não é administrada isoladamente. Ela faz parte de vacinas combinadas: na infância, está incluída na DTP (tríplice bacteriana: difteria, tétano e coqueluche); em adultos, geralmente é usada a dT ou dTpa (difteria + tétano, com ou sem coqueluche acelular). Em todos os casos, a proteção contra o tétano está presente.
Quais são as principais reações da vacina do tétano?
A vacina contra o tétano é muito segura. Os efeitos colaterais mais comuns são dor, vermelhidão e inchaço no local da aplicação, que costumam desaparecer em poucos dias. Alguns pacientes podem apresentar febre baixa, cansaço ou mal-estar passageiro. Reações graves, como alergia ou anafilaxia, são extremamente raras.
Dúvidas de leitores sobre este tema
Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.
Mais comentários dos leitores
Dr. Tive um leve arranhão por superfície enferrujada, não sangrou, lavei com sabão neutro, tomei a última dose da vacina contra o tétano há 5 anos, existe perigo nessa situação?
Hoje dia 17/05/2024 tive um pequeno ferimento causado pelo descanso (tripé) da moto e saiu sangue, lavei com soro fisiológico, a última dose de vacina antitetanica que tomei foi dia 03/05/2019, acaboi de fazer 5 anos, estou protegido?
Oi doutora, hoje cortei a minha orelha bo varal de casa, tomei 3 doses da vacina antitetano quando criança e adolescente (última 2015), necessito tomar novamente? Vence 2025
A 3 meses tomei uma vacina antitetanica, pois sofir uma fratura exposta no dedo da mão, e ontem anoite furei meu dedo numa tarrachinha enferrujada, eu apertava o dedo e saia bastante sangue. como tem 3 meses q tomei a vacina, é preciso tomar novamente?
Olá Dr. hoje me furei com um agulha de costura. Minha vacina foi em 09/2016. Li que para ferimentos pequenos é 10 anos de validade, é isso ? Então estaria protegida ?
Perdi uma amiga ontem, feriou o pé no dia 12/05 com arrame, não cuidou o pé inflamou…só tomou a vacina dia 10/06 depois ficou vomitando sangue foi ao hospital e já estava com infecção generalizada e faleceu 11/06 tudo muito rápido.
Excelente matéria.
Doutor, espetei meu dedo num prego enferrujado mas não enxerguei nenhum sangramento. Logo em seguida comecei a sentir incômodos muscular na palma da mão até o braço e ombro. Acha que isso pode ter algum tipo de relação?
Parabéns doutor pela ótima matéria.
A minha dúvida é sobre a aplicação de brincos em bebês. Fui informada que o mais seguro seria aos 2meses de vida, apos as vacinas. Mas pelo que entendi lendo a matéria a criança só estará imuni após as 3,doses da vacina.
Então, qual o melhor período para fazer essa aplicação?
Doutor desconfio que meu gato taça com tétano pq ele taça com uma ferida na perninha da frente e um furinho só que ele me mordeu no dedo quando fui limpar a ferida ele morreu hj o gato o que devo fazer? Devo tomar alguma vacina ?!