Cansaço e excesso de sono na gravidez


Foto do autor
Revisado e atualizado em outubro 18, 2025
comments Created with Sketch Beta. 8 dúvidas respondidas

Introdução

Um dos sintomas mais comuns da gravidez é um intenso e aparentemente inexplicável cansaço, que frequentemente vem acompanhado de sono excessivo. A gestante em seus primeiros meses de gravidez cansa-se por tudo e por nada e a cama parece sempre ser o local em que ela melhor se sente.

Mesmo as mulheres que historicamente sempre dormiram pouco, ou que eram cheias de energia, capazes de acumular múltiplas tarefas profissionais e esportivas, acabam sendo derrubadas pelo cansaço e pelo sono na gravidez. Às vezes, nem um capítulo inteiro da novela elas conseguem assistir sem cair no sono.

Para algumas mulheres, a palavra cansaço pode soar até como um eufemismo, pois o que elas realmente sentem é mais do que cansaço, é uma sensação de exaustão.

As primeiras semanas de gestação podem ser terríveis para a futura mãe, pois, além do cansaço e do sono, também são muito comuns as náuseas e os vômitos (leia: Náuseas e vômitos na gravidez).

Com o fim do primeiro trimestre, os sintomas tendem a desaparecer e a gestante volta a sentir-se bem. Porém, a fadiga volta no terceiro trimestre, momento em que o bebê já está bem grande e a grávida encontra-se, além do barrigão, com pelo menos 10 a 12 quilos acima do seu peso habitual.

Neste artigo, faremos uma revisão sobre o cansaço e o sono que acometem as grávidas no primeiro e terceiro trimestres de gestação. Para saber mais sobre outros comuns sintomas de gravidez, acesse o link: 25 Sintomas de gravidez.

Quais são as causas do cansaço na gravidez?

O cansaço e o sono excessivo surgem no primeiro trimestre, não tendo, em um primeiro momento, nada a ver com o peso do feto ou com o tamanho da barriga.

O cansaço e o sono têm origem nas alterações hormonais e fisiológicas que o corpo da mulher começa a sofrer já nas primeiras semanas de gestação. Entre os vários hormônios que se alteram na gravidez, a progesterona é o que se destaca mais. Ao longo da gestação, os níveis deste hormônio chegam a aumentar em mais de 500%. A progesterona é essencial para a manutenção da gravidez e para o desenvolvimento do feto, porém, ela provoca diversos efeitos colaterais, sendo a sensação de cansaço extremo e o sono excessivo um dos seus principais.

Além da ação direta da progesterona no sistema nervoso central, o que provoca intenso sono na gravidez, várias alterações fisiológicas do organismo e do corpo da mulher, muitas delas também estimuladas pela própria progesterona, colaboram para o cansaço.

A grávida, nas primeiras semanas, além de desenvolver o feto, precisa gerar a placenta que irá nutrir o bebê ao longo da gravidez. Esse processo demanda muito gasto de energia, fazendo com que o organismo da mulher priorize o desenvolvimento da gravidez em detrimento das suas atividades do dia a dia.

A demanda de oxigênio do corpo para manter uma gravidez chega a aumentar em 20%. Um dos efeitos da progesterona é estimular a área cerebral responsável pelo controle da respiração, de forma a aumentar a frequência respiratória basal da gestante, compensando, assim, a maior necessidade de oxigênio do corpo.

A grávida, portanto, já respira de forma mais rápida que o habitual e usa parte do oxigênio inspirado para o desenvolvimento do feto e da placenta. Por isso, qualquer atividade física que demande um aumento ainda maior do consumo de oxigênio costuma ser tão mal tolerada, principalmente pelas mulheres que eram sedentárias antes da gravidez e têm uma capacidade cardiopulmonar abaixo da desejada.

O feto e a placenta também demandam sangue, e parte da circulação sanguínea é desviada para o novo ser em desenvolvimento. Além do desvio de sangue, os hormônios da gravidez também estimulam uma redução da pressão arterial, provocada por vasodilatação das artérias. Logo, na gestante, há uma pressão arterial mais baixa para irrigar uma área tecidual maior que a habitual.

Além de tudo isso, a retenção de líquidos dilui o sangue, fazendo com que a grávida tenha uma anemia relativa, o que colabora ainda mais para o cansaço e para a intolerância aos esforços.

Melhoria no 2º trimestre e retorno do cansaço no 3º trimestre

Ao final do primeiro trimestre, os níveis hormonais se estabilizam e a placenta já se encontra formada. O cansaço e o sono melhoram bastante. Muitas mulheres voltam a se sentir bem-dispostas. O segundo trimestre é conhecido como o “trimestre feliz”, pois todo aquele “desespero” das primeiras semanas costuma desaparecer.

Porém, infelizmente, o bem-estar dura pouco. Conforme o útero e a barriga começam a crescer, o peso do bebê, associado à compressão dos vasos sanguíneos da pelve e do abdômen e à restrição à movimentação do diafragma, voltam a deixar a gestante fisicamente esgotada.

A gestante no terceiro trimestre é obrigada a carregar um excesso de peso. O bebê por si só pesa ao redor de 3 quilos. Só de água corporal e líquido amniótico são mais 6 a 8 quilos. Placenta e útero juntos pesam quase 2 quilos.

Portanto, uma gestante, ao final da gravidez, é obrigada a carregar cerca de 12 quilos a mais do que estava acostumada a carregar meses antes. É muito ganho de peso em um intervalo muito curto, não havendo tempo para o corpo se adaptar.

Além disso, a progesterona, sempre ela, também atua nos músculos, tendões, ligamentos e articulações do corpo, alterando o seu funcionamento normal, o que predispõe a gestante a dor e lesões osteomusculares.

Além do cansaço, o sono volta a incomodar a grávida no terceiro trimestre, desta vez não somente por ação direta da progesterona no sistema nervoso central, mas porque o imenso útero impede que a gestante tenha uma boa noite de sono. Na fase final da gravidez, dormir de barriga para cima ou para baixo é impossível e desaconselhado. A grávida precisa passar a noite de lado e tem grande dificuldade de mudar de posição durante o sono.

Para piorar, a ação direta da progesterona e a compressão da bexiga pelo útero fazem com que a grávida precise urinar a toda hora. Algumas mulheres precisam levantar mais de uma vez durante a noite para fazer xixi, interrompendo o seu já difícil sono.

Portanto, além de todo o cansaço acumulado ao longo do dia pelo excesso de peso, pelas dores, pelo xixi frequente e pela dificuldade de respirar (devido a um útero gigante que comprime o diafragma), a grávida ainda tem dificuldade de repor suas energias durante o sono noturno.

Como atenuar o cansaço da gravidez?

Antes de mais nada, é preciso entender que o sono e o cansaço da gravidez são, na verdade, uma forma do seu corpo lhe avisar que ele precisa de descanso e energia de sobra para desenvolver o bebê. O ponto mais importante é compreender e aceitar isso. As primeiras semanas de gravidez são mesmo para descansar ao máximo e evitar esforços desnecessários.

O sono e a exaustão duram poucas semanas e depois melhoram muito. Durante esse período, evite situações sociais ou profissionais que não sejam essenciais. Dê um descanso para o seu corpo.

O mais importante é dormir sempre que o corpo pede. Obviamente, por questões profissionais, nem sempre isso é possível. Infelizmente, vivemos em uma sociedade que pouco respeita os contratempos de uma gravidez. Se a grávida não tem um barrigão de final de gestação, é pouco provável que algum chefe vá permitir qualquer tipo de alteração nos horários ou na jornada de trabalho, por mais que a gravidez inicial esteja deixando a mulher exausta. De qualquer forma, converse com o seu chefe, veja se você consegue ao longo do dia um ou dois períodos de 15 a 20 minutos para não fazer nada e tentar tirar um cochilo. Pode parecer pouco, mas já ajuda muito.

Se não for possível dormir durante o dia, vá para a cama cedo à noite. Se você já tem filhos, peça ajuda ao marido ou a familiares. Entenda que você precisa dormir mais do que estava habituada antes da gravidez. A partir da 16ª semana de gravidez, dê preferência a dormir de lado, principalmente do lado esquerdo; você terá um sono mais agradável.

Evite longos períodos de jejum, pois estes podem piorar o cansaço e os enjoos, e procure se hidratar bem. Beba mais água durante o dia do que à noite para não sentir tanta vontade de urinar de madrugada. Evite bebidas que contenham cafeína, pois esta pode atrapalhar o seu sono.

Coma frutas, verduras, proteínas e carboidratos complexos. Evite alimentos gordurosos. Se você tiver anemia, reposição de ferro costuma ajudar.

Pratique atividades físicas leves, como caminhadas, yoga ou natação. Por mais que você esteja cansada, leves atividades físicas ajudam a liberar endorfina e melhoram o seu condicionamento cardiorrespiratório, o que, ao longo dos dias, fará você se sentir muito melhor e menos cansada.


Referências



Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Sandra

    Estou tentando me alimentar bem mas continuo me sentindo muito cansada. Existe alguma dieta ou alimento específico que ajude com essa fadiga gestacional?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Sim, a alimentação exerce um papel importante no controle do cansaço durante a gestação. Embora o sono e a fadiga sejam sintomas fisiológicos nos primeiros e últimos meses da gravidez, alguns ajustes nutricionais podem contribuir para reduzir a intensidade desses sintomas.

    Algumas orientações práticas incluem:

    – Fracionar as refeições ao longo do dia, com lanches saudáveis entre as principais refeições, evitando longos períodos de jejum.
    – Incluir carboidratos complexos (como arroz integral, aveia, batata-doce e quinoa), que fornecem energia de forma sustentada, evitando picos de glicose seguidos de queda, que agravam a fadiga.
    – Aumentar a ingestão de ferro, presente em carnes magras, vegetais verde-escuros e leguminosas (como feijão e lentilha), sempre combinados com fontes de vitamina C (ex: suco de laranja ou limão) para melhorar a absorção.
    – Incluir proteínas magras em todas as refeições, como ovos, iogurte natural, frango ou peixe.
    – Evitar alimentos ultraprocessados e ricos em açúcar, que causam flutuações de energia e aumentam a sensação de cansaço.
    – Manter boa hidratação, preferencialmente com água, água de coco ou sucos naturais. A desidratação leve é comum e pode intensificar a fadiga.

    Caso o cansaço seja severo e persistente, é importante considerar também a reposição de ferro, vitamina B12, vitamina D ou magnésio, conforme orientação médica. Um acompanhamento com nutricionista especializado em gestantes pode fazer toda a diferença na disposição física durante a gravidez.

  2. Katia

    Estou me sentindo tão cansada que mal tenho forças para levantar do sofá. O meu obstetra falou que eu posso fazer caminhadas leves, mas com tanto sono e peso nas pernas será que vale a pena?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Sim — mesmo no contexto de cansaço e sonolência na gravidez, a prática de atividade física leve e regular (como caminhada, yoga ou hidroginástica para gestantes) é recomendada, pois melhora a circulação, reduz a sensação de fadiga, favorece o sono e ajuda no condicionamento físico para o terceiro trimestre.

    Obviamente, ela deve ser adaptada à tolerância da gestante e preferencialmente orientada por um obstetra ou profissional de saúde. Se você estiver muito exausta, comece com curtos períodos, por exemplo, 10‑15 minutos de caminhada dois a três vezes por dia. Além disso, se o cansaço vier acompanhado de outros sinais como falta de ar, palpitações, tontura ou dor no peito, informe o seu médico antes de prosseguir com o exercício.

  3. Beth

    Sei que o cansaço na gravidez é normal, mas às vezes me sinto tão fraca que começo a pensar se pode ser algo mais sério, como anemia ou problemas na tireoide. Como saber a diferença?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Essa é uma dúvida muito comum. De fato, o cansaço é uma manifestação esperada, especialmente no primeiro e no terceiro trimestres da gestação. No entanto, há situações em que ele pode ser agravado por outras condições clínicas que também são relativamente frequentes durante a gravidez, como anemia ferropriva e hipotireoidismo gestacional.

    A anemia costuma se manifestar com fraqueza desproporcional, palpitações, tontura ao levantar, unhas frágeis ou queda de cabelo. Já o hipotireoidismo pode provocar, além da fadiga intensa, intolerância ao frio, constipação, ganho de peso fora do esperado e sonolência extrema.

    Como os sintomas se sobrepõem aos da própria gravidez, a confirmação depende da realização de exames laboratoriais. Por isso, o pré-natal inclui, de forma rotineira, a dosagem de hemoglobina e dos hormônios da tireoide, justamente para identificar essas alterações precocemente.

    Se o cansaço for excessivo, persistente ou vier acompanhado de sinais como palidez, batimentos acelerados, sensação de desmaio ou lentidão cognitiva, converse com seu obstetra.

  4. Pity

    Sinto uma vontade enorme de dormir o tempo todo até em reuniões ou dirigindo desde que descobri que estou grávida. É normal ter esse sono excessivo ou isso pode ser sinal de algo errado na gravidez?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Sim — a sensação de sono excessivo durante o dia é muito comum nos estágios iniciais da gravidez e geralmente faz parte do quadro de cansaço gestacional. Isso acontece porque os níveis de progesterona se elevam de forma significativa, colaborando para a sonolência, e o corpo está trabalhando intensamente para formar a placenta e aumentar o volume sanguíneo.

    Entretanto, se esse sono for tão intenso que compromete a segurança (como dormir dirigindo), ou vier acompanhado de sintomas como tontura grave, palpitações ou falta de ar, vale alertar o seu obstetra: pode haver causas adicionais, como anemia, hipotensão ou apneia do sono gestacional.

    Enquanto isso, permita‑se cochilar quando possível, mantenha boa hidratação e evite atividades arriscadas se sentir sonolenta.

Envie sua dúvida sobre este artigo

Escreva uma pergunta clara, objetiva e relacionada ao tema do texto. Dúvidas que também possam ajudar outros leitores têm prioridade. Perguntas sobre casos pessoais, pedidos de diagnóstico ou orientação médica individualizada podem não ser publicadas.