O que é o hipertireoidismo?
O hipertireoidismo é uma condição em que a glândula tireoide passa a funcionar de forma inadequada, produzindo excessivamente os hormônios tireoidianos T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina).
A principal causa do hipertireoidismo é a doença de Graves, uma enfermidade de origem autoimune.
Os hormônios tireoidianos desempenham um papel fundamental no controle do metabolismo corporal, ou seja, no modo como as células utilizam os nutrientes para gerar energia. Quando a tireoide libera hormônios em excesso, o metabolismo acelera, gerando uma série de sintomas típicos do hipertireoidismo, como:
- Coração acelerado (taquicardia).
- Perda de peso, mesmo com apetite mantido ou aumentado.
- Suor excessivo.
- Tremores nas mãos.
- Sensação de calor constante.
- Irritabilidade e ansiedade.
Esse quadro de hiperfunção da tireoide afeta diversos órgãos e sistemas, podendo ter impacto significativo na qualidade de vida, especialmente se não for diagnosticado e tratado precocemente.
Como surge?
Para entender o que causa o hipertireoidismo, é importante conhecer primeiro o funcionamento da glândula tireoide e a regulação dos hormônios T3 (triiodotironina), T4 (tiroxina) e TSH (hormônio estimulador da tireoide).
A tireoide é uma glândula localizada na parte anterior do pescoço, cuja função principal é produzir os hormônios T3 e T4. Esses hormônios regulam o metabolismo do organismo, influenciando o gasto energético, a temperatura corporal, o ritmo cardíaco, o funcionamento intestinal e o controle do peso.
No entanto, a produção desses hormônios não ocorre de forma aleatória. Ela é cuidadosamente controlada por uma pequena glândula no cérebro chamada hipófise, que libera o hormônio TSH. O TSH é o mensageiro que “ordena” à tireoide quanto T3 e T4 ela deve produzir.
Esse sistema funciona em equilíbrio, por meio de um mecanismo de retroalimentação (feedback negativo):
- Quando há baixa concentração de T3 e T4 no sangue, a hipófise aumenta a produção de TSH, estimulando a tireoide a produzir mais hormônios.
- Quando os níveis de T3 e T4 estão altos, a hipófise reduz a liberação de TSH, inibindo a produção de novos hormônios.

Esse ciclo se repete constantemente, mantendo o metabolismo equilibrado. No hipertireoidismo, porém, esse mecanismo de controle falha e a tireoide continua a produzir hormônios em excesso, mesmo sem necessidade.
TSH, T3 e T4: como funciona a regulação da tireoide
Após compreender o papel da tireoide no metabolismo, vale detalhar as características e a importância clínica de seus principais hormônios: TSH, T3 e T4.
TSH: o regulador central
O TSH (hormônio estimulador da tireoide) é produzido pela hipófise e funciona como o principal sinalizador da atividade tireoidiana. Seus níveis no sangue ajudam a detectar distúrbios da tireoide antes mesmo de alterações hormonais evidentes, o que torna o TSH o principal exame de triagem para avaliar disfunções tireoidianas.
- TSH baixo sugere hipertireoidismo (inibição por excesso de T3 e T4).
- TSH alto sugere hipotireoidismo (resposta à falta de T3 e T4).
T3 e T4: hormônios tireoidianos ativos
A tireoide produz T4 (tiroxina) em maior quantidade e T3 (triiodotironina) em menor proporção. No entanto, o T3 é cerca de quatro vezes mais potente que o T4 no estímulo ao metabolismo celular.
A maior parte do T3 não vem diretamente da tireoide, mas sim da conversão periférica do T4 em T3, especialmente no fígado e nos rins. Por isso:
- O T4 funciona como pró-hormônio, sendo a principal fonte de T3 nos tecidos.
- O T3 é o hormônio efetivamente ativo que regula o metabolismo celular.
Essa conversão é fundamental para a regulação do metabolismo, e alterações nesse processo (por doenças, medicações ou estados fisiológicos) podem afetar os níveis de T3 mesmo quando o T4 está normal.
O que é o T4 livre?
No sangue, os hormônios tireoidianos T4 e T3 circulam majoritariamente ligados a proteínas carreadoras, principalmente à TBG (thyroxine-binding globulin, ou globulina ligadora de tiroxina). Essa ligação torna os hormônios inativos, ou seja, incapazes de agir nas células.
Apenas uma pequena fração, chamada de T4 livre, permanece não ligada a proteínas e está metabolicamente ativa. É esse T4 livre que pode entrar nas células e ser convertido em T3, o hormônio responsável por acelerar o metabolismo.
Menos de 1% do T4 total no sangue está na forma livre, mas é justamente essa fração que determina o efeito biológico do hormônio.
Por que o T4 livre é importante?
A dosagem do T4 livre no sangue é um dos exames mais úteis para avaliar a função tireoidiana, especialmente quando associada ao TSH:
- T4 livre alto + TSH baixo → sugestivo de hipertireoidismo.
- T4 livre baixo + TSH alto → sugestivo de hipotireoidismo.
O T4 livre é um marcador confiável do potencial metabólico ativo da tireoide. Como ele reflete apenas a fração hormonal biologicamente útil, é mais preciso do que o T4 total, especialmente em condições que alteram as proteínas carreadoras (como gravidez, uso de anticoncepcionais ou estrogênios).
Resumo: o caminho do T4 até o metabolismo celular
- A tireoide libera T4, que circula principalmente ligado à TBG.
- Uma minoria permanece como T4 livre, que pode ser usado pelos tecidos.
- Nos tecidos, o T4 livre é convertido em T3, que age diretamente nas células.
- O T3 é o hormônio final responsável pela regulação do metabolismo.
Portanto, o nível de T4 livre é determinante para a quantidade de T3 ativo que será produzido nos tecidos periféricos. Quando o T4 livre está elevado, o risco de hipertireoidismo aumenta. Quando está baixo, o risco é de hipotireoidismo.
Para saber mais sobre o TSH, T3 e T4, leia: TSH e T4 Livre — Exames da tireoide.
Hipertireoidismo primário ou central
O hipertireoidismo ocorre quando há uma produção excessiva de hormônios tireoidianos (T3 e T4) que o organismo não consegue controlar por meio dos mecanismos habituais de regulação. Isso pode acontecer por diferentes motivos, que ajudam a classificar a doença em dois tipos principais:
Hipertireoidismo primário.
O hipertireoidismo primário é o mais comum. Nesse caso, o problema está na própria tireoide, que passa a produzir T3 e T4 de forma autônoma, ou seja, independentemente do estímulo da hipófise.
Quando os níveis de T3 e T4 se elevam no sangue, a hipófise responde adequadamente, reduzindo a produção de TSH. Porém, como a tireoide está desregulada, ela continua secretando hormônios em excesso, ignorando o sinal inibitório do TSH.
Padrão laboratorial típico do hipertireoidismo primário:
- TSH suprimido (baixo).
- T3 e/ou T4 livre elevados.
Hipertireoidismo central
O hipertireoidismo central é uma forma rara da doença. Nesse caso, o problema está na hipófise, que passa a secretar TSH de forma descontrolada — geralmente devido a um adenoma hipofisário produtor de TSH (tumor benigno).
Esse excesso de TSH estimula a tireoide a produzir grandes quantidades de T3 e T4, levando ao quadro de hipertireoidismo. Como o estímulo vem do cérebro, a glândula tireoide está apenas respondendo ao comando recebido.
Padrão laboratorial típico do hipertireoidismo central:
- TSH inapropriadamente normal ou elevado.
- T3 e T4 livre elevados.
Esse padrão é considerado inadequado porque, diante de altos níveis de T3 e T4, o esperado seria o TSH estar suprimido. Quando isso não acontece, deve-se suspeitar de disfunção central.
Sintomas do hipertireoidismo
Independentemente da causa, o hipertireoidismo provoca sintomas devido ao excesso de hormônios tireoidianos ativos (principalmente T3) na circulação. Esse excesso acelera o metabolismo e afeta múltiplos órgãos e sistemas do corpo, gerando um quadro clínico característico conhecido como tireotoxicose.
Os sinais e sintomas do hipertireoidismo variam de pessoa para pessoa e podem se desenvolver gradualmente. Em muitos casos, são confundidos com quadros de ansiedade, estresse ou outras doenças. Os sintomas mais comuns incluem:
- Ansiedade, nervosismo e irritabilidade.
- Insônia e agitação.
- Perda de peso inexplicada, mesmo com apetite mantido ou aumentado.
- Taquicardia (frequência cardíaca >100 bpm).
- Palpitações e arritmias cardíacas.
- Tremores finos nas mãos.
- Sensação constante de calor e intolerância ao calor.
- Sudorese excessiva.
- Fraqueza muscular, principalmente nos braços e coxas.
- Cansaço fácil.
- Aumento do número de evacuações ou diarreia.
- Redução ou interrupção da menstruação.
- Bócio (aumento visível da tireoide no pescoço).
- Retração palpebral (aspecto de olhar arregalado).
Bócio: o aumento da tireoide
O bócio é o aumento do volume da glândula tireoide, perceptível como um abaulamento na parte anterior do pescoço. Ele ocorre quando há um estímulo persistente para a produção de hormônios, como acontece na doença de Graves e em outras causas de hipertireoidismo.
O bócio pode ser difuso (a glândula cresce por igual) ou nodular (crescimento irregular com nódulos).

Intensidade variável
- Em idosos, o hipertireoidismo pode se manifestar de forma mais sutil, com apatia, depressão, perda de peso e arritmias cardíacas — quadro conhecido como hipertireoidismo apático.
- Em crianças e adolescentes, pode haver aceleração do crescimento, hiperatividade e dificuldade de concentração.
Tireotoxicose: o termo clínico para o excesso hormonal
O termo tireotoxicose descreve o estado clínico de excesso de hormônios tireoidianos no organismo, independentemente da causa. Ou seja, todo hipertireoidismo leva à tireotoxicose, mas nem toda tireotoxicose é causada por hipertireoidismo — esse ponto será abordado na próxima seção.
Qual é a diferença entre tireotoxicose e hipertireoidismo?
Embora frequentemente usados como sinônimos, tireotoxicose e hipertireoidismo não significam exatamente a mesma coisa — e essa distinção é importante tanto para o diagnóstico quanto para o tratamento.
- O hipertireoidismo é uma condição clínica caracterizada pela produção excessiva de hormônios tireoidianos pela própria glândula tireoide. Ou seja, é uma doença de origem tireoidiana, em que há aumento da síntese e liberação de T3 e T4. Exemplos: doença de Graves, bócio multinodular tóxico, adenoma tóxico.
- A tireotoxicose é o estado clínico de excesso de hormônios tireoidianos circulantes no organismo, independentemente da sua origem. Pode ser causada por um hipertireoidismo verdadeiro, mas também pode surgir por outras razões, como uso inadequado de medicamentos ou inflamações da tireoide (tireoidite).
A imensa maioria dos casos de tireotoxicose é causada por hipertireoidismo. Mas não todos.
Exemplos de tireotoxicose sem hipertireoidismo
Tireotoxicose iatrogênica
Ocorre quando o paciente com hipotireoidismo utiliza doses excessivas de reposição hormonal, levando a um quadro clínico de excesso de T3/T4 no sangue. Apesar dos sintomas, a glândula tireoide está inativa — o problema vem do tratamento com doses excessivas.
Tireotoxicose factícia
Causada pela ingestão acidental ou intencional de produtos que contêm hormônios tireoidianos ocultos em sua composição, como:
- Suplementos alimentares para emagrecimento.
- Fitoterápicos ou “medicinas naturais”.
- Fórmulas manipuladas sem controle.
- Preparações da medicina tradicional chinesa.
Esses produtos, muitas vezes não regulamentados, podem conter T3 ou T4, levando à tireotoxicose mesmo sem disfunção da tireoide.
Tempestade tireoidiana
A tempestade tireoidiana, também chamada de crise tireotóxica, é uma complicação rara, porém grave e potencialmente fatal do hipertireoidismo descompensado. Trata-se de uma forma extrema de tireotoxicose, com intensificação súbita e descontrolada dos sintomas clínicos.
Embora seja incomum, essa condição exige reconhecimento e tratamento imediatos, pois pode evoluir rapidamente para insuficiência orgânica e morte.
Quais são os sintomas da tempestade tireoidiana?
Os sinais são semelhantes aos do hipertireoidismo comum, porém ocorrem de forma muito mais intensa e aguda:
- Febre alta, frequentemente acima de 41 °C.
- Taquicardia severa.
- Arritmias e sinais de insuficiência cardíaca.
- Tremores intensos.
- Náuseas e vômitos.
- Diarreia intensa e desidratação.
- Agitação extrema, ansiedade ou delírium.
- Alteração do nível de consciência (confusão mental ou coma).
O que pode desencadear a tempestade tireoidiana?
A tempestade tireoidiana geralmente surge em pacientes com hipertireoidismo não tratado ou mal controlado, que são expostos a situações de grande estresse físico ou emocional. Os principais gatilhos incluem:
- Infecções graves.
- Cirurgias ou anestesia.
- Traumas.
- Parto.
- Interrupção abrupta da medicação antitireoidiana.
Felizmente, essa complicação é rara. Estima-se que menos de 1% dos pacientes com tireotoxicose desenvolvam uma tempestade tireoidiana. Ainda assim, a taxa de mortalidade é alta, variando de 10% a 30%, mesmo com tratamento hospitalar intensivo.
Informações em vídeo sobre a tireoide
No vídeo abaixo, explicamos de forma simples como surgem os sintomas das doenças da tireoide.
O que é a doença de Graves?
A doença de Graves, também chamada de bócio difuso tóxico ou doença de Basedow-Graves, é a causa mais comum de hipertireoidismo. Trata-se de uma doença autoimune, na qual o sistema imunológico produz anticorpos que estimulam de forma inadequada a tireoide, levando à produção excessiva de T3 e T4.
Como a doença de Graves provoca hipertireoidismo?
Na doença de Graves, o sistema imune passa a produzir autoanticorpos chamados TRAb (anticorpos anti-receptores de TSH). Esses anticorpos se ligam aos receptores de TSH localizados na tireoide, imitando a ação do TSH, mesmo quando os níveis hormonais já estão elevados.
O resultado é uma estimulação contínua da glândula, que passa a produzir hormônios em excesso, de forma descontrolada.
Cerca de 95% dos pacientes com doença de Graves têm TRAb detectável no sangue, sendo esse um importante marcador diagnóstico.
Quem tem mais risco de desenvolver a doença?
- Mulheres (cerca de 8 vezes mais que homens).
- Idade entre 20 e 40 anos.
- Histórico familiar de doenças autoimunes.
- Tabagismo (aumenta risco e gravidade da oftalmopatia).
Manifestações específicas da doença de Graves
Além dos sintomas típicos do hipertireoidismo, a doença de Graves pode apresentar sinais característicos que não estão presentes em outras causas de hipertireoidismo. Os dois mais importantes são:
Oftalmopatia de Graves
A oftalmopatia de Graves é uma complicação ocular autoimune associada à doença de Graves. Os mesmos anticorpos que atacam a tireoide afetam também os músculos e tecidos ao redor dos olhos, provocando inflamação, fibrose e acúmulo de fluido.
Principais sinais e sintomas:
- Protusão dos olhos (exoftalmia) — aspecto de “olhar saltado”.
- Retração palpebral — aumento da abertura dos olhos, visível até em repouso.
- Edema ao redor dos olhos (periorbital).
- Dor ocular, sensação de areia nos olhos.
- Visão dupla (diplopia).
- Olhos vermelhos, lacrimejamento e fotofobia.
- Em casos graves: compressão do nervo óptico e risco de cegueira.
A exoftalmia na doença de Graves é geralmente assimétrica e tão pronunciada que é possível ver o branco dos olhos (esclera) acima e abaixo da íris.

Algumas pessoas têm olhos naturalmente mais protuberantes. Além disso, o próprio excesso de hormônios tireoidianos pode levar a uma retração da pálpebra. Porém, na oftalmopatia de Graves, a protusão é tão importante que frequentemente é possível ver o branco dos olhos (esclera) acima e abaixo da íris, como mostrado na figura acima.
Dermopatia de Graves
Embora rara, essa manifestação pode ocorrer em alguns pacientes e está associada à infiltração da pele por substâncias inflamatórias e autoanticorpos.
Características clínicas:
- Espessamento da pele, geralmente na região das canelas (pré-tibial).
- Edema firme e indolor.
- Aspecto ceroso ou com nódulos.
- Escurecimento da pele.

Outras causas de hipertireoidismo
Embora a doença de Graves seja a causa mais comum de hipertireoidismo, existem outras condições capazes de levar à produção excessiva de hormônios tireoidianos. Cada uma tem características clínicas, laboratoriais e evolutivas distintas, o que exige uma abordagem diagnóstica cuidadosa.
Abaixo, descrevemos as principais causas não autoimunes de hipertireoidismo:
1. Bócio multinodular tóxico (Doença de Plummer)
Nesta condição, a glândula tireoide desenvolve múltiplos nódulos que passam a produzir T3 e T4 de forma autônoma, independentemente do controle pelo TSH.
- Ocorre geralmente em pessoas acima dos 50 anos.
- A progressão é lenta, e os sintomas podem ser sutis.
- A tireoide apresenta-se aumentada e irregular ao exame físico.
- A cintilografia mostra áreas com captação aumentada (quente) e outras com captação reduzida.
2. Adenoma tóxico (nódulo autônomo)
Semelhante ao bócio multinodular, porém com apenas um nódulo hiperfuncionante, também chamado de nódulo quente.
- Produz hormônios em excesso, suprimindo o TSH.
- Aparece como nódulo isolado na ultrassonografia e na cintilografia.
- O restante da tireoide pode estar atrofiado por inatividade.
Para saber mais sobre nódulos da tireoide: Nódulo de tireoide – Diagnóstico e como diferenciá-lo do câncer).
3. Tireoidite
A tireoidite é uma inflamação da glândula tireoide que pode resultar em liberação transitória dos hormônios armazenados, provocando tireotoxicose temporária, seguida de hipotireoidismo e, depois, recuperação.
As principais formas incluem:
- Tireoidite subaguda (de Quervain): geralmente pós-viral, com dor cervical e febre.
- Tireoidite pós-parto: autoimune, aparece semanas após o parto.
- Tireoidite silenciosa: sem dor, muitas vezes confundida com a forma subclínica de Graves.
Nesses casos, a tireoide não está hiperfuncionante, mas sim “vazando” hormônio. A captação de iodo radioativo costuma estar reduzida.
4. Hipertireoidismo iatrogênico
Ocorre quando há uso excessivo de hormônios tireoidianos sintéticos, como a levotiroxina (T4), geralmente em pacientes com hipotireoidismo.
- É comum em tratamentos mal ajustados ou automedicação.
- O ajuste da dose costuma ser suficiente para a reversão dos sintomas.
5. Tireotoxicose factícia
Semelhante ao hipertireoidismo iatrogênico, porém sem prescrição médica formal. A tireotoxicose ocorre pela ingestão de produtos que contêm hormônios tireoidianos ocultos, como:
- Fórmulas para emagrecimento;
- “Produtos naturais” sem registro;
- Suplementos de academia ou medicina alternativa.
Essa prática é perigosa e pode levar a complicações graves, como arritmias e tempestade tireoidiana.
6. Adenoma hipofisário secretor de TSH
Forma rara de hipertireoidismo central, causada por um tumor benigno na hipófise que secreta TSH de forma inapropriada, mesmo na presença de T3 e T4 elevados.
- Representa menos de 1% dos casos.
- O TSH encontra-se normal ou elevado, em vez de suprimido.
- Pode causar sinais neurológicos, como cefaleia e distúrbios visuais, devido à compressão de estruturas cerebrais.
Diagnóstico do hipertireoidismo
O diagnóstico do hipertireoidismo é feito com base em uma combinação de sinais e sintomas clínicos, exames laboratoriais e, quando necessário, exames de imagem da tireoide.
O reconhecimento precoce é essencial para evitar complicações cardiovasculares, metabólicas e neuropsiquiátricas.
Ao exame físico, o paciente com hipertireoidismo pode se apresentar com hiperatividade, fala rápida, tremores nas mãos e batimentos cardíacos acelerados. A presença de bócio depende da causa do hipertireoidismo.
Exoftalmia, edema periorbital e conjuntival, limitação do movimento ocular e dermopatia de Graves ocorrem apenas em pacientes com doença de Graves. Não estão presentes nos pacientes com hipertireoidismo por outras causas.
Exames laboratoriais
A primeira etapa na investigação hormonal é a dosagem dos hormônios tireoidianos:
Valores de referência (podem variar entre laboratórios):
- TSH: 0,4 a 4,5 mU/L
- T4 livre: 0,7 a 1,8 ng/dL
- T3 total: 75 a 195 ng/dL
Hipertireoidismo clínico
O diagnóstico de hipertireoidismo clínico geralmente é bem simples. Todos os pacientes com hipertireoidismo primário têm um TSH baixo e muitos com hipertireoidismo evidente têm altas concentrações de T4 livre e/ou T3.
Tireotoxicose por T3
A maioria dos pacientes com hipertireoidismo clínico causado por doença de Graves ou bócio nodular tem maiores aumentos do T3 do que do T4, devido a um aumento desproporcional na secreção de T3 tireoidiano e ao aumento da conversão nos tecidos de T4 em T3.
Pacientes com tireotoxicose por T3 apresentam sintomas típicos de hipertireoidismo, mas apenas concentrações séricas altas de T3 (com TSH baixo).
Tireotoxicose por T4
O padrão de TSH baixo, T4 livre elevado e concentrações normais de T3 é chamado de tireotoxicose por T4.
Pode ser encontrado em pacientes com hipertireoidismo e outra doença não tireoidiana concomitante que diminua a conversão extratireoidiana de T4 para T3.
O medicamento amiodarona, muito usado nos pacientes com arritmias cardíacas, inibe a conversão extratireoidiana de T4 em T3. Assim, os pacientes podem desenvolver tireotoxicose induzida por amiodarona, que é uma forma de tireotoxicose por T4.
Hipertireoidismo subclínico
Em pacientes com hipertireoidismo subclínico, o TSH está abaixo do normal, mas os níveis sanguíneos de T4 livre e T3 ainda estão normais.
Tanto o hipertireoidismo clínico quanto o subclínico são apenas definições bioquímicas, visto que os sintomas do hipertireoidismo podem estar presentes em pacientes com doença subclínica e ausentes naqueles com doença clínica, especialmente em idosos.
Hipertireoidismo central
O hipertireoidismo central é uma causa rara de hipertireoidismo e surge habitualmente devido a um adenoma hipofisário secretor de TSH. Esses pacientes têm TSH normal ou alto, apesar das altas concentrações sanguíneas de T4 livre e T3.
Exames de imagem
São indicados principalmente nos casos em que há dúvida diagnóstica ou para investigação da causa do hipertireoidismo.
1. Cintilografia da tireoide com iodo radioativo (I-123 ou I-131)
- Avalia o padrão de captação de iodo pela glândula.
- Diferencia os casos de hiperprodução hormonal verdadeira de casos com liberação passiva (como nas tireoidites).
- Padrões distintos:
- Alta captação difusa: doença de Graves.
- Alta captação focal: adenoma tóxico.
- Captação reduzida: tireoidite ou tireotoxicose factícia.
2. Ultrassonografia com Doppler
- Detecta nódulos, aumento do volume da glândula e padrões de vascularização.
- Pode evidenciar aumento difuso do fluxo sanguíneo em casos de Graves.
- Indicado especialmente para pacientes com bócio nodular ou dúvidas anatômicas.
Diagnóstico da causa
Uma vez feito o diagnóstico do hipertireoidismo, o próximo passo é identificar a sua causa.
Os testes mais utilizados na investigação são:
- Dosagem sanguínea de anticorpos anti-receptores de TSH (TRAb).
- Cintilografia da tireoide com iodo radioativo (Iodo-131 ou Iodo-123).
- Ultrassonografia com Doppler da tireoide.
Consoante os resultados, o médico endocrinologista consegue distinguir que tipo de hipertireoidismo o paciente tem.
Por exemplo, um paciente com Doença de Graves costuma ter TRAb positivo, elevada captação de iodo radioativo na cintilografia e uma tireoide aumentada, sem nódulos e com aumento difuso da vascularização à ultrassonografia com Doppler.
Observações importantes:
- A dosagem de TRAb (anticorpos anti-receptores de TSH) é útil no diagnóstico da doença de Graves e na avaliação de remissão após tratamento.
- O TSH é o exame mais sensível para detectar disfunções tireoidianas, mas pode demorar semanas para se normalizar após o início do tratamento.
- A dosagem de T4 livre costuma ser mais útil que a de T3, especialmente em pacientes com sintomas leves ou quadros mistos.
Tratamento do hipertireoidismo
O tratamento do hipertireoidismo tem como objetivo principal normalizar os níveis hormonais e controlar os sintomas causados pelo excesso de T3 e T4.
Existem três abordagens principais:
- Medicações antitireoidianas (tionamidas).
- Radioiodoterapia.
- Cirurgia da tireoide (tireoidectomia total ou parcial).
A escolha do tratamento mais adequado depende de fatores como:
- Causa do hipertireoidismo (ex: doença de Graves, adenoma tóxico).
- Idade e estado geral do paciente.
- Gravidade dos sintomas.
- Presença de bócio volumoso ou oftalmopatia.
- Preferência do paciente.
1. Medicamentos antitireoidianos (tionamidas)
As tionamidas são fármacos que bloqueiam a produção de hormônios tireoidianos pela glândula. Os principais são:
- Metimazol (mais utilizado).
- Propiltiouracil (PTU).
- Carbimazol (pró-fármaco do metimazol, usado em alguns países).
Essas medicações agem diretamente na glândula tireoide, impedindo que ela produza novos hormônios. Elas bloqueiam etapas importantes do processo de fabricação desses hormônios, como a utilização do iodo e a formação das substâncias que dão origem aos hormônios tireoidianos.
Seu efeito, no entanto, não interfere nos hormônios que já foram previamente produzidos e armazenados, razão pela qual sua ação clínica pode demorar de 3 a 8 semanas para se manifestar, a depender da gravidade do caso e da reserva hormonal da tireoide.
As tionamidas são frequentemente utilizadas como tratamento inicial da doença de Graves, com o objetivo de alcançar o estado eutireoideo (ou seja, normalização dos níveis de T3 e T4) antes da radioiodoterapia ou cirurgia. Em muitos casos, no entanto, elas também podem ser mantidas por tempo prolongado, especialmente quando o paciente deseja evitar terapias mais invasivas.
O tempo médio de tratamento gira em torno de 12 a 18 meses, mas pode ser estendido para vários anos em casos de recaída ou recusa de outras opções terapêuticas. Há relatos de uso contínuo por até 10 anos, com boa tolerabilidade e eficácia.
Após esse período inicial, caso o paciente tenha normalizado os níveis de TSH, T3 e T4 livre, pode-se considerar a suspensão gradual da medicação, com monitoramento frequente. Um exame importante nessa fase é a dosagem do TRAb: o desaparecimento dos autoanticorpos TRAb durante o tratamento está associado a uma chance de remissão sustentada entre 70% e 80%.
Indicações principais das tionamidas:
- Doença de Graves (especialmente em adultos jovens).
- Preparação para radioiodoterapia ou cirurgia.
- Gestantes (deve-se dar preferência pelo propiltiouracil no 1º trimestre de gestação).
Metimazol
O metimazol é, atualmente, a tionamida mais amplamente utilizada, por apresentar:
- Início de ação mais rápido.
- Posologia mais conveniente (dose única diária).
- Menor risco de hepatotoxicidade.
- Maior eficácia em induzir remissão.
- Menor incidência de efeitos adversos graves quando comparado ao propiltiouracil.
A dose inicial costuma variar entre 10 e 30 mg por dia, conforme a gravidade da doença. Após a normalização da função tireoidiana (geralmente medida por T4 livre e T3 total), a dose pode ser reduzida em 30% a 50%. A dose de manutenção típica é de 5 a 10 mg por dia.
Durante o tratamento, é fundamental monitorar os hormônios tireoidianos de forma periódica:
- Nos primeiros meses: TSH, T4 livre e T3 total a cada 4 a 6 semanas.
- Após estabilização da dose: exames podem ser espaçados para intervalos de 3 a 6 meses.
Importante: nos estágios iniciais do tratamento, o TSH pode permanecer suprimido por várias semanas ou até meses, mesmo com T3 e T4 já normalizados, devido ao tempo de recuperação da hipófise. Por isso, a avaliação da função deve se concentrar inicialmente nos níveis de T4 livre e T3 total.
Propiltiouracil (PTU)
O PTU é menos utilizado como primeira escolha devido ao maior risco de hepatotoxicidade grave, mas ainda é indicado em situações específicas, como:
- Gravidez no primeiro trimestre.
- Crise tireotóxica.
- Alergia ou intolerância ao metimazol.
A dose inicial habitual do PTU é de 100 a 150 mg, três vezes ao dia, com redução progressiva após controle hormonal.
Beta-bloqueadores
Como as tionamidas demoram dias ou semanas para surtirem efeito clínico, o paciente frequentemente necessita de medicação para controle rápido dos sintomas da tireotoxicose. Para isso, os beta-bloqueadores são amplamente utilizados — os principais são o propranolol e o atenolol.
Os beta-bloqueadores ajudam a controlar sintomas como:
- Taquicardia.
- Palpitações.
- Tremores.
- Ansiedade.
- Intolerância ao calor.
- Cansaço e fadiga precoce.
O propranolol possui ainda a vantagem de inibir a conversão periférica de T4 em T3, contribuindo para a redução do excesso hormonal ativo nos tecidos.
O uso de beta-bloqueadores deve ser iniciado assim que o diagnóstico clínico for suspeitado, mesmo antes da confirmação laboratorial da causa, salvo em casos de contraindicação (como asma grave ou bradicardia importante).
Radioiodoterapia
A destruição da tireoide por radiação com iodo radioativo (I-131) é uma alternativa terapêutica definitiva para o hipertireoidismo. O tratamento consiste na ingestão de uma cápsula com iodo radioativo, que é absorvido seletivamente pela tireoide. O tecido tireoidiano funcional é então progressivamente destruído ao longo de semanas a meses.
- O efeito clínico surge, em geral, entre 6 a 18 semanas após a administração.
- Em cerca de 10 a 20% dos casos, uma segunda dose pode ser necessária.
- A maior parte dos pacientes evolui para hipotireoidismo, o que exige reposição com levotiroxina de forma contínua.
Trata-se de uma terapia segura, com baixíssimo risco de efeitos colaterais sistêmicos ou câncer. A radiação emitida é localizada, com impacto quase exclusivo sobre a glândula tireoide.
Contraindicações absolutas:
- Gestação.
- Lactação.
Recomendações após o tratamento com iodo radioativo (I-131)
Após receber uma dose terapêutica de iodo radioativo para tratar o hipertireoidismo, é fundamental adotar medidas de precaução temporárias para minimizar a exposição de terceiros à radiação residual, especialmente gestantes, crianças e pessoas que convivem em proximidade contínua com o paciente.
Recomendações padrão:
- Evitar contato físico próximo e prolongado com gestantes e crianças por pelo menos 5 a 7 dias, podendo se estender por até 10 dias dependendo da dose administrada.
- Dormir em camas separadas por 4 a 11 dias, conforme a proximidade (ex: casal, criança que dorme junto, ambiente pequeno).
- Evitar compartilhar talheres, copos, pratos, toalhas e escovas de dente por 3 a 5 dias.
- Utilizar vaso sanitário com descarga dupla e manter a tampa abaixada após cada uso, por uma semana.
- Lavar roupas e roupas de cama separadamente nos primeiros 3 a 5 dias.
- Lavar bem as mãos após urinar ou evacuar.
- Evitar beijos, abraços prolongados e contatos íntimos por pelo menos 7 dias.
- Evitar transporte coletivo e locais públicos fechados por 2 a 3 dias, especialmente se a dose foi alta.
O iodo radioativo emite radiação gama e beta, que pode irradiar tecidos vizinhos ou ser excretado por urina, saliva, suor e fezes. As precauções visam reduzir o risco de exposição externa e interna a outras pessoas, especialmente populações mais vulneráveis à radiação, como fetos, crianças pequenas e gestantes.
Tireoidectomia (cirurgia da tireoide)
A cirurgia para retirada parcial ou total da tireoide é uma opção menos utilizada, reservada para casos específicos, como:
- Bócio volumoso com compressão de estruturas cervicais (traqueia, esôfago).
- Contraindicação ao iodo radioativo.
- Presença de nódulos suspeitos ou malignidade.
- Pacientes que não toleram ou recusam medicamentos antitireoidianos.
A principal vantagem da tireoidectomia é oferecer um tratamento definitivo e imediato, eliminando a fonte do excesso hormonal. No entanto, por se tratar de uma cirurgia de médio porte, ela envolve riscos, como:
- Lesão do nervo laríngeo recorrente (causando rouquidão ou alterações na voz).
- Hipoparatireoidismo (pela retirada ou lesão das paratireoides).
- Necessidade de hospitalização e anestesia geral.
Após a cirurgia, a maioria dos pacientes precisa fazer reposição contínua com levotiroxina, uma vez que a glândula deixa de produzir hormônios.
Perguntas frequentes sobre hipertireoidismo (FAQ)
Hipertireoidismo engorda ou emagrece?
O hipertireoidismo geralmente provoca perda de peso, mesmo que o apetite esteja normal ou até aumentado. Isso ocorre porque o metabolismo fica acelerado, fazendo o corpo gastar mais energia do que consome. Em casos raros, pacientes com aumento importante do apetite podem manter ou até ganhar peso, mas isso é exceção.
Quais são os perigos do hipertireoidismo não tratado?
Quando não tratado, o hipertireoidismo pode causar arritmias cardíacas graves, insuficiência cardíaca, osteoporose precoce, perda de massa muscular e, em casos extremos, levar à tempestade tireoidiana, uma emergência médica com risco de morte. Também pode afetar a fertilidade e a saúde mental.
Hipertireoidismo tem cura?
Sim. Dependendo da causa, o hipertireoidismo pode ser curado de forma definitiva com radioiodoterapia ou cirurgia da tireoide. Quando tratado com medicamentos (tionamidas), a doença pode entrar em remissão duradoura, especialmente nos casos de doença de Graves. No entanto, alguns pacientes apresentam recidiva após a suspensão do tratamento e podem precisar de terapia definitiva.
Quem tem hipertireoidismo pode tomar café?
Sim, mas com moderação. A cafeína pode intensificar sintomas como taquicardia, ansiedade e insônia, que já estão presentes no hipertireoidismo. Por isso, recomenda-se reduzir o consumo de café, energéticos e outras bebidas estimulantes enquanto a função tireoidiana estiver desregulada.
Hipertireoidismo atrapalha a gravidez?
Sim, se não for tratado. O hipertireoidismo descompensado pode interferir na ovulação, aumentar o risco de aborto espontâneo, parto prematuro e complicações fetais. Com o tratamento adequado e controle hormonal rigoroso, a gravidez pode ocorrer normalmente. Mulheres com doença de Graves devem ter acompanhamento conjunto com endocrinologista e obstetra de alto risco.
Hipertireoidismo pode causar ansiedade ou depressão?
Sim. O excesso de hormônios tireoidianos afeta diretamente o sistema nervoso central, podendo causar ansiedade, irritabilidade, insônia e até depressão em alguns casos. Esses sintomas frequentemente melhoram após o controle da função tireoidiana.
- 2016 American Thyroid Association Guidelines for Diagnosis and Management of Hyperthyroidism and Other Causes of Thyrotoxicosis – American Thyroid Association.
- Hyperthyroidism (Overactive) – American Thyroid Association.
- Overview of the clinical manifestations of hyperthyroidism in adults – UpToDate.
- Graves’ hyperthyroidism in nonpregnant adults: Overview of treatment – UpToDate.
- Disorders that cause hyperthyroidism – UpToDate.
- Hyperthyroidism (Overactive Thyroid) – The National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases.
- Jameson JL, et al., eds. Hyperthroidism. In: Harrison’s Principles of Internal Medicine. 20th ed. New York, N.Y.: The McGraw-Hill Companies; 2018.

Dúvidas de leitores sobre este tema
Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.
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Fiz exame e meu TSH tá 11,75 gostaria de saber se tá alto
Boa noite Dr.Pedro gostaria de saber se uma pessoa que tem hipertireoidismo sente todos os sintomas da doença ou somente algumas? Agradeço a resposta.