O que é leucemia?
A leucemia é um tipo de neoplasia maligna (câncer) que acomete os glóbulos brancos, células fundamentais do nosso sistema imunológico, responsáveis pela defesa do organismo contra germes e outros agentes invasores.
Trata-se de um câncer do sangue e da medula óssea, caracterizado pela produção descontrolada de leucócitos defeituosos, que não desempenham suas funções de defesa e acabam ocupando o espaço de células sanguíneas saudáveis.
Atualmente, a leucemia é classificada em quatro tipos principais, de acordo com a velocidade de progressão (aguda ou crônica) e a linhagem celular acometida (mieloide ou linfoide):
- Leucemia mieloide aguda (LMA).
- Leucemia mieloide crônica (LMC).
- Leucemia linfocítica aguda (LLA).
- Leucemia linfocítica crônica (LLC).
Além da leucemia, existem outros tipos de câncer que afetam o sangue e a medula óssea:
- Linfoma: câncer dos linfócitos que acomete principalmente os linfonodos e o sistema linfático.
- Mieloma múltiplo: neoplasia das células plasmáticas, um tipo de linfócito B.
- Síndrome mielodisplásica: grupo de doenças nas quais a medula óssea produz células sanguíneas anormais, com alto risco de evolução para leucemia.
Antes de aprofundarmos na leucemia em si, é essencial compreender o papel dos leucócitos e como eles se formam, pois são justamente essas células que sofrem transformação maligna.
O que são os leucócitos?
Os leucócitos, também conhecidos como glóbulos brancos, são células produzidas na medula óssea e desempenham papel essencial no sistema imunológico, atuando na defesa do organismo contra infecções, vírus, bactérias, fungos e outros agentes invasores.
Eles circulam no sangue, estão presentes no sistema linfático (linfonodos e linfa) e em órgãos como fígado e baço. Sua função básica é reconhecer e combater agentes estranhos, seja atacando-os diretamente ou produzindo anticorpos específicos.
Produção e quantidade normal de leucócitos
- A medula óssea produz, em média, cerca de 100 milhões de leucócitos por dia.
- Em um indivíduo saudável, a concentração normal varia entre 4.000 e 11.000 leucócitos por microlitro (µL) de sangue.
- Durante infecções, esse número pode dobrar ou triplicar como resposta do sistema imunológico, podendo chegar a 20.000 leucócitos/µL.
Após a resolução da infecção, a contagem retorna aos níveis normais.
Tipos de leucócitos
Existem cinco tipos principais de leucócitos, cada um com funções específicas na imunidade:
- Neutrófilos: combatem infecções bacterianas e inflamações agudas.
- Eosinófilos: atuam em alergias e defesa contra parasitas.
- Basófilos: liberam histamina e participam de reações alérgicas graves.
- Linfócitos (B e T): produzem anticorpos e coordenam a resposta imune.
- Monócitos: transformam-se em macrófagos, responsáveis por “engolir” microrganismos e células mortas.
Para mais informações: Leucócitos: o que são, como agem e como são produzidos.
Como a leucemia altera essa produção?
Na leucemia, ocorre uma produção excessiva e descontrolada de leucócitos anormais e defeituosos, que não conseguem defender o organismo. Em alguns casos, a contagem pode ultrapassar 100.000 leucócitos/µL, mas estas células são inúteis para a defesa e acabam prejudicando a produção de hemácias e plaquetas.
Células do sangue
Dentro da medula óssea, existe um tipo especial de célula chamada célula-tronco hematopoética. Essas células são responsáveis pela produção de todos os elementos celulares do sangue:
- Leucócitos (glóbulos brancos): defesa do organismo contra infecções.
- Hemácias (glóbulos vermelhos): transporte de oxigênio.
- Plaquetas: coagulação sanguínea.
Esse processo de formação das células do sangue recebe o nome de hematopoiese.
Como ocorre a hematopoiese?
A hematopoiese inicia-se com as células-tronco hematopoéticas, que se dividem em duas linhagens principais:
- Linhagem mieloide:
- Origina neutrófilos, eosinófilos, basófilos e monócitos (tipos de leucócitos).
- Também dá origem às hemácias (glóbulos vermelhos) e plaquetas.
- Linhagem linfoide:
- Origina os linfócitos B e T, que são os leucócitos responsáveis pela imunidade específica.

Relação com a leucemia
Cada uma dessas linhagens pode sofrer transformação maligna, dando origem a diferentes tipos de leucemia:
- Leucemias mieloides: envolvem células da linhagem mieloide (neutrófilos, monócitos e, secundariamente, hemácias ou plaquetas).
- Leucemias linfoides: envolvem células da linhagem linfoide (linfócitos B ou T).
Embora a leucemia seja essencialmente um câncer dos glóbulos brancos, a produção anormal dessas células também afeta a produção de hemácias e plaquetas, resultando em anemia e maior risco de sangramentos.
Classificação das leucemias
A leucemia é classificada de acordo com dois critérios principais: a linhagem celular acometida e a velocidade de progressão da doença. Essa divisão é fundamental para compreender suas diferentes manifestações clínicas e para definir as estratégias de tratamento.
No que diz respeito à linhagem celular, as leucemias podem ser mieloides ou linfoides. As mieloides surgem a partir da transformação maligna de células da série mieloide, que originam neutrófilos, monócitos, plaquetas e hemácias. Já as linfoides têm início em células precursoras da série linfoide, responsáveis pela produção dos linfócitos B e T.
O segundo critério considera a velocidade de evolução da doença. As leucemias agudas caracterizam-se pela produção descontrolada de células jovens, chamadas de blastos. Por serem imaturas e incapazes de exercer qualquer função normal, elas rapidamente ocupam a medula óssea, levando a sintomas graves em pouco tempo e exigindo tratamento imediato.
As leucemias crônicas, por outro lado, envolvem células mais maduras, porém ainda defeituosas, que se acumulam lentamente. Nesses casos, a doença pode permanecer assintomática por meses ou até anos, sendo descoberta frequentemente em exames de rotina.
Combinando esses dois critérios, chegamos aos quatro tipos principais de leucemia:
- Leucemia mieloide aguda (LMA): evolui rapidamente e é mais comum em adultos, especialmente acima dos 60 anos.
- Leucemia mieloide crônica (LMC): tem progressão lenta, mas pode transformar-se em uma forma aguda após alguns anos.
- Leucemia linfocítica aguda (LLA): é a forma mais comum em crianças, embora também possa ocorrer em adultos.
- Leucemia linfocítica crônica (LLC): acomete principalmente adultos mais velhos e pode ter evolução muito lenta, às vezes sem necessidade imediata de tratamento.
De modo geral, as leucemias agudas são emergências médicas que exigem intervenção rápida, enquanto as formas crônicas, muitas vezes, permitem um acompanhamento mais prolongado antes do início do tratamento. Essa classificação ajuda a entender por que pacientes com leucemias diferentes apresentam quadros clínicos tão distintos e necessitam de abordagens terapêuticas personalizadas.
Sintomas das leucemias
Independentemente do tipo de leucemia, existe um conjunto de sinais e sintomas que são comuns à maioria dos pacientes. A doença tem início na medula óssea, local onde os leucócitos cancerígenos surgem e começam a se multiplicar. Com a medula ocupada quase exclusivamente por células defeituosas, a produção das outras linhagens sanguíneas — hemácias, plaquetas e leucócitos normais — fica severamente prejudicada.
Essa substituição progressiva das células saudáveis por células malignas explica os sintomas típicos da leucemia: anemia pela queda das hemácias, sangramentos pela redução das plaquetas e infecções frequentes devido à deficiência de leucócitos funcionais. Além disso, as células leucêmicas podem circular no sangue e infiltrar outros órgãos e tecidos, como linfonodos, fígado, baço e sistema nervoso central, provocando sinais adicionais.

Sintomas mais comuns da leucemia
Os sintomas podem variar conforme o tipo e a fase da doença, mas geralmente incluem:
- Fadiga intensa e palidez, decorrentes da anemia.
- Febre persistente, com ou sem causa infecciosa aparente.
- Infecções recorrentes ou graves, devido à baixa imunidade funcional.
- Sangramentos e hematomas espontâneos, causados pela queda das plaquetas (petéquias, gengivorragia, epistaxe).
- Aumento de linfonodos, baço e fígado, perceptíveis ao exame físico.
- Perda de peso involuntária e suores noturnos intensos em fases mais avançadas.
- Dores ósseas ou articulares, principalmente em leucemias agudas, pelo acúmulo de blastos na medula óssea.
Esses sinais e sintomas descritos acima são consequência direta da invasão da medula óssea pelas células malignas. A anemia provoca fraqueza e falta de ar; a trombocitopenia aumenta o risco de sangramentos; e a deficiência imunológica leva a infecções oportunistas.
Em alguns casos, especialmente nas leucemias crônicas, os sintomas iniciais podem ser discretos ou inexistentes, o que faz com que muitos diagnósticos ocorram apenas durante exames laboratoriais de rotina.
Além disso, a infiltração de órgãos sólidos, como fígado e baço, leva ao seu aumento de tamanho e pode causar sensação de desconforto abdominal ou plenitude. Quando há infiltração do sistema nervoso central, mais comum em leucemias agudas, podem surgir dores de cabeça, vômitos e alterações neurológicas.
Para saber mais sobre os principais sintomas da leucemia, leia: Sintomas da leucemia.
Diagnóstico
O diagnóstico da leucemia é baseado na associação entre os sinais clínicos, alterações laboratoriais e exames específicos que confirmam a presença de células malignas na medula óssea.
O primeiro passo geralmente é o hemograma completo, exame simples de sangue que pode sugerir a suspeita da doença. Em muitos casos, observa-se um aumento expressivo no número de leucócitos, mas é importante destacar que a leucemia também pode ocorrer mesmo com contagens normais ou até baixas de leucócitos. Além disso, o hemograma costuma mostrar sinais de anemia (redução das hemácias) e plaquetopenia (queda das plaquetas).
Quando há suspeita de leucemia, é indispensável a realização da biópsia de medula óssea, exame que consiste na coleta de material diretamente da medula (geralmente do osso da bacia) para análise ao microscópio. Este procedimento permite identificar a presença de células leucêmicas e avaliar o percentual de blastos, fundamental para diferenciar leucemias agudas das crônicas.
Exames complementares
Além da biópsia, exames mais modernos têm papel fundamental na caracterização da doença:
- Imunofenotipagem por citometria de fluxo: permite identificar com precisão o tipo celular envolvido (mieloide ou linfoide) por meio de marcadores específicos na superfície das células.
- Estudos citogenéticos e moleculares: detectam alterações cromossômicas e mutações genéticas características de determinados tipos de leucemia, como o cromossomo Filadélfia na leucemia mieloide crônica (LMC) ou mutações FLT3 e NPM1 na leucemia mieloide aguda (LMA). Essas informações ajudam a definir o prognóstico e a escolher terapias-alvo específicas.
- Exames de imagem (ultrassom, tomografia): podem ser indicados para avaliar o aumento de órgãos como fígado, baço ou linfonodos.
- Punção lombar: utilizada principalmente em leucemias agudas, quando há suspeita de infiltração do sistema nervoso central.
Por que a confirmação por biópsia é indispensável?
Embora o hemograma e outros exames levantem a suspeita, apenas a análise direta da medula óssea confirma definitivamente a presença da leucemia e permite sua classificação correta. Essa distinção é essencial porque cada tipo de leucemia possui comportamento clínico, tratamento e prognóstico distintos.
Leucemia mieloide aguda (LMA)
A leucemia mieloide aguda (LMA) é um tipo de câncer hematológico caracterizado pela transformação maligna e proliferação descontrolada de células jovens da linhagem mieloide, conhecidas como blastos mieloides, que se acumulam na medula óssea e no sangue periférico. Por serem imaturas e incapazes de exercer suas funções normais, essas células substituem as células sanguíneas saudáveis, resultando em anemia, trombocitopenia e imunossupressão grave.
A LMA pode surgir em qualquer idade, mas é mais comum em adultos, especialmente acima dos 60 anos, e apresenta discreta predominância no sexo masculino. Fatores de risco incluem exposição prévia à radiação, quimioterapia (leucemia secundária), contato com agentes químicos como o benzeno e o tabagismo. Alterações genéticas herdadas ou adquiridas, como síndromes mielodisplásicas, também aumentam o risco de desenvolvimento da doença.
Subtipos e genética da LMA
A classificação da LMA evoluiu consideravelmente com os avanços da biologia molecular. Atualmente, além da morfologia celular, o diagnóstico leva em conta mutações genéticas específicas e anormalidades cromossômicas, que influenciam tanto o prognóstico quanto a escolha do tratamento.
- Mutações FLT3, NPM1 e CEBPA: estão entre as mais comuns e têm impacto prognóstico significativo.
- Alterações cromossômicas como t(8;21) e inv(16): associam-se a melhor resposta ao tratamento.
- LMA com rearranjo do gene TP53 ou mutações complexas: geralmente apresentam pior prognóstico.
Esse refinamento diagnóstico permite definir estratégias terapêuticas mais personalizadas, inclusive com o uso de terapias-alvo.
Sintomas da LMA
Os sintomas da LMA resultam da substituição da medula óssea por blastos e são semelhantes aos de outras leucemias agudas:
- Fadiga intensa e palidez, devido à anemia.
- Febre e infecções recorrentes, pela deficiência de leucócitos funcionais.
- Sangramentos e hematomas espontâneos, causados pela queda das plaquetas.
- Dores ósseas e desconforto generalizado.
Em alguns casos, podem surgir leucostase, quando a contagem de blastos é muito elevada, causando sintomas neurológicos e respiratórios graves, que requerem tratamento emergencial.
Tratamento da LMA
O tratamento da LMA é dividido em duas fases principais:
- Indução da remissão: o objetivo é eliminar os blastos leucêmicos da medula óssea. Essa fase utiliza quimioterapia intensiva, tradicionalmente com esquemas combinando citarabina e antraciclinas.
- Consolidação: após a remissão inicial, busca-se impedir a recidiva da doença. Pode envolver novos ciclos de quimioterapia ou transplante alogênico de medula óssea, indicado principalmente para pacientes com alto risco de recaída.
Nos últimos anos, terapias-alvo e agentes biológicos têm transformado o tratamento:
- Inibidores de FLT3 (midostaurina, gilteritinibe) para casos com mutações específicas.
- Inibidores de IDH1/IDH2 (ivosidenibe, enasidenibe) em subgrupos selecionados.
- BCL-2 inibidores (venetoclax) combinados a agentes hipometilantes, especialmente úteis em idosos ou pacientes não elegíveis para quimioterapia intensiva.
Essas novas abordagens têm ampliado as taxas de resposta, principalmente em pacientes de risco intermediário ou alto.
Prognóstico da LMA
O prognóstico da LMA depende de múltiplos fatores, incluindo idade, estado geral do paciente, características citogenéticas e resposta inicial ao tratamento.
Em adultos com menos de 60 anos, as taxas de remissão completa superam 60%, com cura em cerca de 35–40%. Em pacientes mais velhos ou com mutações desfavoráveis, essas taxas ainda são menores, embora as terapias-alvo estejam melhorando gradualmente os resultados.
O transplante de medula óssea continua sendo a principal opção curativa para pacientes com doença de alto risco, apesar das complicações associadas.
Leucemia mieloide crônica (LMC)
A leucemia mieloide crônica (LMC) é uma neoplasia hematológica caracterizada pela proliferação descontrolada de células maduras ou em estágio avançado de diferenciação da linhagem mieloide. Ao contrário da leucemia mieloide aguda (LMA), a LMC tem um curso mais lento e pode permanecer assintomática por meses ou até anos, sendo frequentemente identificada em exames de rotina.
Informação técnica para estudantes: o principal evento molecular responsável pela LMC é a presença do cromossomo Filadélfia (Ph), resultante de uma translocação entre os cromossomos 9 e 22 [t(9;22)]. Essa alteração gera o gene de fusão BCR-ABL1, que codifica uma proteína tirosina-quinase anormal responsável pela multiplicação contínua das células mieloides.
Traduzindo o parágrafo acima: o principal fator causador da LMC é uma alteração genética chamada cromossomo Filadélfia. Ela ocorre quando duas partes diferentes do DNA, localizadas em cromossomos distintos, trocam de posição. Essa troca cria um novo gene que faz com que as células da medula óssea recebam um “sinal permanente de crescimento”.
É importante destacar que essa alteração não é hereditária: ela acontece ao longo da vida da pessoa, não sendo transmitida de pais para filhos.
A LMC afeta principalmente adultos entre 30 e 60 anos e é rara em crianças.
Fases da LMC
A LMC evolui por três fases distintas:
- Fase crônica: representa cerca de 85% dos casos no momento do diagnóstico. Os sintomas são leves ou ausentes, e a doença é facilmente controlada com tratamento.
- Fase acelerada: há aumento da contagem de blastos na medula óssea e sinais de perda de controle da doença.
- Fase blástica: semelhante à LMA, caracteriza-se por grande proliferação de blastos e evolução agressiva. Sem tratamento eficaz, a sobrevida nessa fase é limitada a poucos meses.
Sintomas da LMC
Nos estágios iniciais, muitos pacientes são assintomáticos. Quando presentes, os sintomas mais comuns incluem:
- Fadiga e perda de peso não explicada.
- Sensação de plenitude abdominal, causada pelo aumento do baço (esplenomegalia).
- Suores noturnos e febre baixa persistente.
- Contagem de leucócitos muito elevada no hemograma, frequentemente acima de 100.000/µL.
Tratamento da LMC
O tratamento da LMC foi revolucionado pela introdução dos inibidores de tirosina-quinase (TKIs), que bloqueiam a atividade da proteína BCR-ABL1. Essas drogas transformaram a LMC em uma doença controlável a longo prazo para a maioria dos pacientes.
Os medicamentos mais utilizados são:
- Imatinibe (Gleevec®): primeiro TKI desenvolvido, eficaz em controlar a doença na maioria dos casos.
- TKIs de segunda geração: dasatinibe e nilotinibe são usados como terapia inicial ou em casos de resistência/intolerância ao imatinibe.
- TKI de terceira geração: ponatinibe é indicado para pacientes com mutação T315I ou resistência a outros TKIs.
Com esses tratamentos, muitos pacientes alcançam resposta molecular profunda, caracterizada por níveis indetectáveis de BCR-ABL1. Em casos selecionados, é possível até mesmo suspender o TKI em um protocolo conhecido como “stop-TKI”, desde que haja monitoramento rigoroso e critérios específicos de resposta estável.
Prognóstico da LMC
Graças aos TKIs, a LMC deixou de ser uma doença fatal de rápida progressão para tornar-se uma condição crônica controlável. A expectativa de vida atual é próxima à da população geral quando há adesão adequada ao tratamento e monitoramento regular.
O transplante de medula óssea, antes amplamente indicado, hoje é reservado para casos refratários ou em fase blástica.
Avanços recentes
O monitoramento da resposta ao tratamento é feito por meio de quantificação molecular do BCR-ABL1 por PCR em tempo real, permitindo ajustes precoces na terapia. Além disso, pesquisas recentes investigam novos TKIs mais seletivos e combinações terapêuticas, visando aumentar ainda mais as taxas de resposta profunda e reduzir os efeitos adversos.
Leucemia linfocítica aguda (LLA)
A leucemia linfocítica aguda (LLA) é um tipo de câncer do sangue caracterizado pela produção excessiva de linfoblastos, que são linfócitos imaturos. Essas células defeituosas se multiplicam rapidamente na medula óssea, substituindo as células saudáveis responsáveis pela produção normal de glóbulos vermelhos, plaquetas e glóbulos brancos funcionais.
A LLA é o tipo de leucemia mais comum na infância, especialmente entre os 2 e 5 anos de idade, mas também pode acometer adultos, onde tende a ter evolução mais agressiva e resposta ao tratamento menos favorável.
Sintomas da LLA
Os sintomas da LLA surgem de forma rápida, em questão de dias ou semanas, devido à substituição das células normais por linfoblastos. Os mais comuns incluem:
- Fadiga intensa e palidez, consequência da anemia.
- Febre persistente, mesmo sem infecção aparente.
- Infecções frequentes, pela falta de leucócitos funcionais.
- Sangramentos e hematomas espontâneos, causados pela baixa contagem de plaquetas.
- Aumento de linfonodos e baço, que pode ser percebido como caroços no pescoço, axilas ou sensação de barriga inchada.
- Dores ósseas ou articulares, frequentes em crianças.
Em alguns casos, a LLA também pode afetar o sistema nervoso central, causando dores de cabeça, vômitos ou alterações neurológicas.
Diagnóstico da LLA
O diagnóstico é feito inicialmente com hemograma, que geralmente mostra leucócitos aumentados e presença de células imaturas no sangue. A confirmação ocorre por meio da biópsia de medula óssea, que identifica os linfoblastos e permite classificá-los. Exames complementares, como imunofenotipagem e testes genéticos, ajudam a definir o tipo exato de LLA (linfócitos B ou T) e orientar o tratamento.
Tratamento da LLA
O tratamento da LLA é intensivo e dividido em três etapas principais:
- Indução da remissão: dura cerca de 4 semanas e tem como objetivo eliminar o máximo possível de células leucêmicas. É feita com quimioterapia associada a corticoides.
- Consolidação: reforça a eliminação das células residuais e reduz o risco de recaída. Inclui ciclos adicionais de quimioterapia e, em casos selecionados, transplante de medula óssea.
- Manutenção: dura cerca de dois anos, com doses menores de quimioterapia para impedir a volta da doença.
Nos últimos anos, surgiram terapias inovadoras que aumentaram as chances de cura:
- Blinatumomabe e inotuzumabe: medicamentos direcionados a células leucêmicas específicas.
- Terapia CAR-T (células T geneticamente modificadas): indicada para casos resistentes, com resultados promissores, principalmente em crianças.
Quimioterapia na LLA
O tratamento quimioterápico da LLA combina diferentes medicamentos que atuam em fases distintas do ciclo celular para destruir as células leucêmicas. Entre os mais utilizados estão:
- Vincristina: interfere na divisão celular das células leucêmicas.
- Dexametasona ou prednisona: corticoides que ajudam a eliminar linfoblastos e reduzir inflamação.
- Asparaginase: bloqueia uma enzima essencial para as células leucêmicas, levando à sua morte.
- Metotrexato e citarabina: usados em fases específicas do tratamento, inclusive na prevenção de infiltração da leucemia no sistema nervoso central.
Esses medicamentos são administrados em combinações programadas, de acordo com protocolos que podem variar entre crianças e adultos. Em casos de maior risco ou de recidiva, outros agentes mais recentes ou transplante de medula óssea podem ser indicados.
Prognóstico da LLA
O prognóstico da LLA depende da idade, do tipo de linfócito envolvido (B ou T) e da resposta inicial ao tratamento. Em crianças, as taxas de cura ultrapassam 80% com os protocolos atuais. Em adultos, a resposta é menos favorável, variando entre 20% e 40%, mas novas terapias têm melhorado esses resultados.
Leucemia linfocítica crônica (LLC)
A leucemia linfocítica crônica (LLC) é um tipo de câncer do sangue que afeta os linfócitos B maduros, um tipo de glóbulo branco responsável pela produção de anticorpos. Ao contrário das leucemias agudas, a LLC tem uma evolução lenta e pode permanecer assintomática por anos, sendo muitas vezes descoberta em exames de rotina.
É a forma de leucemia mais comum em adultos nos países ocidentais, especialmente em pessoas acima dos 55 anos, e é rara em jovens. Apesar de seu crescimento geralmente lento, a LLC é uma doença progressiva: com o tempo, os linfócitos anormais se acumulam no sangue, na medula óssea, nos linfonodos e em órgãos como o baço.
Sintomas da LLC
Em muitos casos, a LLC não causa sintomas no início. Quando eles aparecem, costumam incluir:
- Aumento indolor dos linfonodos no pescoço, axilas ou virilha.
- Fadiga persistente e fraqueza.
- Infecções frequentes, devido à baixa imunidade.
- Perda de peso não intencional e suores noturnos.
- Aumento do baço ou do fígado, que pode causar desconforto abdominal.
Diagnóstico da LLC
O diagnóstico geralmente é feito por meio de hemograma, que mostra aumento dos linfócitos no sangue. A confirmação ocorre com exames complementares como:
- Imunofenotipagem por citometria de fluxo, que identifica se os linfócitos são malignos.
- Estudos genéticos e moleculares, que ajudam a prever a agressividade da doença (por exemplo, presença de deleção 17p ou mutação TP53).
Esses testes são importantes para definir a necessidade e o tipo de tratamento.
Classificação LLC
A LLC é avaliada por sistemas que estimam sua gravidade:
- Sistema Rai (0 a 4): utilizado principalmente nos EUA, considera o aumento de linfonodos, fígado, baço, anemia e plaquetopenia.
- Sistema Binet (A, B, C): mais comum na Europa, baseia-se no número de regiões de linfonodos aumentados e na presença de anemia ou queda de plaquetas.
Pacientes em estágios iniciais (Rai 0 ou Binet A) geralmente têm evolução lenta e podem não precisar de tratamento imediato, apenas acompanhamento médico.
Tratamento da LLC
Nem todos os pacientes com LLC precisam iniciar tratamento logo após o diagnóstico. Quando a doença é lenta e sem sintomas significativos, a conduta inicial é o “vigiar e esperar”, com consultas e exames periódicos.
O tratamento é indicado quando há sinais de progressão, como anemia, plaquetopenia, linfonodos muito aumentados ou sintomas importantes. As opções incluem:
- Terapias alvo:
- Ibrutinibe e acalabrutinibe (inibidores de BTK): bloqueiam sinais que permitem a proliferação dos linfócitos malignos.
- Venetoclax (inibidor de BCL-2): induz morte programada das células leucêmicas.
- Anticorpos monoclonais: como rituximabe e obinutuzumabe, que atuam diretamente contra os linfócitos B anormais.
- Quimioimunoterapia tradicional: combina medicamentos como fludarabina, ciclofosfamida e rituximabe, mas hoje tem sido substituída gradualmente pelas terapias alvo, por serem mais eficazes e com menos efeitos colaterais.
O transplante de medula óssea é raramente utilizado e fica reservado para casos muito agressivos ou resistentes aos tratamentos convencionais.
Prognóstico da LLC
O curso da LLC é bastante variável. Muitos pacientes vivem por mais de 10 anos após o diagnóstico, especialmente aqueles com formas indolentes e de baixo risco. Os avanços nas terapias alvo melhoraram significativamente a qualidade de vida e a sobrevida, tornando a LLC uma doença controlável na maior parte dos casos.
Perguntas frequentes sobre leucemia (FAQ)
A leucemia tem cura?
Alguns tipos de leucemia podem ser curados, especialmente quando diagnosticados precocemente e tratados de forma adequada. As leucemias agudas (como LLA e LMA) podem alcançar cura com quimioterapia intensiva e, em casos selecionados, transplante de medula óssea. Já as leucemias crônicas (LMC e LLC) geralmente não têm cura definitiva, mas podem ser controladas por muitos anos com medicamentos modernos, permitindo que os pacientes tenham qualidade de vida próxima ao normal.
Leucemia é hereditária?
Não. A leucemia não é transmitida de pais para filhos. Ela surge devido a alterações genéticas adquiridas ao longo da vida, geralmente relacionadas a fatores ambientais ou que ocorrem de forma espontânea durante a divisão celular. Algumas síndromes genéticas raras, como a Síndrome de Down, podem aumentar o risco de leucemia, mas esses casos são exceções.
Leucemia pode ser prevenida?
Não existe uma forma específica de prevenir a leucemia, já que a maioria dos casos ocorre sem uma causa identificável. No entanto, evitar exposição a substâncias químicas tóxicas (como benzeno), não fumar e manter um estilo de vida saudável podem ajudar a reduzir o risco geral de doenças hematológicas e cânceres.
Quais exames detectam a leucemia precocemente?
Não há um exame de rastreamento específico para leucemia em pessoas assintomáticas. No entanto, um hemograma completo de rotina pode identificar alterações suspeitas, como anemia, plaquetas baixas ou leucócitos muito altos ou baixos. Nessas situações, exames adicionais, como biópsia de medula óssea, são solicitados para confirmar o diagnóstico.
Quais são os sinais iniciais da leucemia que devem chamar atenção?
Os primeiros sinais podem ser inespecíficos e facilmente confundidos com outras condições: cansaço excessivo, palidez, febre sem causa aparente, infecções repetidas e surgimento de hematomas ou sangramentos espontâneos. Se esses sintomas persistirem, é fundamental buscar avaliação médica para investigação adequada.
A leucemia é contagiosa?
Não. A leucemia não é uma doença infecciosa e não pode ser transmitida de uma pessoa para outra por contato, sangue ou qualquer outra forma.
Qual a diferença entre leucemia e linfoma?
A leucemia afeta principalmente a medula óssea e o sangue, enquanto o linfoma se desenvolve nos linfonodos e em estruturas do sistema linfático. Ambos são cânceres hematológicos, mas possuem apresentações clínicas, diagnósticos e tratamentos distintos.
Referências
- About leukemia – Cancer Treatment Center of America.
- Acute Lymphoblastic Leukemia (ALL) – Medscape.
- Acute Myeloid Leukemia (AML) – Medscape.
- Chronic Lymphocytic Leukemia (CLL) – Medscape.
- Overview of acute myeloid leukemia in adults – UpToDate.
- Classification of acute myeloid leukemia – UpToDate.
- Induction therapy for acute myeloid leukemia in medically-fit adults – UpToDate.
- Overview of the treatment of chronic lymphocytic leukemia – UpToDate.
- Overview of the treatment of chronic myeloid leukemia – UpToDate.
- Kliegman RM, et al. The leukemias. In: Nelson Textbook of Pediatrics. 21st ed. Elsevier; 2020.
- Niederhuber JE, et al., eds. Abeloff’s Clinical Oncology. 6th ed. Elsevier; 2020.
Dúvidas de leitores sobre este tema
Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.
Mais comentários dos leitores
Dr, sinto dormência e formigamento no corpo, e sensação estranha, pode ser leucemia?
Tenho IIc. Meus leucócitos estão em 60 mil vou agora pro oncologista, estou preocupada
Boa noite! a LLA poder voltar depois dos tratamento apos cinco anos? sheill
Dr. Pinheiro, el diclofenaco usado a largo plazo podria ser depresor de la medula osea y causar sindrome mielodidplasico o leucemia ?