Coma induzido: o que é, para que serve, é perigoso?


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Revisado e atualizado em junho 26, 2025
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O que é o coma?

Dá-se o nome de coma ao estado de redução do nível de consciência, com perda parcial ou total da capacidade de resposta a estímulos externos. De forma mais simples, o coma é uma condição em que o paciente torna-se incapaz de interagir adequadamente com o ambiente ao seu redor.

Existem diversos graus de coma. Uma pessoa pode estar inconsciente, mas ainda apresentar alguma resposta a estímulos dolorosos ou a chamados intensos.

Para avaliar a profundidade do coma, utilizamos a chamada Escala de Coma de Glasgow, que considera três parâmetros: resposta ocular, resposta verbal e resposta motora. A pontuação total varia de 3 a 15 pontos, sendo:

  • 15 pontos: paciente plenamente consciente;
  • 3 pontos: ausência total de resposta, caracterizando um coma profundo.

Essa escala é fundamental para mensurar o nível de consciência de forma padronizada e objetiva.

O coma costuma ser consequência de lesões no sistema nervoso central, especialmente no tronco encefálico, região responsável pelo controle do estado de vigília. Em alguns casos, o coma pode ser reversível; em outros, pode evoluir para morte cerebral ou estado vegetativo.

Exemplos de situações que podem levar ao coma:

  • Traumatismo craniano.
  • Infecção do sistema nervoso central, como nos casos de meningite ou encefalite.
  • Tumor do cérebro.
  • AVC.
  • Distúrbios metabólicos, tais como hipoglicemia, hiperglicemia, hipotireoidismo grave, insuficiência renal avançada, etc.
  • Coma alcoólico.

É perigoso estar em coma?

O estado de coma é perigoso porque o indivíduo inconsciente perde a capacidade de proteger suas vias aéreas, podendo facilmente aspirar secreções ou se asfixiar com a própria língua. O paciente comatoso perde o reflexo da tosse e a capacidade de engolir saliva produzida na cavidade oral.

O processo de aspiração de qualquer material que está na boca, como saliva, água, vômitos ou restos alimentares, é chamado de broncoaspiração. A broncoaspiração costuma causar pneumonias graves, além do risco de provocar parada respiratória por obstrução da via aérea.

Para proteger as vias aéreas, todo paciente com pontuação de Glasgow menor que 8 costuma ser intubado pela equipe médica, de forma a permitir que o mesmo continue respirando sem risco de broncoaspiração.

O que é o coma induzido?

O coma induzido é, na realidade, um estado de sedação profunda farmacologicamente induzida, realizado de forma controlada pela equipe médica. O termo “coma” é frequentemente utilizado de forma equivocada, pois, do ponto de vista técnico, trata-se de sedação e não de coma verdadeiro.

Muitas pessoas acreditam que o coma induzido serve para “desligar o cérebro” e deixá-lo “descansar”. Essa ideia é incorreta: o cérebro nunca é completamente desligado, pois ele é responsável por funções vitais, como controle da respiração, batimentos cardíacos e temperatura corporal.

O que se faz, na verdade, é administrar medicamentos sedativos e, em alguns casos, analgésicos e bloqueadores neuromusculares, com o objetivo de reduzir a atividade consciente e permitir tratamentos complexos.

Para que serve a sedação induzida?

As principais indicações da sedação induzida incluem:

  • Ventilação mecânica invasiva: para que o paciente não entre em conflito com o ventilador (por exemplo, tentar respirar fora de sincronia com o aparelho).
  • Controle de dor intensa: comum em grandes queimados e politraumatizados.
  • Agitação psicomotora grave: pacientes que representam risco para si ou para o tratamento (arrancam sondas, se movimentam em excesso, etc.).
  • Procedimentos invasivos: como biópsias, endoscopias e cirurgias.
  • Cirurgias sob anestesia geral: que combinam sedação, analgesia e relaxamento muscular.

Em todos esses casos, o objetivo é garantir segurança, conforto, estabilidade clínica e eficácia do tratamento.

Por que é preciso sedar o paciente na ventilação mecânica?

O tubo da ventilação (tubo orotraqueal) pode causar desconforto intenso. Além disso, os ciclos respiratórios da máquina podem entrar em conflito com o ritmo espontâneo do paciente. Essa “luta” contra o ventilador provoca desconforto ao paciente e prejudica a oxigenação.

A sedação permite que o paciente fique sincronizado com o respirador, evitando desconforto, ansiedade e complicações respiratórias.

Indicações comuns para o coma induzido

Além da ventilação mecânica, existem dezenas de outras indicações para sedar um paciente. Por exemplo, pacientes que apresentam intensa dor também podem ser sedados, isto é comum em politraumatizados e grandes queimados. Nesses casos, a sedação é feita junto com analgesia.

Indivíduos internados com quadro de agitação, que possam cair da cama ou que coloquem em risco seu tratamento, como aqueles que arrancam soros, sondas e cateteres, ou que não colaboram com procedimentos médicos de risco, como biópsias, endoscopias e pequenas cirurgias, também costumam receber sedativos. Nesses casos, porém, a sedação é mais leve, o suficiente apenas para acalmá-los.

Durante as cirurgias com anestesia geral, os pacientes são sedados e ficam em ventiladores mecânicos. Na anestesia, a sedação vem acompanhada de analgesia e relaxamento muscular. O paciente, além de estar inconsciente, não pode sentir dor nem se mover durante o ato cirúrgico.

A sedação da anestesia é feita com drogas de ação muito curta, pois o objetivo é que o paciente consiga acordar quando a cirurgia acaba (leia: Anestesia geral – Quais os riscos?).

Por vezes, ao final do ato cirúrgico, o paciente pode não conseguir manter uma boa oxigenação por conta própria, precisando permanecer sedado e no ventilador por mais algum tempo. Esta situação é mais comum em pacientes graves, idosos ou com doença pulmonar ou cardíaca prévia. Pessoas jovens e saudáveis saem facilmente da ventilação mecânica.

Portanto, o coma induzido é uma manobra que nós médicos utilizamos para podermos implementar o tratamento necessário para manter um paciente em estado grave vivo.

Como já foi explicado, não chamamos de coma induzido, mas sim de sedação. Chamamos de coma apenas os casos de redução do nível de consciência não provocados intencionalmente pela equipe médica.

Intensidade da sedação

Existem várias indicações para se sedar o paciente, e para cada uma delas o nível de sedação indicado é diferente.

Assim como a escala Glasgow de coma é usada para aferir o nível de consciência dos pacientes em coma, na sedação também há critérios clínicos para controlarmos o grau de sedação do paciente.

Uma das escalas mais usadas é a escala de Ramsey de sedação, que é feita da seguinte forma:

  • Ramsey 1: paciente consciente; agitado e/ou inquieto.
  • Ramsey 2: paciente consciente; cooperativo, orientado e tranquilo.
  • Ramsey 3: paciente consciente, mas responde apenas a comandos.
  • Ramsey 4: paciente superficialmente inconsciente, porém com resposta rápida a estímulo auditivo alto ou a toques na glabela (região da testa entre as sobrancelhas).
  • Ramsey 5: paciente inconsciente; resposta lenta a estímulo auditivo alto ou a toques na glabela.
  • Ramsey 6: paciente inconsciente, sem resposta ao toque da glabela ou estímulo auditivo alto.

Pacientes em coma verdadeiro também precisam ser sedados?

Mesmo pessoas em coma podem precisar de sedação. Um paciente que sofreu um acidente de carro, por exemplo, pode ter um traumatismo craniano e ter um grau de coma que não seja suficiente para estar consciente, mas também não é tão profundo a ponto de permitir uma ventilação mecânica confortável.

Nesses casos, é necessário sedar o paciente e aprofundar seu coma para que ele possa ser tratado. Depois de alguns dias, dependendo da melhora clínica, retira-se a sedação para se poder avaliar o verdadeiro grau da lesão neurológica.

Além disso, a sedação ajuda a controlar hipertensão intracraniana e agitação motora reflexa.

Pacientes em coma induzido demoram quanto tempo para acordar?

Depende. Alguns pacientes acordam após algumas horas, outros demoram vários dias. Alguns fatores contribuem para o paciente demorar a acordar, entre eles podemos citar:

  • Uso prolongado de drogas sedativas.
  • Uso de doses elevadas de drogas sedativas.
  • Uso de drogas sedativas de vida longa.
  • Pacientes com doença grave ou múltiplas doenças.
  • Pacientes idosos.
  • Pacientes com lesão do sistema nervoso central.
  • Pacientes com insuficiência renal ou hepática.

É também importante salientar que alguns pacientes podem nunca acordar se houver grave lesão cerebral, como, por exemplo, pessoas com grave traumatismo craniano, AVC hemorrágico ou parada cardíaca prolongada.

Nos casos em que há suspeita de lesão cerebral, as sequelas neurológicas só podem ser definidas após vários dias de suspensão dos sedativos. Enquanto houver fármacos sedativos na circulação, é difícil definir se o paciente apresenta ou não sequelas neurológicas.

Pacientes em coma ou sedados conseguem ouvir os familiares?

Esta é uma das dúvidas mais comuns dos familiares. Como já foi explicado, existem graus distintos de coma e sedação. Um dos modos de se avaliar a profundidade do estado de inconsciência é através da resposta aos sons.

Portanto, há casos em que o paciente pode escutar, sim, as vozes dos familiares. A grande questão é saber se o paciente entende o que lhe dizem. Em casos de sedação ou coma superficial, é bem provável que o paciente seja capaz de compreender algumas coisas e reconhecer a voz da família.

O problema é que muitos dos fármacos usados na sedação têm efeito amnésico. Essa amnésia para fatos recentes é importante, pois permanecer vários dias no hospital é um evento muito estressante. O paciente sofre muito, seja pela imobilidade, pelas múltiplas picadas de agulha, pelos tubos inseridos em seu corpo, pela falta de noção do tempo, etc. A amnésia torna a situação muito mais suportável e faz com que o paciente não tenha traumas psicológicos após a alta hospitalar.

Portanto, não adianta perguntar ao paciente se ele ouvia algo enquanto estava sedado; mesmo que tenha ouvido, é bem provável que ele não vá se lembrar.

Nos casos de coma ou sedação profunda, é pouco provável que o paciente mantenha algum contato com o meio externo. O cérebro naquele momento não é capaz de processar estímulos externos. Movimentos involuntários podem ocorrer devido a sons, mas isso não significa que o paciente tenha noção do que está ocorrendo.


Referências



Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Maria de fatima

    um paciente que fez uma cirurgia de câncer no intestino foi sedada porque teve falta de ar e agora testou positivo pra covid ela tem 67 anos e considerado grave doutor

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Ela ainda está em coma induzido?

  2. Maysa Gomes Silva

    Uma pessoa sedada fica com se estivesse dormindo? Uma pessoa na UTI ela lembra da vida antes de esta na intubacao?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    1. Sedação não é dormir.
    2. Os medicamentos utilizados causam amnésia. Em geral, o paciente se esquece das coisas que aconteceram logo antes e durante a internação.

  3. Thalia da Rocha Ramos

    Oi boa noite

    Minha vó está em coma está cm 4 dias os médicos pararam de da a sedação pra ela pra fazer os exames nela hoje. E eles falaram que ela teve um estímulo hoje

    Oque quer dizer?

    Minha vó tem aneurisma

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Os médicos disseram que ela teve um estímulo ou respondeu a um estímulo?

  4. Sirlene flores

    Paciente entubado, dialisando, sedado, com pressão arterial oscilando, quais as chances de recuperação?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    É um quadro grave, pois é um paciente com falência multiorgânica. A chance de recuperação depende muito da doença que causou isso, da idade do paciente e do grau de saúde que ele tinha antes.

  5. Claudia Marques

    Boa tarde Doutor Pedro. Meu esposo estava com uma infecção no rim e é diabético. Ocorre que se enternou e ao passar 3 dias foi submetido ao coma induzido e já se vai 4 dias. Deu no pulmão pneumonia septicemia pulmonar e segundo médico corre o risco. Por isso colocou em coma induzido. Leva se quanto tempo para se saber se o antibiótico está dando um resultado favorável?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Geralmente com 48 a 72 horas a gente já consegue ter ideia se o antibiótico está sendo eficaz.

  6. Daniela Fernandes Maldonado

    Um paciente sedado é capaz de abrir os olhos? E pq isso acontece?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Existem graus diferentes de sedação.

  7. Elaine Cabral

    Olá, quero agradecer por esse texto, que me ajudou muito a compreender o pq não tenho lembranças dos 18 dias em que estive em sedação numa Uti. Passei por uma septicemia, pneumonia dupla e sara. Logo após ter meu segundo filho, foram 38 dias de internação, 18 em coma(sedação). Sou grata a equipe.

  8. Ana Monteiro

    Boa Tarde um doente com pneumonia que esteja em coma induzido ligado a um pulmao artificial tem probabilidade de ficar bom

    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Sim, tratamentos agressivos e invasivos, como a ventilação mecânica, só são iniciados se os médicos acreditam que o paciente possa se recuperar.

  9. cleide

    uma mulher gravida de 8 meses pode ser induzido ao coma ?

    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Dependendo do motivo, sim.

  10. Vanessa Gonçalves rosa

    Oi Boa tarde na quinta feira o meu namorado sofreu acidente e teve que passar por uma cirurgia perto do coração e ele tá sedado. Isso pode levar quanto tempo pra ele acordar

    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Enquanto ele estiver com fármacos que causam sedação, ele não vai acordar. O tempo que vão mantê-lo sedado, eu não tenho como estimar à distância.

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