Creatina monohidratada: para que serve, como tomar e efeitos


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Revisado e atualizado em abril 2, 2026
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Resumo rápido sobre a creatina

A creatina é um suplemento usado principalmente para melhorar o desempenho em exercícios de força e alta intensidade, além de favorecer o ganho de massa muscular quando associada ao treino. Entre as várias formas disponíveis no mercado, a creatina monohidratada é a mais estudada e a que apresenta melhor respaldo científico.

Para a maioria dos adultos saudáveis, a dose mais utilizada é de 3 a 5 gramas por dia. Em geral, não é obrigatório fazer fase de carga, pois o uso contínuo nas doses habituais também eleva os estoques musculares de creatina ao longo do tempo. O horário da suplementação tem pouca importância prática; o mais relevante é o uso regular.

Nas doses recomendadas, a creatina costuma ser segura para pessoas saudáveis e não há evidência de que cause lesão renal nesse grupo. Os efeitos colaterais mais comuns são desconforto gastrointestinal em doses altas e um pequeno aumento de peso por retenção de água dentro do músculo, e não por ganho de gordura. Já pessoas com doença renal, comorbidades relevantes ou dúvidas sobre a indicação do suplemento devem procurar orientação médica antes de iniciar o uso.

O que é a creatina e para que serve

A creatina é uma substância produzida naturalmente pelo organismo a partir de aminoácidos e também obtida em pequenas quantidades pela alimentação, sobretudo por meio de alimentos de origem animal. Ela é sintetizada principalmente no fígado e nos rins, circula pelo sangue e fica armazenada quase toda nos músculos, onde exerce sua função mais importante: servir como reserva rápida de energia para a contração muscular.

Na prática, a creatina ajuda o músculo a repor energia de forma muito rápida durante esforços curtos, intensos e explosivos, como musculação, sprint, saltos e outras atividades de alta potência. Por isso, a suplementação costuma ser mais útil em exercícios de força e curta duração do que em atividades aeróbicas prolongadas, como corrida contínua, ciclismo de longa distância ou natação em ritmo estável. Quando associada a treino adequado, ela pode aumentar a capacidade de desempenho em sessões intensas e, com isso, favorecer ganho de massa muscular ao longo do tempo.

Nota: é importante não confundir creatina com creatinina. A creatina participa do sistema de produção rápida de energia no músculo, enquanto a creatinina é um produto residual eliminado pelos rins e usado como marcador da função renal em exames de sangue. Também vale reforçar que a creatina não é um esteroide anabolizante e não é considerada doping pelas principais organizações esportivas.

Como tomar creatina: dose, horário e fase de carga

A forma mais estudada e recomendada de suplemento é a creatina monohidratada. Em adultos saudáveis, ela costuma ser usada em duas etapas: uma fase de carga (opcional) e uma fase de manutenção.

Em termos práticos, existem duas estratégias principais para elevar as reservas de creatina dentro do músculo:

Opção 1: fase de carga e manutenção

Na estratégia com fase de carga, a pessoa quer saturar os estoques musculares mais rapidamente. O esquema clássico consiste em ingerir cerca de 20 g de creatina por dia, divididos em 3 ou 4 tomadas (por exemplo, 5 g, quatro vezes ao dia) durante 5 a 7 dias. Outra forma de descrever esse protocolo é uma dose aproximada de 0,3 g/kg/dia (0,3 grama de creatina por quilo de peso corporal) durante esse curto período.

Depois dessa primeira semana, passa-se para uma dose menor diária, chamada de manutenção. Na fase de manutenção, a dose recomendada é de 3 a 5 g por dia.

O principal inconveniente da fase de carga é o aumento do risco de desconforto gastrointestinal, como náuseas, cólicas abdominais ou diarreia, especialmente se as doses forem tomadas em jejum ou em poucas tomadas muito concentradas.

Opção 2: sem fase de carga

Na estratégia sem fase de carga, o indivíduo começa diretamente com a dose de manutenção, geralmente entre 3 e 5 g de creatina por dia, em uma única tomada. Essa dose fixa diária corresponde, em média, a cerca de 0,03 g/kg/dia.

Nessa abordagem, as reservas de creatina muscular aumentam de forma gradual, atingindo níveis semelhantes aos da estratégia com carga após aproximadamente 3 a 4 semanas de uso contínuo. A vantagem é a menor chance de efeitos gastrointestinais, sendo um regime mais confortável para quem não tem pressa em obter o efeito máximo do suplemento.

Depois que o músculo já está saturado, seja após a fase de carga ou após algumas semanas de uso contínuo sem carga, entra-se na fase de manutenção. A maior parte das diretrizes e estudos em atletas utiliza doses de 3 a 5 g de creatina monohidratada por dia para manter os estoques elevados.

Doses mais elevadas

Estudos mais recentes sugerem que a dose de manutenção de 3 a 5 g por dia talvez não seja a mais otimizada para saturar os músculos de pessoas com grande massa muscular e treino de força frequente. Faz sentido pensar que uma pessoa forte de 100 kg precisa de mais creatina para saturar toda sua musculatura do que uma outra de 60 kg, por exemplo.

Sendo assim, alguns especialistas já preconizam ajustar a dose de creatina baseada no peso corporal, como cerca de 1 g de creatina para cada 10 kg de peso (ou seja, aproximadamente 0,1 g/kg/dia). Nesse esquema, um indivíduo de 70 kg tomaria em torno de 7 g por dia, enquanto uma pessoa de 50 kg ficaria em torno de 5 g diários. Esse tipo de dose relativa tem sido explorado principalmente em idosos e pessoas com grande massa muscular, pois permite algum ajuste fino para pessoas muito leves ou muito pesadas.

Em indivíduos menores ou com dieta naturalmente mais rica em carnes, doses na faixa de 3–5 g por dia podem ser suficientes para manutenção.

Em resumo: para a maioria dos adultos saudáveis que usam creatina com foco em desempenho físico, massa muscular ou benefícios gerais à saúde, as doses mais bem estabelecidas continuam sendo:

  • Com carga: cerca de 20 g/dia (0,3 g/kg/dia) por 5–7 dias, seguidos de 3–5 g/dia.
  • Sem carga: 3–5 g/dia desde o início, ou aproximadamente 1 g para cada 10 kg de peso corporal, usados de forma contínua.

Suplementos de creatina funcionam?

Atualmente, após mais de 20 anos de investigação, já há algum consenso entre os pesquisadores. A creatina, sim, proporciona real ganho de massa muscular na maioria das pessoas quando associada a um programa rotineiro de musculação.

Além da melhora atlética e do exercício, estudos também mostram que a suplementação de creatina pode melhorar a recuperação pós-exercício e ajudar a prevenir lesões.

O aumento da massa corporal é tipicamente de um a dois quilos maior em quem utiliza creatina comparado com o grupo controle durante 4 a 12 semanas de treinamento.

Os ganhos de massa muscular da suplementação de creatina parecem ser o resultado de uma maior capacidade de realizar exercícios de alta intensidade, permitindo que o atleta treine mais e com maior potência.

Entretanto, até 30% das pessoas, não se sabe bem o porquê, apresentam pouco benefício com esse suplemento. Os efeitos em mulheres e homens mais velhos também são menos evidentes.

Entre os pacientes que respondem bem à creatina, seus efeitos começam a ser sentidos após cerca de 1 a 2 semanas em quem fez a fase de carga rápida e em 3 a 5 semanas em quem fez a fase de carga lenta (mais adiante explicaremos como se deve tomar a creatina).

Também não há evidências claras de benefícios para atividades que não usam predominantemente o sistema fosfagênio (ATP + creatina). Entre elas, podemos citar: corrida (exceto 100 e 200 metros rasos), natação e ciclismo.

Qual é a melhor creatina?

Atualmente, a creatina mais indicada é a que vem na forma de creatina monohidratada. Essa é a forma clássica, mais estudada, mais barata e com mais evidências de segurança e eficácia.

Outras formas de creatina que podem ser encontradas no mercado são:

  • Creatina micronizada: é basicamente a creatina monohidratada, mas com partículas menores. Isso pode melhorar a solubilidade e a absorção pelo corpo. Não há, porém, estudos que mostrem que essa forma seja superior.
  • Creatina Etil Ester: foi desenvolvida para melhorar a absorção pelo corpo, mas os estudos não mostram vantagens claras sobre a creatina monohidratada.
  • Creatina hidroclorídrica (HCl): acredita-se que essa forma seja mais solúvel e, portanto, necessite de doses menores. No entanto, mais pesquisas são necessárias para confirmar seus benefícios e sua superioridade.
  • Creatina alcalina (Buffered Creatine): é produzida ao adicionar um pH alcalino, o que supostamente torna a creatina mais estável no estômago. No entanto, os estudos não mostraram benefícios claros sobre a forma monohidratada.
  • Creatina líquida: a creatina pode se degradar em creatinina, um subproduto, quando dissolvida em água por períodos prolongados. Portanto, a eficácia da forma líquida pode ser questionável.

Como a creatina funciona?

Como todo mundo sabe, os nossos músculos precisam de energia para funcionar. Esforços explosivos com demanda de força máxima do músculo, como no levantamento de peso ou na corrida de 100 metros rasos, são feitos através de um sistema energético chamado fosfagênio.

A energia para os esforços explosivos é fornecida após uma reação química na qual um nucleotídeo (composto rico em energia) chamado adenosina trifosfato (ATP) perde uma molécula de fósforo, virando adenosina difosfato (ADP). Toda vez que um ATP é transformado em um ADP, há liberação de uma quantidade de energia que é usada pelo músculo para se contrair.

Transformação de ATP em ADP para geração de energia
Transformação de ATP em ADP para geração de energia

Imagine-se agora em uma academia de musculação. Você está em repouso e seu músculo está repleto de ATP. Você, então, começa a fazer um exercício muscular com algum peso. O seu ATP muscular começa a ser quebrado rapidamente em ADP, liberando energia para que o seu músculo aguente o peso. O seu esforço é tão grande que, em poucos segundos, você consome todo o seu ATP e, a partir de então, já não consegue mais levantar o peso proposto. Você agora precisa descansar um pouco e esperar que os músculos voltem a ficar repletos de ATP.

Mas onde entra a creatina nesta história? Ela é a substância que mais rapidamente consegue fornecer de volta a molécula de fósforo, transformando o ADP novamente em ATP.

O nome correto da creatina é fosfocreatina. Nesse processo de restauração do ATP, a fosfocreatina perde sua molécula de fósforo, sendo posteriormente transformada em creatinina, uma molécula sem função que acaba sendo eliminada na urina.

Como a creatinina é completamente eliminada pelos rins, ela serve como um marcador da função renal. Quando a creatinina começa a se acumular no sangue, isso significa que os rins não estão filtrando o sangue adequadamente. Por isso, a dosagem da creatinina sanguínea é um exame utilizado para avaliar o funcionamento dos rins.

Em esforços grandes e explosivos, todo o ATP muscular é consumido em cerca de 3 segundos. Graças à creatina, o músculo consegue prolongar seus estoques de ATP por pelo menos 10 segundos. Após esse tempo, toda a creatina disponível é convertida em creatinina, e o ADP já não é mais imediatamente convertido em ATP.

Surge, então, o segundo modo de se produzir ATP: através do consumo dos estoques de glicose muscular (glicogênio) sem oxigênio.

Esse modo não restaura o ATP rápido o suficiente para exercícios de máxima utilização muscular que gastam ATP em ritmo frenético. Porém, para exercícios do tipo jogar futebol, nadar ou corridas de média distância, ele é mais que suficiente.

O terceiro e último modo de se criar energia é através do consumo de glicose com oxigênio. Esse é o modo utilizado nas atividades aeróbicas, como correr, pedalar ou nadar em ritmo cadenciado. Nessas modalidades, o consumo de ATP é bem mais lento e, por isso, sua reposição também pode ser mais lenta.

Na verdade, sempre existe uma interposição entre os três sistemas. Quando se joga futebol, por exemplo, acabamos por utilizar os três mecanismos em momentos diferentes da partida. Porém, essa é uma atividade que usa predominantemente o consumo de glicose como modo de se gerar ATP. Na musculação, onde os exercícios duram poucos segundos, usamos basicamente o sistema da creatina.

Creatina e saúde cerebral

A creatina ficou conhecida como suplemento para força, massa muscular e desempenho físico, mas, nos últimos anos, começaram a surgir estudos investigando também a “creatina para o cérebro”, com foco em memória, atenção e prevenção de declínio cognitivo.

De forma geral, as pesquisas mostram que a suplementação de creatina consegue aumentar o conteúdo de creatina no cérebro, embora esse aumento seja menor e mais lento do que o observado no músculo esquelético.

Esse efeito parece ser mais relevante em situações em que o cérebro está sob estresse metabólico (como privação de sono, hipóxia, doenças neurológicas ou dieta muito pobre em creatina), e menos evidente em jovens saudáveis com estoques normais.

O que os estudos mostram sobre cognição

Ensaios clínicos e revisões sistemáticas sugerem que a creatina pode trazer algum benefício em domínios específicos da cognição, como memória de curto prazo, tempo de reação e velocidade de processamento, principalmente em idosos, vegetarianos, pessoas sob privação de sono ou com doenças que reduzam a disponibilidade de energia para o cérebro.

Por outro lado, estudos mais recentes e análises críticas apontam que os resultados são bastante heterogêneos e que muitos trabalhos positivos têm limitações metodológicas importantes. Algumas meta-análises mais novas sugerem que, na prática, o efeito global da creatina sobre a cognição em adultos saudáveis pode ser pequeno. Em 2024, inclusive, a Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA) concluiu que não há evidência suficiente para estabelecer uma relação de causa e efeito entre creatina e melhoria de função cognitiva na população geral, e, por isso, não aceitou alegações de marketing nessa área.

Em resumo: há um potencial de benefício, especialmente em cérebros “sob estresse” ou com deficiência de creatina, mas os dados ainda não permitem afirmar que a creatina melhora claramente a cognição de qualquer pessoa, em qualquer contexto.

Quais doses têm sido usadas para o cérebro?

Os estudos que avaliam a creatina com foco em função cerebral e cognição costumam usar doses mais altas do que aquelas empregadas apenas para massa muscular:

  • Protocolos de carga clássica com cerca de 20 g/dia (5 g 4x/dia) por 4 semanas mostraram aumento de aproximadamente 8–10% no conteúdo de creatina cerebral, medido por ressonância magnética espectroscópica.
  • Alguns ensaios usaram 10 a 20 g por dia, por 6 a 8 semanas, em pacientes com doenças neurológicas, como doença de Alzheimer, com aumento de creatina no cérebro e sinais preliminares de benefício em alguns testes cognitivos, embora os resultados ainda sejam considerados exploratórios.
  • Estudos de situação aguda, como privação de sono, utilizaram doses únicas ou em curto prazo na faixa de 0,3–0,35 g/kg (cerca de 20–25 g em uma pessoa de 70 kg), com melhora de desempenho em tarefas de atenção e processamento de informação sob fadiga.

É daí que vem a ideia prática de usar doses diárias de 10 a 20 g para “saúde cerebral”:
são doses inspiradas nas pesquisas que conseguiram aumentar mensuravelmente a creatina no cérebro e, em alguns casos, observar benefício modesto em memória ou desempenho cognitivo sob estresse.

Até o momento, podemos resumir assim:

  • Para desempenho físico, massa muscular e saúde geral, as doses mais bem estabelecidas continuam sendo:
    • 3–5 g/dia de creatina monohidratada (dose fixa), ou
    • Aproximadamente 1 g para cada 10 kg de peso (≈0,1 g/kg/dia) como alternativa ajustada ao peso.
  • Para efeitos cerebrais (memória, atenção, resistência à fadiga mental, possíveis benefícios em doenças neurológicas), os estudos frequentemente usam:
    • Fase de carga de 20 g/dia por alguns dias ou semanas,
    • Ou doses crônicas de 10–20 g/dia em protocolos experimentais.

Mas, do ponto de vista científico e regulatório, ainda não existe uma “dose oficial” de creatina especificamente para proteger o cérebro ou prevenir demência. As doses de 10–20 g/dia para saúde cerebral devem ser vistas como estratégias em estudo, não como recomendação rotineira para o público geral. Elas não fazem parte de diretrizes formais para uso rotineiro em população geral, nem há consenso sobre qual seria a dose ideal apenas para “saúde cerebral” em longo prazo.

Quem pode (teoricamente) se beneficiar mais?

Os dados atuais sugerem que os possíveis benefícios da creatina sobre a cognição tendem a ser mais consistentes em grupos como:

  • Idosos e pessoas em risco de declínio cognitivo.
  • Vegetarianos/veganos, que costumam ter menor ingestão dietética de creatina.
  • Indivíduos sob privação de sono, hipóxia ou outras situações de estresse metabólico cerebral.
  • Pacientes com algumas doenças neurológicas (como doença de Alzheimer) em estudos piloto, ainda sem conclusões definitivas.

Mesmo nesses grupos, os resultados não são uniformes, e o uso de doses altas (10–20 g/dia) deve ser individualizado, idealmente com supervisão médica, principalmente em pessoas com doença renal prévia ou outras comorbidades.

Creatina em idosos

Nos últimos anos, há um número crescente de estudos mostrando que a suplementação de creatina desempenha um papel terapêutico em uma variedade de condições clínicas, principalmente naquelas relacionadas ao envelhecimento.

Talvez uma das condições mais promissoras que poderiam se beneficiar da suplementação de creatina seja a sarcopenia relacionada à idade.

A sarcopenia é uma diminuição generalizada da massa, força e funcionalidade dos músculos, que ocorre naturalmente com a idade e está associada ao aumento do risco de quedas, fraturas, incapacidade física e mortalidade.

A suplementação de creatina pode aumentar a funcionalidade (por exemplo, força, atividades da vida diária, retardar a fadiga) e a massa muscular em idosos. No entanto, a literatura indica que a creatina sozinha, sem um programa de treinamento de resistência concomitante, não resulta em ganhos substanciais de força muscular nem desempenho funcional.

Creatina faz mal? Efeitos colaterais, segurança e contraindicações

Em adultos saudáveis, a creatina monohidratada é, em geral, um suplemento seguro quando usada nas doses habituais. A maior parte dos estudos de segurança envolve esquemas de 3 a 5 g por dia, com ou sem fase de carga inicial, e não mostra evidência consistente de dano renal em pessoas sem doença prévia. A creatina também não parece aumentar o risco de cãibras ou desidratação quando utilizada corretamente.

Os efeitos indesejáveis que podem aparecer costumam ser leves e estão mais ligados a doses altas, sobretudo na fase de carga. Os mais comuns são náusea, sensação de estufamento, cólicas abdominais e diarreia. Algumas pessoas também percebem aumento rápido de peso nos primeiros dias de uso, mas isso geralmente reflete maior retenção de água dentro do músculo, e não ganho de gordura.

Outra fonte frequente de confusão é a creatinina. Como a suplementação pode elevar a creatinina no sangue, o exame pode parecer “alterado” mesmo sem lesão renal verdadeira. Por isso, quem estiver usando creatina deve avisar o médico antes de interpretar exames da função renal, especialmente se já tiver alteração prévia nos rins ou estiver em investigação nefrológica.

Isso não significa que a creatina deva ser usada sem ressalvas em qualquer situação. Pessoas com doença renal conhecida, redução inexplicada da função renal, comorbidades relevantes ou uso de medicamentos potencialmente nefrotóxicos devem discutir a suplementação com o médico antes de começar.

Em pessoas com asma grave ou mal controlada, a evidência ainda é limitada e há dados que justificam cautela. Além disso, a maior parte da experiência de segurança se concentra nas doses habituais para desempenho físico; doses cronicamente mais altas, usadas fora desse contexto, têm menos respaldo prático e não devem ser iniciadas sem orientação profissional.

Como referido há pouco, a creatina é considerada um suplemento seguro em doses de 3–5 g/dia por longos períodos em indivíduos saudáveis. Revisões e análises de segurança recentes reforçam não haver evidência de dano renal ou hepático em pessoas sem doença prévia, desde que usada em doses habituais.

Quando se fala em doses altas e crônicas (10–20 g/dia) voltadas à saúde cerebral, a situação é diferente. A princípio, parece haver segurança, mas é bom destacar que:

  • A experiência de longo prazo é bem menor.
  • Os estudos costumam ter amostras pequenas e curta duração.
  • E não sabemos com segurança se o uso contínuo nessas doses por anos seria totalmente isento de risco.

Por isso, para a maioria das pessoas que busca apenas benefícios gerais de saúde e desempenho, faz mais sentido permanecer nas doses tradicionais de 3–5 g/dia (ou 1 g/10 kg), que já têm um perfil de segurança mais bem estabelecido. Doses de 10–20 g/dia para “saúde cerebral” devem ser encaradas como experimentais, reservadas a contextos específicos de pesquisa ou a casos selecionados, sempre com orientação profissional.

Perguntas e respostas sobre a creatina (FAQ)

A creatina provoca retenção de água?

Assim como os carboidratos, a creatina monohidratada possui propriedades osmóticas que ajudam a reter uma pequena quantidade de água. Estudos relatam que a carga de creatina promove uma retenção de líquidos a curto prazo, cerca de 0,5 a 1,0 L, que costuma ser proporcional ao ganho de peso agudo observado.

Este aumento intracelular de água parece ter um efeito benéfico durante exercícios praticados no calor, aumentando a tolerância, reduzindo a perda de líquidos pelo suor e melhorando a resposta cardiovascular.

A creatina é um esteroide anabolizante?

Esteroides anabolizantes são uma versão sintética da testosterona, hormônio androgênico produzido em grande quantidade nos homens e em pequena quantidade nas mulheres.

Embora os resultados fisiológicos e de desempenho dos esteroides anabolizantes e da creatina possam ser semelhantes, seus mecanismos de ação e categorização legal são bem diferentes.

A creatina é um suplemento legal e com uso autorizado nos atletas, enquanto os esteroides são proibidos nos esportes e só podem ser prescritos por médicos para situações clínicas específicas.

A creatina provoca lesão nos rins?

Dúvidas envolvendo suplementação de creatina e dano renal são comuns. Porém, após mais de 20 anos de estudos e de uso difundido da substância, não existem evidências de que, em pessoas com rins saudáveis e nas doses preconizadas, ela seja danosa.

Creatina causa queda de cabelo?

Não há evidências de que a suplementação com creatina cause queda de cabelo ou aumente o risco de calvície.

Essa relação surgiu após um único estudo em 2009 com jogadores de rugby no qual foi sugerido um aumento na concentração sanguínea de diidrotestosterona (DHT), um metabólito da testosterona, após uso da creatina. A DHT está relacionada a alguns tipos de calvície.

Pelo menos outros 12 estudos feitos posteriormente não conseguiram replicar os achados desse trabalho de 2009 e nenhum estudo até hoje mostrou haver qualquer aumento na queda de cabelo com uso da creatina.

A creatina engorda?

A creatina provoca aumento de peso por promover ganho de massa muscular e uma pequena retenção de água. Não há, porém, ganho de gordura com o seu uso. Pelo contrário, a tendência é de redução do tecido gorduroso.

A creatina deve ser tomada pré-treino ou pós-treino?

Não há consenso ainda. Os estudos clínicos sobre a melhor hora para tomar a creatina apresentam resultados variados, mas tendem a sugerir que a suplementação pós-treino pode ser ligeiramente mais benéfica. No entanto, se não for prático para você tomar a creatina pós-treino, o consumo antes do treino não será menos efetivo. O que importa mesmo é tomar pelo menos 3 a 5 gramas de creatina por dia.




Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Aneres Tereza Borges Machado

    Sempre pratiquei treinos, mas hj com 65 anos, vi a diferença que faz ao usar creatina, fico com mais desposição, e meus treinos rendem mais, a dúvida, se minha musculatura irá se desenvolver ou conservar nos meus desempenho dos treinos..como fica meu resultado..

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    A tendência é melhorar os resultados, conseguindo ganhar mais massa muscular, principalmente se houver ingestão adequada de proteínas.

  2. Carlos

    Obg por sua úteis informações. Espero receber mais.

  3. Ercilia

    Tomei creatina pela primeira vez a médica mandou tomar 4 gramas tomei 4 copinho de creatina faz mal

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Mal não costuma fazer, mas dependendo do tamanho do copinho, você pode ter tomado uma dose maior que a necessária.

  4. Gustavo

    Quem tem hiperplasia de próstata pode tomar creatina

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Pode, não há relação.

  5. Veronica Martins de Lima

    Boa noite. Tenho 67 anos. Há 11 anos fui diagnosticada com um câncer de mama, fiz a cirurgia e todos os tratamentos. Obtive alta Há pouco mais de 1 ano mas tenho cálculos renais (2) há muitos anos. O uso de creatina pode me causar problemas?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    O ideal é você primeiro descobrir a causa dos seus cálculos renais. Apesar de não ser ainda uma relação comprovada, há suspeita de que a creatina possa aumentar o risco de cálculo renal.

  6. Amir

    Dr. Pedro, o Sr. mencionou uma hipótese de aumento de incidência de cálculo renal pelo uso de creatina. Devemos ter isso em mente como preocupação ou dá para usar tranquilo?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    A não ser que você tenha histórico de cálculo renal de repetição, isso não é motivo para evitar a creatina. Não é uma relação comprovada. Basta você se manter bem hidratado.

  7. Giordano

    Olá, o artigo foi muito útil para meus estudos. Muito obrigado!

  8. Adriana

    Bom dia Dr, a minha filha teve câncer há um ano. Agora começou tomar creatina e passa mal com queda de pressão.

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Não é uma reação comum. O fato dela ter tido câncer não muda nada nesse caso. Há pacientes com câncer ativo que usam creatinina para amenizar a perda de massa muscular.

  9. Cesar Augusto Batista de Souza

    Após um AVC a creatina é recomendável ou pode ser prejudicial

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Ter tido um AVC não contraindica o uso de creatina.

  10. Fernanda Batista

    Olá gostaria de saber se a creatina resseca?pois tenho intestino preso, já faço toda a alimentação e água para funcionar corretamente.

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Não, creatina não interfere com o trânsito intestinal.

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