Posso beber álcool com remédios ou energéticos?


Foto do autor
Revisado e atualizado em outubro 17, 2025
comments Created with Sketch Beta. 6 dúvidas respondidas

Introdução

O uso de remédios junto com álcool é reconhecidamente danoso, mas, por incrível que pareça, essa associação ainda é extremamente comum por parte da população.

A associação de bebidas alcoólicas com medicamentos pode levar a efeitos colaterais graves, inclusive com risco de morte. O álcool pode tanto potencializar os efeitos de um medicamento quanto neutralizá-lo. Pode também ativar enzimas que metabolizam o medicamento em substâncias tóxicas para o organismo.

Para entender como o álcool e outras substâncias são metabolizados, leia: Ressaca e intoxicação alcoólica.

Neste artigo, explicaremos quais são os remédios que não podem ser misturados com álcool e o que é o efeito antabuse.

Informações em vídeo

Antes de seguirmos em frente, assista a esse curto vídeo sobre os sinais e sintomas da intoxicação pelo álcool conforme a quantidade de bebida ingerida.

Youtube video

O que acontece se misturarmos álcool com remédios?

Álcool potencializando o efeito de um medicamento

Quando as enzimas que metabolizam o medicamento são as mesmas do álcool, estas ficam “ocupadas” processando o etanol, fazendo com que o remédio permaneça mais tempo e em maior concentração na corrente sanguínea. Em alguns casos, essa pode ser a diferença entre a intoxicação ou não.

Álcool inibindo a ação de um medicamento

Este processo ocorre em bebedores crônicos. O estímulo alcoólico constante no fígado faz com que haja um aumento no número de enzimas hepáticas. Quando um medicamento chega ao fígado, há um excesso destas para metabolizá-lo, inativando a droga muito mais rapidamente do que de costume. Este excesso de enzimas pode permanecer por semanas após cessar-se o consumo de álcool.

O estímulo constante do etanol e seus metabólitos também podem gerar enzimas que transformam substâncias não tóxicas em metabólitos tóxicos.

Álcool agindo no mesmo sítio dos medicamentos

Outra maneira de potencialização de remédios é quando estes, assim como o etanol, também atuam sobre o sistema nervoso central, como no caso de narcóticos e sedativos. Este sinergismo pode causar uma intensa e perigosa sedação.

Remédios aumentando o efeito do álcool

Alguns medicamentos inibem as enzimas que metabolizam o álcool, aumentando seus efeitos e seu tempo de permanência no organismo, potencializando as lesões do álcool no organismo.

Alguns exemplos de interação álcool-medicamentos:

ANESTÉSICOS

O uso de álcool dificulta a ação dos anestésicos, sendo necessárias doses maiores para a indução anestésica em atos operatórios. Também potencializa os efeitos tóxicos destes medicamentos para o fígado.

ANSIOLÍTICOS (BENZODIAZEPINAS)

Aumentam o efeito sedativo, o risco de coma e insuficiência respiratória.

ANTABUSE (DISSULFIRAM)

Antabuse ou Antabus é o principal nome comercial de uma droga chamada Dissulfiram, que inibe a enzima acetaldeído desidrogenase, impedindo a transformação do metabólito tóxico acetaldeído em ácido acético, que é menos tóxico. O acúmulo desta substância tóxica causa efeitos como vômitos, calor, sudorese, palpitação, cefaleia (dor de cabeça), hipotensão, dificuldade respiratória e até morte.

O dissulfiram é uma substância utilizada no tratamento do alcoolismo, pois provoca reações muito desconfortáveis mesmo após pequenas doses de álcool. O paciente ingere o primeiro copo e logo começa a se sentir mal, interrompendo imediatamente o consumo.

Isso acontece porque, com o bloqueio da metabolização do acetaldeído, que é uma substância muito tóxica, sua concentração sanguínea chega a ficar 10 vezes maior do que acontece normalmente. Com isso, pequenas doses de álcool levam a níveis de acetaldeídos maiores do que ocorrem em muitos “porres”. Em 15 minutos, o paciente já começa a sentir os efeitos desagradáveis. Até pequenas quantidades de álcool, como em doces e molhos, podem causar os sintomas.

Elevadas doses de álcool em quem faz uso de antabuse podem ser fatais.

ANTIBIÓTICOS

Existe um conceito de que misturar antibióticos e álcool é perigoso e pode inativar o primeiro. Isto é uma verdade parcial.

Realmente, a associação de álcool com alguns antibióticos pode levar a efeitos graves do tipo antabuse, descrito acima. São eles:

  • Metronidazol (Flagyl®).
  • Trimetoprim-sulfametoxazol (Bactrim®).
  • Tinidazole (Tindamax®).
  • Griseofulvin (Grisactin®).
  • Cefotetan.

Outros antibióticos, como cetoconazol, nitrofurantoína, eritromicina, rifampicina e isoniazida também não devem ser tomados com álcool pelo perigo de inibição do efeito e potencialização de toxicidade hepática.

Em relação aos outros antibióticos, não há relatos de interação. Porém, deve-se lembrar que o álcool inibe o sistema imune e dificulta o combate contra agentes infecciosos. Portanto, não é inteligente beber enquanto se está com uma infecção.

Para saber mais sobre a relação entre antibióticos e bebidas alcoólicas, leia: Bebidas alcoólicas e antibióticos – Quais são os riscos?

ANTICOAGULANTES

O álcool aumenta o efeito anticoagulante da Varfarina (Marevan®, Varfine®, Coumadin ®) podendo causar hemorragias. (leia: Interações com a Varfarina).

ANTICONVULSIVANTES

Aumentam os efeitos colaterais e o risco de intoxicação, enquanto diminui a eficácia contra as crises de epilepsia (leia: Epilepsia | Sintomas, tipos e como proceder).

ANTIDEPRESSIVOS

Aumentam as reações adversas e o efeito sedativo, ao mesmo tempo em que diminui a eficácia dos antidepressivos. Pode também causar picos hipertensivos (leia: Antidepressivos: Escitalopram, Citalopram, Fluoxetina, Sertralina e Paroxetina).

ANTI-INFLAMATÓRIOS

Anti-inflamatórios junto com álcool aumentam o risco de úlcera gástrica e sangramentos. Aspirina (AAS) aumenta os efeitos adversos do álcool.

ANTI-HIPERTENSORES

Reduzem a eficácia, causam tonturas e arritmias cardíacas (leia: Remédios para pressão alta).

ANTI-HISTAMÍNICOS (ANTIALÉRGICOS)

Aumenta o efeito sedativo e causa tonturas e desequilíbrio.

HIPOGLICEMIANTES (ANTIDIABÉTICOS)

Também pode causar efeito antabuse. Uso agudo de etanol prolonga os efeitos, enquanto o uso crônico inibe os antidiabéticos.

PARACETAMOL

Aumenta o risco de hepatite medicamentosa.

PROTETORES GÁSTRICOS

Aumenta o efeito do álcool e os efeitos colaterais do medicamento.

E quanto a misturar álcool com bebidas energéticas?

A associação de álcool com energéticos, como Red Bull, tem sido cada vez mais comum entre jovens, principalmente em festas e casas noturnas.

As bebidas energéticas são ricas em substâncias estimulantes, nomeadamente cafeína, guaraná, taurina e efedrina. Existe a falsa crença de que esses estimulantes retardariam os efeitos depressores do álcool, sendo possível beber em grandes quantidades e não ficar bêbado. Algumas pessoas inclusive acreditam que as bebidas energéticas permitem que se conduza veículos mesmo após ingestão de bebidas alcoólicas.

Na verdade, a associação de álcool com energéticos realmente leva à percepção de uma menor embriaguez, porém, o fato é que, após testes de habilidades motoras, acuidade visual e reflexos, fica-se claro que a intoxicação pelo álcool é exatamente igual. Isso é extremamente perigoso, pois o consumidor tem maior dificuldade em reconhecer que não está apto a conduzir ou efetuar outras tarefas motoras.

O consumidor fica tão bêbado quanto se não tivesse tomado energéticos, o problema é que ele não consegue se dar conta do fato. A inibição da percepção de embriaguez também faz com que as pessoas acabem ingerindo mais álcool do que conseguiriam se não estivessem tomando concomitantemente tantos estimulantes, facilitando a ocorrência de complicações como o coma alcoólico.

Assim como o álcool, todas essas substâncias estimulantes, quando em excesso, podem causar arritmias cardíacas. Como essa associação é normalmente feita em pessoas jovens e sadias, os riscos de complicações são menores, porém, existem vários relatos de convulsões e morte súbita de origem cardíaca em pessoas que exageram nesta associação.

A cafeína também é um diurético e o seu abuso em conjunto com o álcool pode levar a desidratação e piorar os sintomas da ressaca no dia seguinte.

Como se pode comprovar, o álcool interage com as principais classes de drogas. Na dúvida, opte pelo mais seguro, não consuma álcool se estiver usando medicamentos.


Referências



Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Samuel KCF

    Doutor, tomei metronidazol por uma infecção intestinal e acabei bebendo uma taça de vinho no mesmo dia sem saber que não podia. Passei mal logo depois com calor e enjoo. Isso pode ter sido reação entre o álcool e o remédio? É perigoso misturar antibiótico com bebida alcoólica mesmo em pouca quantidade?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Sim, o que você descreve é típico da reação do tipo antabuse, que ocorre quando o álcool é misturado com antibióticos como o metronidazol (Flagyl®). Nessa combinação, o fígado não consegue metabolizar corretamente o acetaldeído — um produto tóxico do álcool — e surgem sintomas como rubor, náuseas, vômitos, sudorese e queda de pressão. Mesmo pequenas doses de vinho, cerveja ou licor podem causar mal-estar importante. Por isso, é essencial evitar qualquer bebida alcoólica durante e até 48 horas após o uso do metronidazol.

  2. Rogério Silva

    Estou tomando sertralina para depressão e às vezes bebo uma cervejinha. Vi que o texto fala de risco de interação entre álcool e antidepressivos. Uma quantidade pequena também faz mal ou só em excesso?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Mesmo pequenas quantidades de álcool podem causar problemas quando se está em tratamento com antidepressivos, como sertralina, fluoxetina ou escitalopram. O álcool tem efeito depressor sobre o sistema nervoso central, podendo anular o efeito terapêutico do antidepressivo e aumentar o risco de sonolência, tontura, enjoos e perda de coordenação. Além disso, essa combinação pode agravar sintomas depressivos em alguns pacientes. O ideal é evitar o consumo de bebidas alcoólicas durante o tratamento, especialmente nas primeiras semanas, quando o corpo ainda está se ajustando à medicação.

  3. Sofia Sofi

    Meu pai está tomando Antabuse para parar de beber. Gostaria de saber se ele pode comer alimentos que tenham um pouco de álcool, como molhos com vinho ou sobremesas com licor. Essa pequena quantidade causa reação?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Sim. O dissulfiram (Antabuse) provoca uma reação intensa mesmo com pequenas quantidades de álcool, porque bloqueia a metabolização do acetaldeído, substância tóxica produzida na quebra do etanol. Isso significa que molhos, sobremesas com licor, enxaguantes bucais e até usar perfumes que contenham álcool podem causar sintomas como rubor, náuseas, palpitações e queda de pressão. A orientação é evitar qualquer produto que contenha álcool, mesmo em quantidades mínimas, enquanto durar o tratamento.

Envie sua dúvida sobre este artigo

Escreva uma pergunta clara, objetiva e relacionada ao tema do texto. Dúvidas que também possam ajudar outros leitores têm prioridade. Perguntas sobre casos pessoais, pedidos de diagnóstico ou orientação médica individualizada podem não ser publicadas.