Hepatite A: transmissão, sintomas e tratamento


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Revisado e atualizado em abril 1, 2026
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O que é hepatite A?

O termo hepatite refere-se à inflamação do fígado. Essa condição pode ter diversas causas, incluindo uso de drogas, consumo excessivo de álcool, doenças autoimunes ou infecções por agentes como vírus, bactérias e parasitos (leia: Diferenças entre os tipos de hepatite).

A hepatite A, foco deste artigo, é uma infecção viral causada pelo vírus da hepatite A, conhecido internacionalmente pela sigla HAV (Hepatitis A Virus).

Esse vírus foi identificado apenas em 1973. Até então, não se conheciam os agentes responsáveis pelas principais formas de hepatite viral. Na década de 1960, embora os médicos já reconhecessem os sinais clínicos da hepatite, a origem da inflamação hepática permanecia um mistério.

É importante destacar que os vírus das hepatites A, B e C são completamente diferentes entre si. Apesar dos nomes semelhantes, trata-se de doenças distintas, com formas de transmissão, evolução e tratamento bastante particulares.

Falamos especificamente sobre as hepatites B e C nos artigos:

Embora exista vacina eficaz contra a hepatite A, sua incidência ainda é elevada em diversas partes do mundo, especialmente em países em desenvolvimento, onde a cobertura vacinal é baixa e as condições de saneamento básico favorecem a propagação do vírus.

Transmissão

A hepatite A é transmitida por via fecal-oral, ou seja, ocorre quando partículas de fezes contaminadas com o vírus da hepatite A (HAV) entram em contato com a boca de outra pessoa.

Pessoas infectadas eliminam o vírus continuamente pelas fezes, mesmo antes do início dos sintomas. Assim, a transmissão pode acontecer de forma silenciosa, principalmente em ambientes com condições precárias de saneamento e higiene pessoal.

Embora à primeira vista o contato oral com fezes pareça improvável, essa forma de contaminação é mais comum do que se imagina. Quanto piores forem as condições sanitárias e o acesso à água potável, maior será o risco de disseminação do vírus.

Exemplos comuns de transmissão da hepatite A:

  • Ingestão de alimentos preparados por pessoas que não lavaram bem as mãos após evacuar (leia: Por que lavar as mãos é importante para a saúde?).
  • Banho ou mergulho em rios, praias ou lagoas contaminadas com esgoto doméstico não tratado — o HAV pode permanecer viável na água por até 6 meses.
  • Consumo de frutos-do-mar provenientes de áreas poluídas com esgoto.
  • Contato com superfícies ou objetos contaminados, seguido de colocação das mãos na boca inadvertidamente.

Para saber mais sobre doenças transmitidas por águas contaminadas, leia: Doenças transmitidas pela água.

A hepatite A não é classificada como uma infecção sexualmente transmissível (IST), mas determinadas práticas sexuais aumentam o risco de contaminação. Relações sexuais que envolvem contato oral-anal (como o sexo anal seguido de sexo oral, ou o hábito de lamber o ânus do(a) parceiro(a)) representam uma via de transmissão direta. Nesses casos, o uso de preservativos não reduz o risco, pois o contato fecal-oral continua possível.

Um dos aspectos mais preocupantes da hepatite A é a eliminação viral antes do surgimento dos sintomas. Isso significa que indivíduos aparentemente saudáveis, como manipuladores de alimentos, podem transmitir o vírus por semanas sem suspeita de que estejam infectados.

Sintomas

O período de incubação do vírus da hepatite A varia de 2 a 6 semanas após o contato inicial. Em crianças, a infecção costuma ser leve ou até assintomática, passando muitas vezes despercebida. Quando os sintomas aparecem, podem ser confundidos com uma gripe ou uma gastroenterite leve, o que dificulta o diagnóstico precoce. Em muitos casos, o histórico de hepatite A só é revelado posteriormente, por meio de exames de sangue realizados por outros motivos.

Nos adultos, por outro lado, a doença tende a ser mais sintomática, sendo esse o grupo que mais frequentemente procura atendimento médico durante a fase aguda da infecção.

Inicialmente, a hepatite A manifesta-se como um quadro inespecífico semelhante a uma virose gastrointestinal, com sinais como:

  • Perda de apetite.
  • Náuseas e vômitos.
  • Fraqueza.
  • Dores musculares (mialgias).
  • Dor de cabeça.
  • Febre baixa.

Cerca de uma semana após o início dos sintomas, é comum o surgimento da icterícia, manifestação típica da hepatite aguda. A icterícia se caracteriza por:

  • Pele e olhos amarelados.
  • Coceira generalizada (prurido).
  • Urina escura (colúria).
  • Fezes muito claras (acolia fecal).
icterícia
Comparação entre a cor da pele de indivíduos com e sem icterícia

A icterícia surge por acúmulo de bilirrubina no sangue, devido à inflamação do fígado. Em aproximadamente 80% dos casos, observa-se também hepatomegalia, que é o aumento do volume hepático, perceptível na palpação abdominal.

A hepatite A costuma durar em média 2 meses, e evolui para cura espontânea na quase totalidade dos casos. Diferente das hepatites B e C, ela não se torna crônica, exceto em situações extremamente raras.

Para saber mais sobre os sintomas da hepatite aguda, leia: 8 Sintomas de Hepatite Aguda.

Achados laboratoriais da Hepatite A

Nos exames laboratoriais, a hepatite A aguda costuma provocar alterações marcantes nas enzimas hepáticas e nos parâmetros relacionados à função do fígado.

Os achados típicos incluem:

  • Transaminases (AST – TGO e ALT – TGP): geralmente elevadas acima de 1000 UI/L, sendo a ALT (TGP) frequentemente mais elevada que a AST (TGO);
  • Bilirrubina sérica: em geral, acima de 9 mg/dL, com predomínio da fração direta;
  • Fosfatase alcalina: pode estar moderadamente aumentada, em torno de 400 UI/L.

Leitura sugerida: Exames do fígado (TGO, TGP, GGT, fosfatase alcalina e bilirrubinas).

A elevação das transaminases costuma ocorrer antes do aumento da bilirrubina, atingindo seu pico cerca de 4 semanas após a infecção. A partir daí, os níveis enzimáticos caem progressivamente — estima-se uma redução de cerca de 75% por semana.

A bilirrubina, por sua vez, tende a normalizar-se em até duas semanas após atingir o valor máximo.

Outros achados laboratoriais possíveis incluem aumento de proteína C reativa (PCR) e outros reagentes de fase aguda, como a velocidade de hemossedimentação (VHS), indicativos de resposta inflamatória sistêmica.

A recuperação clínica e laboratorial completa ocorre em cerca de 85% dos casos até o terceiro mês. Em praticamente todos os pacientes, a normalização dos exames é alcançada até o sexto mês após o início dos sintomas.

Hepatite A fulminante

Embora a hepatite A geralmente seja uma doença benigna e autolimitada, há casos raros em que ela evolui para uma forma grave e rapidamente progressiva, conhecida como hepatite fulminante.

Essa complicação é caracterizada por falência hepática aguda, com risco de morte se não houver intervenção médica imediata, geralmente na forma de transplante de fígado de urgência.

Apesar de rara, a hepatite A é uma das causas virais que mais frequentemente levam à hepatite fulminante, especialmente em adultos mais velhos ou em pessoas com doença hepática pré-existente.

Felizmente, esse desfecho grave ocorre em menos de 1% dos casos.

Hepatite A recorrente

Cerca de 10% dos pacientes infectados pelo vírus da hepatite A (HAV) podem apresentar uma ou mais recaídas dentro dos seis meses seguintes ao episódio agudo. Essa forma é conhecida como hepatite A recorrente — ou, em alguns casos, hepatite A bifásica.

A recaída clínica geralmente tem duração inferior a três semanas e costuma ser mais branda do que o quadro inicial. No entanto, a recaída bioquímica — caracterizada por novas elevações nas enzimas hepáticas — pode persistir por até 12 meses.

A causa exata desse padrão bifásico é desconhecida, e até o momento não há fatores de risco bem definidos para essa recorrência.

O padrão típico envolve uma fase inicial de melhora clínica com quase normalização dos exames laboratoriais, seguida de uma nova elevação das transaminases (TGO/AST e TGP/ALT), que podem novamente ultrapassar 1000 UI/L. Em muitos casos, os anticorpos IgM anti-HAV permanecem positivos ao longo de toda a evolução da doença.

Durante os episódios de recidiva, o vírus da hepatite A pode voltar a ser detectado nas fezes, o que significa que esses pacientes continuam potencialmente infecciosos e devem adotar medidas de higiene reforçadas.

Apesar do curso prolongado, a hepatite A recorrente tem bom prognóstico. A recuperação completa é a regra. O reconhecimento do quadro evita investigações desnecessárias e ansiedade para o paciente. Em casos com icterícia recorrente, a realização de uma ultrassonografia hepática é indicada para descartar causas obstrutivas do sistema biliar.

Hepatite A colestática

A forma colestática da hepatite A é uma apresentação menos comum da infecção aguda e se caracteriza por uma colestase prolongada, ou seja, uma retenção de bile no fígado que provoca icterícia persistente por mais de 3 meses.

Essa forma ocorre em menos de 5% dos casos de hepatite A, sendo mais frequente em adultos do que em crianças.

O quadro clínico costuma incluir:

  • Icterícia intensa e prolongada.
  • Prurido generalizado (coceira).
  • Febre persistente.
  • Perda de peso.
  • Diarreia.
  • Sensação de mal-estar geral.

Nos exames laboratoriais, observa-se:

  • Bilirrubina sérica acentuadamente elevada (geralmente > 10 mg/dL).
  • Transaminases moderadamente elevadas, entre 5 a 15 vezes o limite superior da normalidade.
  • Os níveis máximos de bilirrubina podem ser atingidos por volta da oitava semana de doença ou até mais tarde.

Apesar do curso arrastado e dos sintomas incômodos, a hepatite A colestática geralmente se resolve de forma espontânea, sem deixar sequelas.

O reconhecimento dessa variante clínica é fundamental para evitar exames e tratamentos desnecessários. Em casos com icterícia prolongada, recomenda-se a ultrassonografia do fígado e vias biliares, com o objetivo de descartar obstrução biliar, como cálculos ou estenoses.

Diagnóstico

O diagnóstico da hepatite A envolve uma combinação de achados clínicos, laboratoriais e sorológicos.

Nos exames de sangue, observa-se com frequência uma elevação significativa das enzimas hepáticas, principalmente:

  • ALT (TGP) e AST (TGO) – geralmente acima de 1000 UI/L nas hepatites virais agudas.
  • Bilirrubinas totais e diretas elevadas, principalmente quando há icterícia associada.

Essas alterações indicam a presença de um quadro de hepatite aguda, mas não determinam sua causa específica. Para confirmar que o vírus da hepatite A (HAV) é o agente responsável, é necessário realizar um exame sorológico.

A sorologia para hepatite A busca dois tipos de anticorpos no sangue:

  • IgM anti-HAV: quando positivo, indica infecção ativa. Já está presente quando os sintomas aparecem e permanece detectável por até 6 meses.
  • IgG anti-HAV: quando positivo, indica infecção passada ou imunização por vacina. Surge algumas semanas após o contato com o vírus e permanece positivo por toda a vida, conferindo imunidade.

Interpretação dos resultados sorológicos:

  • IgM positivo / IgG negativo → infecção ativa recente.
  • IgM positivo / IgG positivo → infecção ativa em fase de resolução.
  • IgM negativo / IgG positivo → infecção antiga e curada ou imunização prévia.
  • IgM negativo / IgG negativo → paciente nunca teve contato com o HAV e ainda é suscetível à infecção.

A sorologia é, portanto, o método definitivo para o diagnóstico etiológico da hepatite A, sendo também útil para avaliação de imunidade, especialmente em indivíduos de risco ou antes de viagens para áreas endêmicas.

Tratamento

A hepatite A é, na grande maioria dos casos, uma doença autolimitada, com cura espontânea completa em poucas semanas a meses. Por isso, não existe um tratamento antiviral específico contra o vírus da hepatite A (HAV).

O manejo é sintomático e baseado em cuidados gerais, que incluem:

  • Repouso relativo, principalmente nos períodos de maior fadiga.
  • Boa hidratação oral, especialmente se houver episódios de náuseas ou vômitos.
  • Alimentação leve e equilibrada, de acordo com a tolerância do paciente.

É fundamental evitar o consumo de álcool, pois ele sobrecarrega ainda mais o fígado em processo inflamatório. Também devem ser evitados medicamentos potencialmente hepatotóxicos, como o paracetamol, salvo orientação médica.

Nos casos mais intensos ou em pacientes com sintomas prolongados, o acompanhamento médico é essencial para monitorar a função hepática e prevenir complicações.

Vacina contra hepatite A

A vacina contra a hepatite A é segura, altamente eficaz e representa a principal forma de prevenção da infecção pelo vírus HAV. Ela é composta por vírus inativado e estimula a produção de anticorpos protetores de longa duração.

No Brasil, a vacinação está incluída no Programa Nacional de Imunizações (PNI) e é recomendada de forma rotineira para crianças com:

  • 12 meses de idade (1ª dose).
  • 18 meses de idade (2ª dose – reforço).

A vacina também pode ser administrada em adultos não imunizados, com especial indicação para:

  • Profissionais que manipulam alimentos.
  • Pessoas com doenças hepáticas crônicas, como hepatite B, C ou esteatose hepática.
  • Viajantes para regiões com alta endemicidade.
  • Pessoas que vivem em áreas com surtos ativos.
  • Homens que fazem sexo com homens.
  • Pessoas em situação de rua.
  • Usuários de drogas ilícitas.
  • Pacientes com HIV.

A vacinação de manipuladores de alimentos tem importância estratégica na prevenção de surtos, já que a contaminação por via fecal-oral através de alimentos é uma das formas mais comuns de disseminação do vírus.

Como os seres humanos são o único reservatório natural conhecido do HAV, estratégias eficazes de vacinação em massa e de saneamento básico permitem não apenas o controle, mas potencialmente a erradicação do vírus.

Desde a introdução da vacina contra hepatite A nos Estados Unidos, em 1995, observou-se uma redução de mais de 95% na taxa de infecção pelo vírus naquele país — um dado que evidencia o impacto da imunização.

Perguntas frequentes sobre hepatite A (FAQ)

Hepatite A é transmissível pelo beijo?

Não. A hepatite A não se transmite pela saliva, beijos ou compartilhamento de talheres, copos ou alimentos — desde que não haja contato com fezes contaminadas. A principal via de transmissão é fecal-oral, ou seja, contato com partículas de fezes que cheguem à boca.

Quanto tempo dura a hepatite A?

Na maioria dos casos, os sintomas duram de 2 a 8 semanas, mas a recuperação completa pode levar até 6 meses. A forma colestática, embora rara, pode causar icterícia prolongada.

Existe hepatite A crônica?

Não. A hepatite A não evolui para forma crônica. Diferentemente das hepatites B e C, o vírus HAV não se integra ao DNA e não permanece no organismo após a cura.

A hepatite A tem cura?

Sim, a hepatite A tem cura. Trata-se de uma doença viral aguda e autolimitada, o que significa que, na imensa maioria dos casos, o próprio organismo é capaz de eliminar o vírus sem necessidade de tratamento específico. A recuperação ocorre de forma espontânea ao longo de algumas semanas a meses, e o paciente adquire imunidade permanente contra o vírus da hepatite A (HAV).


book Referências bibliográficas


Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Santiago

    Dr. Fui diagnosticado com hepatite A, no entanto a fase aguda já passou, o médico me deu uma semana de repouso, mas quero trabalhar, quero voltar as atividades. Eu poderei voltar normal às atividades? Me sinto bem, claro, melhorei muito minha alimentação e hidratação e levarei para o resto da vida. Estou ansioso por estar em repouso ( sem fazer nada). Me tira essa dúvida.

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Santiago, lamento, mas eu não posso desautorizar o seu médico. Ainda mais pela Internet e sem conhecer detalhes do seu estado clínico.

  2. Samara maia

    Meu Igg deu reagente mas o meu igm deu negativo! Estou com hepatite?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    IgG positivo com IgM negativo é sinal de doença antiga e curada.

  3. Marylene BA

    Parabéns pelo site. Foi muito importante para entender melhor a hepatite de meu filho. Ele está com hepatite tipo A, mas muitas dores abdominais abaixo do fígado. Diferente do que o senhor descreveu. Isso pode indicar mais algum comprometimento? Uma esteatose? Obrigada

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Não necessariamente, a dor pode ser só pela inflamação do fígado.

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