Toxoplasmose na gravidez: sorologia, riscos e sintomas


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Revisado e atualizado em julho 27, 2025
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O que é toxoplasmose?

Toxoplasmose é a infecção causada pelo parasito Toxoplasma gondii. Apesar de ser muito comum, a toxoplasmose é uma doença relativamente desconhecida da população, pois na grande maioria dos casos, a infecção é assintomática e passa despercebida. É somente nos pacientes imunossuprimidos e nas grávidas que o Toxoplasma gondii torna-se realmente perigoso.

Estima-se que cerca de 1/3 da população mundial já tenha entrado em contato com o parasito, embora essa prevalência varie bastante entre diferentes regiões do mundo. Mesmo em países com elevado grau de desenvolvimento, como a França, a prevalência de anticorpos pode atingir 40% da população. Já nos Estados Unidos, esse número gira em torno de 11%.

Mamíferos e aves podem se contaminar com o T. gondii, mas o parasito só consegue produzir ovos dentro dos intestinos dos gatos, motivo pelo qual os felinos são chamados hospedeiros primários. Todos os outros animais são hospedeiros intermediários, pois só possuem o parasito adulto em seu organismo.

Os ovos do parasito alcançam o ambiente quando os gatos defecam. A contaminação ocorre quando esses ovos são ingeridos por um animal. No caso humano, a ingestão costuma se dar pela contaminação das mãos no solo, seguido pelo contato destas com a boca.

Para um entendimento mais amplo da toxoplasmose, sugiro a leitura do texto: Toxoplasmose: sintomas, IgG e tratamento, onde explicamos em detalhes como se dá a transmissão do parasito e quais são os seus sintomas.

Antes de seguirmos com as explicações sobre a toxoplasmose na gravidez, vale a pena uma revisão de como é feito o diagnóstico sorológico da doença.

Diagnóstico na gravidez: IgM e IgG

Durante o pré-natal, o obstetra solicita algumas sorologias (exame de sangue que mostra quais são as principais infecções que a gestante já teve) para avaliar o estado imunológico da grávida. Cinco infecções são de elevada importância na gravidez devido ao risco de transmissão para o feto:

O grande risco para o feto ocorre quando uma mãe sem anticorpos para a toxoplasmose adquire a doença durante a gestação. Para saber quais são as mulheres susceptíveis à infecção durante a gravidez, solicitamos em todo pré-natal uma sorologia para toxoplasmose.

A sorologia é basicamente uma dosagem de anticorpos específicos. Uma sorologia para toxoplasmose é aquela que pesquisa anticorpos contra o Toxoplasma gondii, parasita que causa a doença. O raciocínio é o seguinte: o nosso corpo só cria anticorpos contra um determinado agente infeccioso se formos expostos ao mesmo. Portanto, ter anticorpos contra toxoplasmose significa já ter sido contaminado pelo parasita em algum momento da vida.

Para resumir um processo extremamente complexo, podemos dizer que nosso corpo trabalha basicamente com dois anticorpos, chamados IgM (imunoglobulina M) e IgG (imunoglobulina G). Assim que um germe novo entra em nosso corpo, nosso sistema imune começa a produzir o anticorpo IgM, chamado anticorpo de fase aguda. O IgM é um anticorpo menos específico, mas que consegue ser produzido em poucos dias. Na toxoplasmose é possível identificar IgM circulante 5 a 7 dias após a contaminação.

Depois de mais ou menos 4 semanas, quando o nosso sistema imune já conheceu bem o agente invasor, o corpo substitui o anticorpo IgM pelo anticorpo IgG, mais forte e mais específico contra a toxoplasmose. Portanto, depois de 4 semanas, o paciente deixa de ter IgM positivo e passa a ter apenas IgG positivo para toxoplasmose. Esta IgG para toxoplasmose ficará positiva pelo resto da vida e impedirá que o parasita se multiplique dentro do nosso corpo.

Resumindo, um paciente com toxoplasmose aguda tem IgM positivo, enquanto um paciente que já teve toxoplasmose e possui o parasita inativo no corpo apresentará IgG positivo. Quem nunca foi exposto ao Toxoplasma tem IgM e IgG negativos.

Vale ressaltar que a presença de IgM isolado não é suficiente para confirmar infecção recente, pois esse anticorpo pode permanecer detectável por meses ou até mais de um ano. Testes complementares, como a dosagem da avidez da IgG, podem ser necessários para diferenciar uma infecção antiga de uma recente.

Como a toxoplasmose não causa doença em 90% das pessoas, o único modo de saber se o paciente já foi exposto ao Toxoplasma é através da dosagem do IgG para toxoplasmose. Para ler sobre os sintomas da toxoplasmose: Sintomas da toxoplasmose.

Toxoplasmose na gravidez

É importante frisar que o problema não está naquelas mães que adquiriram toxoplasmose antes de estarem grávidas. As mulheres que já apresentavam IgG positivo para toxoplasmose antes de estarem grávidas não correm risco de transmiti-la para seus fetos. Nestes casos, o Toxoplasma encontra-se adormecido nos tecidos musculares e o sistema imune da mãe encarrega-se de mantê-lo longe do feto.

A única exceção ocorre em casos de imunossupressão da mãe, como nas gestantes com AIDS, por exemplo. Nestes casos, como o sistema imunológico está fraco, o Toxoplasma adquirido anos antes pode voltar a ficar ativo e infectar o feto durante a gestação.

O risco da toxoplasmose na gravidez ocorre naquelas mães que nunca tiveram contato prévio com o parasita, possuindo sorologia negativa, isto é, IgM e IgG negativos para toxoplasmose. Estas são as gestantes sob risco, pois a toxoplasmose congênita ocorre quando mulheres adquirem o Toxoplasma durante a gravidez.

Portanto, se durante o exame pré-natal a futura mãe já tiver um IgG positivo para toxoplasmose, ela pode ficar tranquila, pois não arrisca passar a doença para o feto. Se, entretanto, ficar constatado que a mãe é IgG negativo, alguns cuidados devem ser tomados para minimizar o risco de contaminação durante a gestação:

  • Evitar consumir carnes mal passadas, principalmente de porco.
  • Lavar bem as frutas e vegetais antes de comê-los.
  • Lavar bem facas e pratos que tiveram contato com carne crua.
  • Congelar a carne por uma semana antes de consumi-la ajuda a matar os parasitas.
  • Não consuma carne de procedência não confiável.
  • Evite beber água não engarrafada.
  • Não pratique jardinagem.
  • Evitar contato prolongado com gatos.

Grávidas e gatos

Os gatos são os únicos animais que, se contaminados com o Toxoplasma, passam a eliminá-los nas fezes, servindo como fonte de contaminação do meio e de pessoas. Nos outros animais, o parasita fica alojado e adormecido nos músculos, motivo pelo qual a ingestão de carnes cruas é atualmente o principal fator de risco para contaminação pela toxoplasmose.

Portanto, grávidas suscetíveis à toxoplasmose (IgG negativo) devem evitar carnes cruas e o manuseio da caixa de areia dos gatos.

Sou uma gestante com IgG negativo e tenho um gato de estimação. Preciso me livrar dele?

Não, não precisa. Mas alguns cuidados devem ser tomados:

  • Leve-o ao veterinário para saber seu estado imunológico.
  • Peça alguém para limpar diariamente a caixa de areia com fezes do gato. Tente não entrar em contato com as fezes do felino.
  • Alimente-o apenas com rações; nunca o deixe comer carne crua.
  • Evite deixar o gato sair de casa, para que ele não corra o risco de contrair o parasita.
  • Evite insetos em casa, principalmente moscas e baratas, que podem carrear o parasita e serem comidos pelo animal.

Se o seu gato é bem cuidado, alimenta-se corretamente e não costuma andar livremente pela rua, a chance dele ter toxoplasmose é muito pequena.

Quando as grávidas tomam os devidos cuidados, a taxa de contaminação é baixa. Atualmente, menos de 8 em cada 1000 (isto é, 0,8%) gestantes com sorologia negativa para toxoplasmose acabam por se infectar durante a gravidez.

Assim como em qualquer outro paciente com sistema imunológico intacto, a toxoplasmose na gravidez não costuma provocar sintomas. Nos raros casos onde há sintomas, os mesmos costumam ser leves e inespecíficos, como febre baixa, cansaço e dor muscular.

Portanto, nas mulheres com IgG negativo, a sorologia deve ser repetida periodicamente durante toda a gravidez para termos certeza de que não surgiu um IgM positivo indicativo de infecção recente. Não dá para confiar somente nos sintomas para dizer se alguém foi ou não infectado pelo Toxoplasma recentemente.

Toxoplasmose congênita

Como já explicado exaustivamente, a toxoplasmose congênita ocorre quando mães com sorologia negativa para toxoplasmose (IgG negativo) entram em contato com o parasita durante a gravidez.

Mulheres que pretendem engravidar, mas que acabaram de se contaminar com a toxoplasmose devem respeitar um intervalo mínimo de 6 meses entre a cura e a gravidez para não haver risco de transmissão do parasita para o feto.

Quanto maior for a idade gestacional no momento da infecção, maior será o risco de transmissão do parasita para o feto. Toxoplasmose adquirida na 13ª semana, 26ª semana ou na 36ª semana apresentam, respectivamente, um risco de 15%, 44% e 71% de transmissão para o feto.

Sintomas

A maioria dos recém-nascidos com toxoplasmose são assintomáticos imediatamente ao nascer. Menos de 30% já nascem com sintomas da toxoplasmose congênita, como coriorretinite, calcificações intracranianas, hidrocefalia (acúmulo de líquido cefalorraquidiano no interior do crânio), lesões dermatológicas e linfadenopatia generalizada (linfonodos aumentados por todo o corpo).

Aqueles que nascem sem sintomas, porém, se não diagnosticados e devidamente tratados, apresentam elevado risco de desenvolver posteriormente sintomas da toxoplasmose congênita. Além de lesões oculares graves, estas crianças podem apresentar surdez, atraso do desenvolvimento mental e epilepsia. Casos mais graves podem evoluir para o óbito.

A ultrassonografia fetal consegue detectar aqueles 30% de casos de malformações do feto causadas pela toxoplasmose ainda dentro do útero. Nos países que permitem aborto, a interrupção da gravidez pode ser indicada, pois estes bebês já apresentam graves sequelas neurológicas e elevada mortalidade nos primeiros dias de vida.

Prevenção

Mães que desenvolvam toxoplasmose durante a gravidez, independentemente da idade gestacional, devem ser tratadas até o fim da gestação. Quando não há evidência de infecção fetal, o tratamento indicado é com espiramicina. Nos casos em que a infecção fetal é confirmada, o esquema recomendado é uma combinação de pirimetamina, sulfadiazina e ácido folínico.

Se, apesar do tratamento, a criança nascer com toxoplasmose, sintomática ou não, esta também deve ser tratada. O esquema indicado é pirimetamina + sulfadiazina, geralmente por um período de 12 meses.


Referências



Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Juliana Pires

    Olha boa tarde meu exame da mamãe deu mais de 80 positivo menos de 80 negativo meu resultado foi 80 quais os riscos grávida de 23 semana

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Qual exame especificamente foi esse resultado?

  2. Cristiane

    Bom dia DR fiz o exame toxoplasmose que os resultados foram os seguintes igG:reagente

    E o IgM:nao reagente

    E o valor de referência:igG:ate 250 UI/mL

    IgM:não reagente

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Significa que você já teve contando com o agente causador da toxoplasmose no passado e criou anticorpos. É bom porque o risco de pegar novamente é baixo.

  3. Beatriz

    Olá doutor boa noite eu estou com 28 semanas meus exames deu reagente o igg e o igm o risco é grande de transmite pro bebê ?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Se o IgM deu positivo, há risco, sim.

  4. Marlene da silva nogueira

    Olá Dr.Sabrina estou grávida de 34 semanas e descobrir que estou com toxomaplose IgG reativo qual risco correr de passar pra minha bebê

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Um resultado isolado de IgG reativo significa apenas que você já teve toxoplasmose alguma vez na vida. Sem o IgM não dá pra saber se a infecção é recente ou antiga.

  5. Sabrina ketleen

    Boa tarde Dr.!
    Estou com 7 semanas meu Igm 2.66 e Igg 650.00
    Significa? Que meu BB está correndo risco?

    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Eu preciso saber dos valores de referência desse laboratório.

  6. Maedi Reis Tavares

    Olá, DR. Estou Gravida de 7 semanas
    Meu Resultado de Exame Deu IgG 0,100 IU/mL

    Valores de Referência:Não Reagente: 0,0 a 1,6 IU/mL
    Indeterminado:1,61 a 3,0 IU/mL
    Reagente:Superior ou igual a 3,0

    Resultado de Exame Deu IgM 0,090 UA/mL

    Valores de Referência:Não Reagente: Inferior a 0,50
    Indeterminado: 0,50 0,60
    Reagente: Superior a 0,60

    Devo em Preocupar?????

    Dr. Pedro Pinheiro - MD. Saúde Autor

    Os dois resultados foram negativos, isso significa que você nunca teve toxoplasmose. Como você está grávida, é preciso ter certos cuidados para não correr o risco de apanhar toxoplasmose justo agora nessa fase da sua vida.

  7. Cristiano

    Olá Dr. Minha esposa deu IGG e IGM ambos positivos para toxoplasmose, ela está grávida de 8 semanas. A médica dela já pediu mais 4 exames de sangue. É pra nos preocupar? nos de sua opinião. Grato.

    Dr. Pedro Pinheiro - MD. Saúde Autor

    Existe o risco dela ter adquirido a toxoplasmose no início da gravidez. Realmente é preciso investigar melhor.

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