Remédios que fazem mal aos rins (nefrotóxicos)


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Revisado e atualizado em agosto 26, 2024
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O que é um medicamento nefrotóxico?

Os rins são os principais órgãos responsáveis pela filtração e eliminação de substâncias tóxicas que circulam no sangue.

Porém, apesar de serem um dos principais responsáveis pela “limpeza” do sangue, os próprios rins podem sofrer efeitos adversos de algumas toxinas que eles depuram. Entre essas substâncias estão vários medicamentos usados frequentemente na prática médica, que podem causar lesão renal se forem usados de modo inapropriado.

Damos o nome de fármacos nefrotóxicos a todos os medicamentos que apresentam potencial risco de causar lesão nos rins.

Além da lesão direta de certas substâncias nos rins, existe também um grupo de fármacos que são seguros em pessoas sadias, mas que se tornam perigosas em pacientes que já apresentam doença prévia nos rins, fazendo com que haja piora da doença renal.

Nesse texto, falamos um pouco das principais drogas nefrotóxicas, ou seja, dos medicamentos que podem fazer mal aos rins.

ATENÇÃO: esse texto não tem como objetivo assustar ninguém, nem fazer propaganda contra medicamentos. O objetivo é mostrar como a automedicação pode ser perigosa e trazer prejuízos que as pessoas nem imaginam que possam acontecer.

Vídeo: Seus rins funcionam bem?

Antes de seguirmos em frente, assista a esse curto vídeo de 3 minutos, produzido pela equipe do MD.Saúde, que explica de forma simples como saber se os seus rins podem estar doentes.

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Fármacos nefrotóxicos

Anti-inflamatórios

Quando pensamos em medicamentos que fazem mal aos rins, o primeiro exemplo que vem à mente são os anti-inflamatórios não esteroides (AINES).

O principal efeito maléfico dos AINES é a redução da filtração renal, ou seja, da capacidade dos rins em filtrar o sangue.

Pessoas que possuem rins saudáveis até conseguem tolerar essa redução sem maiores complicações. O problema ocorre naqueles que tem insuficiência renal (principalmente em fases avançadas) e, portanto, já apresentam a filtração renal diminuída de base.

Esse grupo apresenta grande risco de falência renal aguda e, muitas vezes, necessitam de hemodiálise de urgência quando tomam anti-inflamatórios por conta própria. O risco cresce a partir do 3º dia de uso.

O anti-inflamatório é, portanto, uma droga contra-indicada em pacientes com insuficiência renal.

Outra lesão relacionada aos anti-inflamatórios é a nefrite intersticial, uma espécie de reação alérgica localizada no rim. A nefrite intersticial pode ser causada por várias drogas além dos anti-inflamatórios e se apresenta principalmente como uma insuficiência renal aguda, com rápida elevação da creatinina.

No caso da nefrite intersticial dos anti-inflamatórios ela apresenta uma característica especial que é a presença concomitante de proteinúria e síndrome nefrótica.

É bom deixar claro que a nefrite intersticial não é uma reação comum, principalmente se considerarmos a quantidade de pessoas que tomam anti-inflamatórios no mundo.

Um terceiro tipo de lesão, mais incomum ainda, é o induzido por uso crônico de anti-inflamatórios, mesmo em pessoas normais. Parece que para pessoas com rins normais desenvolverem lesão renal pelo uso prolongado de AINES, são necessários no mínimo 5000 comprimidos ao longo da vida. Isso equivale a 7 anos de anti-inflamatórios diários em um regime de 12/12 horas.

O AAS (aspirina) também é um anti-inflamatório e deve ser usado com cautela em pacientes com doenças renais.

Para saber mais sobre anti-inflamatórios, leia: Anti-inflamatórios – Ações e efeitos adversos.

Antibióticos

Os antibióticos também são causa de nefrite intersticial. Diferentemente da nefrite pelos anti-inflamatórios, no caso dos antibióticos a proteinúria é pequena, mas outros sintomas como febre e manchas vermelhas pelo corpo associado a insuficiência renal aguda, ocorrem com maior frequência.

Vários antibióticos podem causar nefrite intersticial, principalmente as penicilinas, rifampicina, ciprofloxacino e trimetoprim/sulfametoxazol (Bactrim®).

Alguns antibióticos são nefrotóxicos por natureza e devem ser evitados em pacientes renais crônicos. Os mais comuns são:

  • Aminoglicosídeos (ex: Gentamicina, Amicacina, Estreptomicina, Tobramicina e Neomicina).
  • Anfotericina B.
  • Pentamidina.

Leia mais sobre antibióticos em: Antibióticos – Tipos, resistência e indicações.

Analgésicos

A lesão renal pelo uso prolongado de analgésicos era muito comum até a década de 80, e caiu vertiginosamente após a retirada da Fenacetina do mercado. Hoje, as lesões relacionadas aos analgésicos são causados pelo uso diário e prolongado (por meses ou anos) do Paracetamol, principalmente se associado ao ácido acetilsalicílico (AAS).

A dipirona (metamizol) é muito pouco usada em vários países da Europa e nos EUA, por isso existem poucos estudos sobre sua toxicidade renal. Aparentemente, esse analgésico é uma opção segura para os pacientes com doença renal.

Contraste de exame radiológico

Doentes com insuficiência renal devem evitar contrastes radiológicos sempre que possível. Se o exame for imprescindível, deve-se realizar uma preparação do paciente para minimizar os efeitos. Os principais exames que usam contrastes nefrotóxicos são:

  • Tomografia computadorizada.
  • Cateterismo cardíaco.
  • Urografia excretora.
  • Angiografia.
  • Ressonância magnética (perigoso apenas em casos de insuficiência renal avançada).

Antipsicóticos

Um estudo publicado em 2014 com 200 mil indivíduos com idade acima de 64 anos mostrou que os pacientes idosos que tomam quetiapina, olanzapina ou risperidona, um grupo de fármacos chamado antipsicóticos atípicos, apresentaram um risco duas vezes maior de hospitalização por lesão aguda do que os pacientes da mesma idade que não tomam nenhum dos três medicamentos.

Outros medicamentos potencialmente nefrotóxicos

  • Lítio: usado principalmente no transtorno bipolar (antigo distúrbio maníaco-depressivo).
  • Aciclovir: antiviral.
  • Indinavir: antirretroviral usado na SIDA (AIDS).
  • Tenofovir: usado no tratamento de HIV e hepatite B, pode causar disfunção tubular proximal e, em casos graves, insuficiência renal crônica.
  • Ciclosporina: imunossupressor usado em transplantes e doenças autoimunes.
  • Tacrolimus: igual à ciclosporina.
  • Ciclofosfamida: imunossupressor usado em doenças autoimunes e algumas neoplasias.
  • Cisplatina: quimioterápico bastante nefrotóxico, especialmente em doses altas ou em tratamentos prolongados.
  • Ifosfamida: quimioterápico, pode causar lesão renal, incluindo síndrome de Fanconi.
  • Metotrexato: quimioterápico, em altas doses, pode levar à insuficiência renal devido à formação de cristais nos túbulos renais.

Medicamentos que possivelmente fazem mal aos rins

Há cada vez mais evidências de que os inibidores da bomba de prótons – IBP (omeprazol, esomeprazol, lanzoprazol, etc.) podem causar lesão nos rins, se usados de forma crônica. É comum encontrarmos pacientes que tomam um IBP diariamente por vários meses ou anos, muita vezes sem necessidade.

Na maioria dos casos, medicamentos como omeprazol devem ser utilizados de forma pontual, por 4 a 6 semanas para o tratamento de problemas gástricos. Deve-se evitar o uso dos IBP por vários meses seguidos.

Leia também: Inibidores da bomba de próton (remédios para dor de estômago).

Os fibratos (fenofibrato, genfibrozil, ciprofibrato, etc.) são medicamentos utilizados no tratamento da hipertrigliceridemia. Nos pacientes com algum grau de disfunção renal, esses fármacos podem causar agravamento da lesão renal e devem ser evitados.

Existem cada vez mais relatos sobre casos de lesão renal induzidas pelas chamadas ervas chinesas tradicionais. Já são mais de 150 casos de pessoas que usavam essas ervas para emagrecer e desenvolveram insuficiência renal aguda com necessidade de hemodiálise.

Poucos são os procedimentos médicos isentos de riscos. A automedicação é perigosa e é importante conhecer os principais efeitos colaterais para poder detectá-los precocemente. Não é à toa que a grande maioria dos médicos passa por uma formação de pelo menos 10 anos.


Referências



Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. David

    Olá, Doutor.

    Excelente esse seu canal aqui, todos os assuntos são importantes e bem explicados para os leigos e pacientes sem formação médica. Pergunta: sou transplantado renal há 14 anos e tomo de forma crônica, o Omeprazol, pois os médicos do transplante, nefrologistas como o sr., receitam os imunossupressores (Tacrolimus e Micofenolato sódico ou mofetila, depende do que tem na farmácia do hospital…), que, com exceção do corticóide, Prednisona, afetam o estômago. Tomo 20 mg diariamente desde o transplante. Pode afetar o rim transplantado, o Omeprazol? Ah, tb. houve um novo protocolo, segundo o médico, após alguns pacientes transplantados terem pneumonia, de receitar Bactrim, uma vez ao dia, o Bactrim simples. Há algum problema/perigo para o rim?

    Feliz Natal e grato pelo seu importante trabalho.

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Olá, David.

    Em geral, o omeprazol não afeta o enxerto diretamente, e estudos em transplantados não mostram aumento claro de rejeição/perda do rim no curto prazo. O ponto é que, como qualquer IBP, ele está associado (raramente) a nefrite intersticial aguda e, em estudos observacionais, a maior risco de problemas renais; além disso, pode causar hipomagnesemia. É uma questão de pôr na balança riscos e benefícios.

    Em relação ao Bactrim, os principais problemas são a possibilidade de aumentar o potássio e subir a creatinina nas análises (mas sem lesão renal real, por efeito do trimetoprim). Não faz mal ao enxerto.

  2. Cicero Bartolomeu de Araujo Araujo

    Boa tarde Dr. Faço o uso de AAS infantil e Omeprazol diariamente; e tenho insuficiência renal, cisto de 17mm; pergunto; devo evitar o uso prolongado de AAS infantil e Omeprazol:

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    O AAS não tem problema. Já o omeprazol, o ideal é não utilizar diariamente e de forma prolongada. São raras as situações que fazem com que o paciente precise realmente tomar omeprazol indefinidamente.

  3. Tamara Talita

    Pregabalina faz mal para os rins? É nefrotoxico?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    A pregabalina, em geral, não é considerada nefrotóxica e não causa dano direto aos rins em indivíduos com função renal normal. No entanto, ela é eliminada quase que totalmente pelos rins, o que significa que, em pacientes com insuficiência renal, pode haver acúmulo da medicação no organismo, aumentando o risco de efeitos colaterais, como sonolência, tontura e confusão mental.

  4. Lucas S

    Boa noite doutor, tenho 30 anos e meus rins estão se indo, sou obrigado a tomar, beta 30 três vezes ao ano (reniti+asma), aerolin+alenia. Omeprazol estou tomando um por semana a 7 anos, já fiz contínuo, mas sempre volta e é a única coisa que me traz uma leve qualidade de vida. Comprei cimetidina 200mg para tomar no lugar do omeprazol. Obrigado…

  5. shirley

    Doril prejudica os rins?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Sim, o Doril tem ácido acetilsalicílico na dose de 500 mg, que é uma dosagem que pode ser prejudicial à função renal.

  6. Erica Bravo

    Estava pensando em toma Ginko Biloba para melhorar minha pressao arterial e circulação ( não sou hipertensa). Ginko biloba 120mg 1 vz ao dia faz mal ao rins?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Não, mas também não acredito que vá trazer algum benefício concreto. Se você pretende melhorar a pressão arterial e a circulação, o ideal é praticar atividade física regular. É melhor e mais comprovado que qualquer outra medida.

  7. Alberto Seabra de Albuquerque

    Boa tarde Doutor. Tenho a Creatinina em 1.5 a 1.7 , oscilando. Faço exercícios todos os dias, faria algum mal eu tomar 2x ao dia, Citrus Sinensis (Morosil) 500Mg + Cactínea 400Mg? Gratidão pela resposta!!!

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Se o objetivo for perda de peso, eu acho que há soluções melhores.

  8. Teresa Berti

    Dr. Quais analgésicos, para quem fez nefrectomia radical, pode tomar?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Dipirona e paracetamol não são nefrotóxicos.

  9. Teresa Berti

    Que matéria didática para leigos. Muito obrigada

  10. Lena

    Doutor boa noite.
    Neosaldina faz mal aos rins?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Não costuma.

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