Diferenças entre Nefrologia e Urologia
Nefrologia e Urologia são duas especialidades médicas que atuam sobre o sistema urinário, mas com focos bastante distintos. Embora frequentemente confundidas pelo público, elas têm áreas de atuação bem definidas e complementares.
A palavra “nefro” vem do grego nephros, que significa rins. Assim, a Nefrologia é a especialidade médica voltada para o diagnóstico e tratamento clínico das doenças renais. O nefrologista é o médico responsável por cuidar da função dos rins e das condições que comprometem sua estrutura, mesmo quando não há necessidade de cirurgia.
Já a Urologia é uma especialidade cirúrgica que trata doenças do trato urinário masculino e feminino (rins, ureteres, bexiga e uretra), além do sistema genital masculino (próstata, pênis, testículos e epidídimos). O urologista realiza cirurgias urológicas, como retirada de cálculos renais, tratamento de cânceres urogenitais e correção de alterações anatômicas, mas também acompanha condições clínicas, como a hiperplasia prostática benigna e a disfunção erétil.
Uma maneira simples de diferenciar as duas especialidades é perguntar:
O tratamento do problema envolve cirurgia?
• Se sim, o especialista mais indicado geralmente é o urologista.
• Se não, ou se for uma doença clínica dos rins, o médico adequado é o nefrologista.
Além disso, o urologista também é responsável por condições do aparelho reprodutor masculino, mesmo que não exijam tratamento cirúrgico. Isso inclui distúrbios da ejaculação, infertilidade e alterações hormonais masculinas.
A relação entre nefrologia e urologia é semelhante à que existe entre outras especialidades clínicas e cirúrgicas, como:
- Cardiologista e cirurgião cardíaco.
- Neurologista e neurocirurgião.
- Angiologista e cirurgião vascular.
Apesar da sobreposição em algumas áreas — como o tratamento de cálculos renais, infecções urinárias e alterações da urina — a atuação de cada profissional tem foco e abordagens diferentes. Em muitos casos, nefrologistas e urologistas trabalham em conjunto no cuidado do mesmo paciente, cada um dentro da sua área de competência.
Vídeo
Antes de seguirmos em frente, veja esse curto vídeo de 3 minutos, produzido pela equipe do MD.Saúde, que explica de forma simples a insuficiência renal e o exame da creatinina:
Quais são as doenças que o nefrologista trata?
O nefrologista é o médico especializado no diagnóstico, tratamento e acompanhamento clínico das doenças que afetam os rins e o equilíbrio hidroeletrolítico do organismo. Sua atuação vai muito além da insuficiência renal, abrangendo um amplo espectro de distúrbios renais e sistêmicos com repercussões nos rins.
A principal condição acompanhada por esse especialista é a insuficiência renal, que pode ser classificada em duas formas:
- Insuficiência renal aguda (IRA): ocorre quando os rins perdem subitamente a capacidade de filtrar o sangue, geralmente como consequência de infecção grave, desidratação intensa, uso de medicamentos tóxicos para os rins ou obstruções urinárias.
- Insuficiência renal crônica (IRC): trata-se de uma perda progressiva e irreversível da função renal ao longo do tempo, causada principalmente por doenças como diabetes, hipertensão e glomerulopatias.
Além das insuficiências renais, o nefrologista também trata uma variedade de doenças clínicas do sistema urinário, incluindo:
- Glomerulonefrites.
- Proteinúria e hematúria persistentes, mesmo sem sintomas
- Complicações renais de doenças autoimunes.
- Hipertensão arterial.
- Infecção urinária.
- Cálculo renal de repetição (o urologista trata os cálculos; o nefrologista atua na prevenção).
- Alterações hidreletrolíticas (alterações dos sais minerais do sangue, como sódio, potássio, cálcio, fósforo, etc.).
- Distúrbios do equilíbrio ácido-básico, como alcalose ou acidose metabólica crônica.
- Doença policística renal.
- Diabetes insípidos nefrogênico.
- Lesões renais induzidas por medicamentos, contraste iodado ou toxinas.
Além disso, o nefrologista desempenha um papel central no cuidado dos pacientes que se encontram em estágio terminal da doença renal crônica, quando a função dos rins já está gravemente comprometida. Nesses casos, ele é o responsável por indicar e conduzir terapias como:
O nefrologista também acompanha os pacientes antes, durante e após o transplante renal. Embora a cirurgia seja feita pelo urologista ou cirurgião especializado em transplantes, é o nefrologista quem seleciona os candidatos ao transplante, define o esquema imunossupressor e faz o seguimento clínico a longo prazo.
Isso inclui o monitoramento de possíveis complicações do uso de imunossupressores, como infecções oportunistas, toxicidade medicamentosa e risco aumentado de neoplasias. O objetivo é manter o rim transplantado funcionando pelo maior tempo possível, com controle rigoroso da função renal e dos efeitos colaterais da medicação.
Importância do nefrologista na insuficiência renal crônica
A insuficiência renal crônica (IRC)é uma condição progressiva e silenciosa, na qual os rins perdem gradualmente a capacidade de filtrar o sangue. Essa perda funcional pode levar a sérias consequências, como acúmulo de toxinas, distúrbios hidroeletrolíticos, anemia, hipertensão e doenças cardiovasculares.
Os rins filtram cerca de 180 litros de sangue por dia, o que equivale a uma taxa de filtração glomerular (TFG) entre 90 e 125 mL/min. Na prática clínica, costuma-se considerar que uma TFG de 100 mL/min corresponde a 100% da função renal. Assim, se um paciente apresenta uma TFG de 60 mL/min, diz-se que ele tem aproximadamente 60% da função dos rins.
Essa medida permite acompanhar a evolução da função renal e classificar a gravidade da insuficiência renal crônica. Uma TFG persistentemente abaixo de 60 mL/min por mais de 3 meses já indica doença renal crônica.
Com a calculadora abaixo, você pode estimar sua taxa de filtração glomerular a partir do resultado da creatinina sanguínea:
Estimativa da Taxa de Filtração Glomerular (TFG)
CKD‑EPI (Creatinina) 2021
Observação: Esta calculadora destina‑se ao uso educacional e não substitui o julgamento clínico. Utilize valores de creatinina padronizados (IDMS) e confirme resultados discrepantes.
Por que o acompanhamento com um nefrologista é tão importante?
Apesar de a DRC ser uma das doenças centrais da especialidade, a maioria dos pacientes chega ao nefrologista tardiamente, quando a TFG já se encontra abaixo de 30 mL/min (menos de 30% da função renal). Nessa fase, as possibilidades terapêuticas são mais limitadas, e muitas vezes é necessário iniciar hemodiálise em pouco tempo.
Essa situação decorre tanto da falta de sintomas precoces da doença renal quanto da demora no encaminhamento por parte de outros profissionais de saúde. O ideal seria que os pacientes com qualquer grau de disfunção renal fossem avaliados por um nefrologista ainda nas fases iniciais da doença, o que pode trazer uma série de benefícios importantes:
Os pacientes com insuficiência renal crônica que chegam ao nefrologista precocemente, ou seja, em fases iniciais da doença, apresentam as seguintes vantagens:
- Redução da mortalidade a longo prazo
- Melhor controle da pressão arterial.
- Menos doenças associadas à falência renal, como lesões ósseas, anemia, desnutrição e doenças cardiovasculares.
- Menor perda de função renal ao longo dos anos, o que faz com que esses pacientes demorem mais tempo para atingir a insuficiência renal terminal. Muitas vezes, o paciente consegue controlar a sua doença de forma a nunca precisar da hemodiálise.
- Aqueles que acabam precisando de hemodiálise apresentam menos complicações e menor mortalidade, além de um melhor preparo e menor tempo para o transplante renal, se for este o desejo do paciente.
- Maior chance de cura, caso a causa da insuficiência renal tenha tratamento.
Quando procurar um nefrologista?
As doenças renais são, em sua maioria, silenciosas nas fases iniciais, o que significa que podem evoluir por anos sem provocar dor, alterações na urina ou qualquer outro sintoma perceptível. Justamente por isso, o diagnóstico costuma ocorrer tardiamente, muitas vezes já em estágio avançado, com perda significativa da função renal.
É comum que pacientes com insuficiência renal crônica leve ou moderada se sintam bem, urinem normalmente e não apresentem nenhum sinal externo de que os rins estão funcionando abaixo do ideal. A crença de que doença renal causa dor ou diminuição do volume de urina é equivocada. Na verdade, esses sintomas só costumam surgir nas fases terminais da insuficiência renal, quando já é necessário considerar diálise ou transplante.
Por isso, o ideal é que a avaliação nefrológica ocorra precocemente, especialmente em pessoas com fatores de risco para doença renal ou com alterações laboratoriais sugestivas de lesão renal.
Em geral, sugerimos uma avaliação por um nefrologista para todas as pessoas que apresentam as seguintes características:
- Alterações na taxa de creatinina sanguínea, que é o principal marcador da função renal.
- Urina que espuma muito ou identificação de perdas de proteínas na urina através de exames laboratoriais.
- Urina avermelhada ou identificação de sangue na urina através de exames laboratoriais.
- Infecção urinária de repetição, principalmente se forem mais de 3 episódios por ano.
- Mais de um episódio de cálculo renal durante a vida. O urologista trata os cálculos, mas é o nefrologista quem impede que novas pedras surjam.
- Edemas e inchaços sem causa aparente.
- Alterações no potássio, sódio, fósforo, ácido úrico, magnésio e cálcio sanguíneos que o clínico geral não identifique facilmente a causa.
- Alteração do metabolismo ácido-básico sem causa aparente.
- Aparecimento de múltiplos cistos renais em exames como ultrassom (ecografia), tomografia computadorizada ou ressonância magnética dos rins.
- Alterações do volume de urina sem causa aparente.
- Diabetes mellitus de longa data, principalmente se com sinais de comprometimento renal.
- Hipertensão arterial difícil de controlar, principalmente em pacientes jovens ou com histórico familiar de doença renal.
Referências
- CKD-EPI Equations for Glomerular Filtration Rate (GFR) - MDCalc.
- A New Equation to Estimate Glomerular Filtration Rate - Annals of internal medicine.
- Taal MW, et al. Section V: Disorders of Kidney Structure and Function. In: Brenner & Rector's The Kidney. 11th ed. Philadelphia, Pa.: Saunders Elsevier; 2019.
KDIGO 2012 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease - Kidney International.

Dúvidas de leitores sobre este tema
Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.
Mais comentários dos leitores
José
Tenho 77 anos
a minha creatina é 0,91
hemoglobina glicada 6.3
glicemia media estimada 134,1
microalbumina 67,3
microalbuminúria 208,5
glicose na urina 1000
com estes dados, posso encomendar o caixão?
Tenho 61 anos, desde dos 50 Anos minha creatinina vem alterada, hoje ela varia 1,5 a 1,7. Apresento bastante areia nos 2 rins e 3 cálculos em torno de 3mm. Fiz tratamento com Litocit 10 mg, sem alterações significativas no quadro. Urino normalmente, pressão normal e sem sintomas aparentes. Tenho risco para hemodiálise?
Dr. Nas ultimas análises que realisei apresento resultados eGFR-MDRD >60, correspondente a G2, ligeiramente diminuída: 60 – 89. A Creatina e eGFR-CKD-EPI 2009 apresentam valores normais. Estou a tomar o Sargenor 5 e L-Carnitina 500mg / Dia. Será que estes suplementos estão na origem?
Eu nao posso andar uns quinze minutos que urino sangue nem me esforçar um pouco estou muito preocupada um clinico geral falou que eu tenho sindrome de Berger nunca vi falar sou hipertensa e diabetica
Bom dia Dr Pedro.
Tenho rins policístico, com um dos cistos medindo 8 cm. Qual deve ser a minha maior preocupação?
Espero estar em Lisboa no ano que vem e ter a honra de me tratar com o Drº.
Grato
Gostaria de tirar uma duvida, fiz exame de creatinina e o resultado foi 1,11mg/dl. A uréia deu 20 mg/dl. Sao resultados preocupantes? Preciso procurar um especialista? Tenho 27 anos, 1m e 65cm e 59k.
Dr. Pedro,
Gostaria de agendar uma consulta. Como devo fazer?
Grata,
Sandra
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