Urina com espuma (proteinúria): causas e tratamento


Foto do autor
Revisado e atualizado em março 10, 2026
comments Created with Sketch Beta. 31 dúvidas respondidas

Urina espumosa

É comum que a urina forme alguma quantidade de espuma ao entrar em contato com a água do vaso sanitário. Porém, se você notar que a sua urina tem se tornado mais espumosa que o habitual, isso pode ser um sinal de doença nos rins.

O excesso de espuma costuma indicar perda excessiva de proteínas na urina, um indicativo importante de lesão dos glomérulos renais. Vamos explicar.

O que é proteinúria?

Uma das funções básicas dos rins é excretar na urina as substâncias do sangue que estão em excesso, que são tóxicas ou que não nos tenham utilidade. Obviamente, as proteínas não se enquadram nesta definição, não devendo, portanto, ser excretadas na urina (se você não entende bem o que é uma proteína, leia: O que são as proteínas e os aminoácidos?).

A presença de proteínas na urina costuma ser um sinal de que os glomérulos, unidades funcionais dos rins, responsáveis pela filtração do sangue, estão danificados. Quando os glomérulos estão sadios, eles são capazes de separar as substâncias do sangue que devem ser filtradas, eliminando o que não é útil na urina e mantendo o que é importante no sangue.

Quando os rins estão doentes e perdem proteínas na urina, damos o nome de proteinúria.

Como identificar proteínas na urina?

A presença de uma urina espumosa é um sinal clássico de proteinúria. Porém, não se assuste se você notar somente uma pequena quantidade de espuma ao urinar. Essa pequena espumação é normal e é provocada pelo turbilhonamento da urina ao bater na água do vaso sanitário. Se a água estiver com algum produto químico, a formação de espuma pode até ser maior do que você está habituado.

Em geral, quando há proteinúria relevante, a formação de espuma é intensa, parecendo colarinho de chope, e demora vários minutos para desaparecer. Na maioria das vezes, o paciente que perde proteínas na urina não tem dúvidas de que o padrão de espumação da sua urina se alterou recentemente.

Vaso sanitário com espuma na urina provocada por proteinúria.
Espuma na urina provocada por proteinúria

De qualquer modo, para se evitar confusões, sempre que você suspeitar que a sua urina está espumando demais, o ideal é fazer um exame de urina para tentar identificar a presença de proteínas na mesma. O exame mais simples é o EAS (também chamado, em algumas regiões, de urina tipo 1 ou urina tipo 2), que pode ser feito com apenas alguns mililitros de urina (leia: Exame de urina | Como interpretar os resultados).

Uma vez identificada a existência de proteinúria, o próximo passo é quantificá-la. Quanto maior a perda de proteínas, mais grave é a lesão dos rins.

Como quantificar a proteinúria

Saber ao certo o grau de proteinúria é importante para avaliar o grau da lesão renal e para formular as primeiras hipóteses diagnósticas, já que doenças diferentes causam graus distintos de proteinúria.

A excreção de até 150 mg por dia de proteínas é considerada normal. Destas 150 mg, no máximo 30 mg podem ser de albumina, que é o tipo de proteína mais comum no nosso sangue. As outras 120 mg de proteínas são basicamente imunoglobulinas (anticorpos) e aminoácidos. A perda de albumina na urina é chamada de albuminúria.

Portanto, estaremos diante de perdas anormais de proteínas na urina toda vez que identificarmos uma proteinúria total maior que 150 mg por dia ou uma albuminúria maior que 30 mg por dia (mesmo que a proteinúria total seja inferior a 150 mg por dia).

Existem dois exames de urina que podem quantificar a proteinúria e a albuminúria:

  • Urina de 24 horas (leia: Urina de 24 horas | Como colher e para que serve).
  • Avaliação da relação entre proteína urinária e creatinina urinária (UPCR).
  • Avaliação da relação entre albumina urinária e creatinina urinária (UACR).

A avaliação da relação entre proteína e creatinina na urina é um teste bem mais simples que a urina de 24 horas, pois só é necessária uma pequena amostra de urina para realizá-lo. No entanto, excetuando-se os nefrologistas, que são os médicos especialistas em rins, a maioria dos outros médicos só está acostumada a trabalhar com a urina de 24 horas, por isso, este acaba sendo o exame mais solicitado quando se pretende quantificar uma proteinúria (leia: O que faz o médico nefrologista?).

Valores normais de proteína na urina:

  • Urina de 24 horas: até 150 mg/24 horas.
  • Relação entre proteína urinária e creatinina urinária (UPCR): até 0,15 mg/mg.
  • Relação entre albumina urinária e creatinina urinária (UACR): até 0,03 mg/mg.

É importante frisar que, para o diagnóstico de proteinúria ser estabelecido, é preciso mais de um exame positivo em dias diferentes. Proteinúrias transitórias podem ocorrer após esforço físico intenso ou quadros febris. A proteinúria clinicamente relevante é aquela que é persistente e pode ser identificada em vários exames de urina realizados em diferentes momentos.

Graus de proteinúria

Consoante o resultado da urina de 24 horas, podemos graduar a proteinúria da seguinte forma:

  • Proteinúria total menor que 150 mg/dia e albuminúria menor que 30 mg/dia: urina normal.
  • Albuminúria entre 30 mg e 300 mg por dia: albuminúria moderadamente aumentada (antigamente chamada de microalbuminúria).
  • Proteinúria total entre 300 mg e 500 mg por dia: proteinúria discreta.
  • Proteinúria total entre 500 mg e 1000 mg por dia: proteinúria leve.
  • Proteinúria entre 1000 e 3500 mg por dia: proteinúria moderada (subnefrótica).
  • Proteinúria acima de 3500 mg por dia: proteinúria grave (proteinúria nefrótica).

Já na avaliação da relação entre proteína urinária ou albumina urinária e a creatinina urinária (UPCR), a graduação é:

  • UPCR menor que 0,15 ou UACR menor que 0,03 mg/mg: urina normal.
  • UACR entre 0,03 e 0,3 mg/mg: albuminúria moderadamente aumentada (antigamente chamada de microalbuminúria).
  • UPCR entre 0,15 e 0,5 mg/mg: proteinúria discreta.
  • UPCR entre 0,5 e 1,0 mg/mg: proteinúria leve.
  • UPCR entre 1,0 e 3,5 mg/mg: proteinúria moderada (subnefrótica).
  • UPCR maior que 3,5 mg/mg: proteinúria grave (proteinúria nefrótica).

Sintomas

Microalbuminúria ou proteinúrias discretas não costumam causar sintomas, nem mesmo aumento da espumação da urina. Ambas são sinais precoces de lesão renal e só podem ser identificadas através de exames laboratoriais.

Comparação entre urina normal e urina espumosa
Espuma na urina

Proteinúrias mais intensas, principalmente aquelas com mais de 1000 mg por dia (UPCR maior que 1,0 mg/mg), costumam provocar sinais e sintomas, como urina espumosa e edemas nas pernas. Quanto maior for o grau de proteinúria, maiores serão os edemas, podendo o paciente apresentar anasarca, um quadro de retenção de líquidos grave, com edemas generalizados, acometendo pernas, barriga, braços, face e até pulmões. Este quadro recebe o nome de síndrome nefrótica.

Pacientes com proteinúria apresentam elevado risco de evoluírem para insuficiência renal a médio/longo prazo.

Causas de proteinúria

Diversas doenças podem provocar lesão dos glomérulos e levar à proteinúria, entre elas, podemos citar:

A principal causa de proteinúria é o diabetes mellitus, motivo pelo qual todo paciente diabético deve fazer exames de urina rotineiramente. O aparecimento de uma microalbuminúria é o primeiro sinal da nefropatia diabética, importante doença renal provocada pelo excesso de glicose no organismo.

O que fazer quando se nota uma urina espumosa

O primeiro passo é procurar orientação médica para a realização de análises laboratoriais da urina. Uma vez confirmada a existência de proteinúria, o passo seguinte é identificar a causa, caso esta já não seja óbvia, como no caso de pacientes já sabidamente diabéticos.

O médico indicado para investigar uma proteinúria é o nefrologista. Em muitos casos, o diagnóstico da origem da proteinúria só é estabelecido após uma biópsia do rim.

Como tratar a urina espumosa

O tratamento definitivo da proteinúria depende da sua causa. Há casos que podem ser curados, outros não. Por exemplo, se a proteinúria estiver sendo causada por uma lesão renal provocada por uma nefropatia diabética, como ainda não existe cura para o diabetes, o máximo que podemos fazer é controlar os níveis sanguíneos de glicose para tentar retardar a progressão da doença renal. Mas, curar o rim não é possível.

Por outro lado, se a proteinúria estiver sendo causada por uma glomerulonefrite, como Nefropatia por IgA, glomerulosclerose segmentar e focal (GESF) ou nefropatia membranosa, existe a possibilidade de cura e reversão total da proteinúria. Alguns casos de nefropatia por lúpus também podem ser revertidos com tratamento.

De modo geral, independentemente da causa, todo paciente com proteinúria deve tentar controlar a pressão arterial de forma rigorosa, mantendo-a abaixo de 135/85 mmHg, e evitar ao máximo o consumo de sal. Se possível, medicamentos que reduzem parcialmente a proteinúria devem ser prescritos, entre eles: enalapril, ramipril, lisinopril, losartan, candesartana ou valsartana.

Outra medicação muito utilizada para proteger os rins de quem tem proteinúria são os inibidores dos transportadores sódio-glicose (SGLT2), como dapaglifozina ou empaglifozina.

O controle do grau de proteinúria ajuda a retardar a progressão da lesão renal, diminuindo o risco do paciente perder o funcionamento dos rins e precisar fazer hemodiálise no futuro.


Referências



Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Fabio

    Doutor,creatina ou bebida alcoólicas, podem servir de causa?obrigado

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    A creatina não provoca proteinúria. Da mesma forma, o consumo ocasional ou moderado de álcool também não costuma causar proteinúria persistente. Porém, o consumo crônico e excessivo pode afetar a função renal indiretamente, principalmente se houver outras comorbidades, como hipertensão arterial, doença cardíaca ou doenças hepáticas, podendo contribuir para alterações urinárias.

    Se você está fazendo essa pergunta porque apareceu proteinúria em um exame de urina seu, é melhor investigar outras causas que não a creatina ou o álcool, pois é pouco provável que uma delas seja a origem do problema.

  2. Anderson

    Doutor tudo bem com um simples exame de urina consigo ver se estou tendo perda de proteina. E mais uma pergunta as bolhas no vaso sanitário logo após urinar quanto tempo elas tem que desaparecer. Desde de já muito obrigado.

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    1. Sim, com um exame simples de urina é possível detectar a presença de proteínas.
    2. Não existe um tempo definido, mas, em geral, a espuma provocada pela proteinúria não dura só poucos segundos, como ocorre no simples turbilhonamento de uma urina saudável.

  3. suzy sofia

    Dr. Pedro, poderia me dizer se, mesmo sem ter pressão arterial alta nem diabetes, posso desenvolver insuficiência renal?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Sim, é possível desenvolver insuficiência renal mesmo sem ter pressão alta ou diabetes. Embora essas sejam as causas mais comuns, há outras condições que também podem levar à perda da função dos rins, como:

    — Doenças autoimunes, como lúpus ou vasculites;
    — Glomerulonefrites (inflamações nos filtros dos rins);
    — Infecções urinárias de repetição;
    — Uso prolongado de medicamentos tóxicos aos rins, como anti-inflamatórios ou certos antibióticos;
    — Doenças genéticas, como a doença renal policística;
    — Obstruções urinárias crônicas, por cálculos ou problemas na próstata.

    Por isso, mesmo sem hipertensão ou diabetes, é importante fazer exames periódicos de sangue e urina para avaliar a saúde dos rins, especialmente se houver histórico familiar ou uso frequente de medicamentos.

  4. Zeze Caldas

    Bom dia Dr. Estou preocupada. Os exames acusaram 1072 mg/24 horas. É microalbuminuria? É perigoso? Grata.

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Esse valor já não é mais considerado microalbuminuria. Isso equivale a mais de 1 grama de proteínas na urina por dia. Você precisa ser avaliada por um nefrologista.

  5. Jose Roberto

    Dr eu tomo enalapril 10mg ele pode causar espuma na urina?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Até pode, mas é muito raro. O mais comum é o oposto. O enalapril é um dos tratamentos para reduzir a perda de proteínas na urina, que é a principal causa de urina espumosa.

  6. Valdir Dias do Nascimento

    Meu marido tem diabete e observei que a urina está espumante já 3 veses hoje ele bebe cerveja que devo fazer

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Ele precisa fazer um exame de urina, tipo EAS, para investigar se ele tem realmente perda de proteínas na urina. Quando a urina está espumando, isso costuma ser um sinal de proteinúria relevante já, que é um dos marcadores de nefropatia diabética. Se quiser, esse texto explica as consequências: Tratamento da doença renal no diabetes mellitus.

  7. Lúcia

    Dr., Losartana faz mau a saúde até que ponto? Sofro de diabetes tipo 2, uso 2 tipos de insulinas . A Dra passa o glifage xr500 pra que eu tome mas eu passo muito mau com esse medicamento mas eka continua indistindo com esse medicamento. Mas NÃO estou tombando mais NÃO. Pq que não se trata dessa doença DIABETES. Tem que existir um tratamento para destruir o DIABETES.

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Losartana não faz mal de forma geral. No entanto, alguns pacientes podem desenvolver efeitos colaterais. Se você tiver perdas de proteínas na urina pela diabetes, a losartana (ou qualquer outro fármaco da classe dos ARA2 ou IECA) é importante para preservar a função renal a longo prazo.
    Em relação ao diabetes, especialmente o tipo 2, existe possibilidade de cura de alguns casos com perda peso, dieta rigorosa e exercícios físicos regulares. Nem todos conseguem se livrar do diabetes tipo 2 assim, mas é possível em muitos casos.

  8. Higo Santos

    Bom dia Dr.
    Gostaria de saber se a proteinúria pode ser reversível. Em caso positivo, em quais casos?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Sim, a proteinúria pode ser reversível, dependendo da causa. Exemplos:

    — Proteinúria transitória ou funcional: ocorre em situações como febre, exercício físico intenso, desidratação ou estresse. É benigna e reversível, desaparecendo quando o fator desencadeante é resolvido.
    — Proteinúria ortostática: acontece em pessoas jovens, geralmente ao ficarem em pé por muito tempo, e também costuma se resolver espontaneamente.
    — Proteinúria por alguns tipos de glomerulonefrite: algumas doenças dos glomérulos podem ser tratadas e a proteinúria revertida.
    — Proteinúria por doença renal: quando causada por doenças como diabetes ou hipertensão, pode ser parcial ou totalmente reversível (menos comum) se a causa for tratada precocemente e houver controle rigoroso da pressão arterial, glicemia e uso de medicamentos como inibidores da ECA ou BRA (ex: enalapril, losartana).

    Ou seja, em muitos casos, a proteinúria é reversível, mas o prognóstico depende da causa e da rapidez com que o tratamento é iniciado. É fundamental investigar com um nefrologista.

  9. Aripinto

    Bom dia, sou diabético e minha proteinuria deu um resultado de 423 mg em 24 horas. Qual o procedimento que devo tomar?
    Obrigado.

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Procurar um nefrologista para ele iniciar o tratamento de proteção renal e redução da proteinúria.

  10. Ézio Graça

    Boa tarde. Fiz exame de proteinuria 2 vezes de 24 h, deu 1200 MG.

    Estou assim há cerca de 2 anos. A creatinina fica variando de 0,8 a 1,4.

    Quando estou em hidratado a espuma na urina desaparece .Tenho 41 anos, sou homem. Os nefrologistas não conseguem saber a causa. Acredito que tenham sido excesso de chás que eu tomava no passado. Não sou diabético , nem hipertenso, nem tenho doença autoimune.Estou preocupado .

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Se toda investigação clínica não trouxe resultados, a melhor forma de saber a causa é fazendo a biópsia renal.

Envie sua dúvida sobre este artigo

Escreva uma pergunta clara, objetiva e relacionada ao tema do texto. Dúvidas que também possam ajudar outros leitores têm prioridade. Perguntas sobre casos pessoais, pedidos de diagnóstico ou orientação médica individualizada podem não ser publicadas.