Vitiligo: causas, sintomas e tratamento


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Revisado e atualizado em novembro 5, 2025
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O que é vitiligo?

O vitiligo é uma doença de origem imunológica que acomete cerca de 1% da população mundial e causa progressiva despigmentação da pele.

A doença atinge todas as etnias, mas ela é clinicamente mais evidente nas pessoas de pele mais escura, pois o contraste entre as áreas pigmentadas e não pigmentadas é maior.

O vitiligo surge por disfunção dos melanócitos, que são as células responsáveis pela produção da melanina.

O que é a melanina?

Os melanócitos são as células que produzem melanina, pigmento que dá cor à nossa pele e nos protege da radiação solar.

Quando pegamos sol ficamos com a pele mais escura devido a um aumento da produção de melanina estimulado pelos raios UV-A e UV-B. Quanto mais escura é a pele, maior é a proteção quanto aos efeitos nocivos da radiação solar.

A melanina também é responsável pela cor dos cabelos e olhos. Afrodescendentes apresentam a pele e os cabelos mais escuros porque produzem muita melanina; caucasianos têm pele e cabelos mais claros pois produzem menos melanina. Albinos têm pele e cabelos muito claros, pois não produzem melanina alguma.

Quando os melanócitos sofrem mutação e se transformam em células malignas surge o melanoma, um dos tipos mais agressivos de câncer de pele (leia: Melanoma | Câncer de pele).

Como surge

As causas do vitiligo ainda não estão bem esclarecidas. Fatores genéticos parecem ser importantes, já que 20 a 30% dos pacientes com vitiligo têm história familiar positiva para a doença.

Como surge o vitiligo
Como surge o vitiligo

Atualmente acredita-se que a doença tenha uma origem autoimune na qual há uma produção inapropriada de anticorpos e linfócitos T (um tipo de glóbulo branco) contra os melanócitos.

Se você não entende bem o conceito de doença autoimune, sugerimos a leitura do nosso texto: Doença autoimune.

Corroborando com a teoria da doença autoimune, além da produção de autoanticorpos contra os melanócitos, os pacientes com vitiligo apresentam uma incidência maior de outras doenças autoimunes, tais como:

Entretanto, é importante destacar que alguns pacientes com vitiligo não apresentam história familiar positiva nem outras doenças autoimunes associadas.

Independente da causa, o fato é que a doença surge devido à destruição dos melanócitos. Quando se realiza biópsia em uma área afetada da pele é possível verificar uma ausência destas células responsáveis pela produção de melanina, pigmento natural da pele.

Sintomas

O vitiligo pode surgir em qualquer idade, porém o seu pico de incidência ocorre durante a segunda e terceira décadas de vida.

O vitiligo vulgar é subtipo mais comum e costuma causar placas de despigmentação difusas pelo corpo. Os locais mais acometidos incluem braços, mãos, pés, joelhos, umbigo, lábios e ao redor da boca, olho, nariz e genitálias.

As lesões do vitiligo são mais aparentes em pessoas com pele mais escura e se apresentam como manchas claras, em placas, onde é muito fácil delimitar a pele sadia da pele acometida. As lesões são geralmente simétricas, acometendo o corpo bilateralmente. Em alguns casos, porém, o vitiligo pode ficar restrito a apenas uma metade do corpo.

O vitiligo também pode causar despigmentação de mucosas como gengivas e perda da cor de pelos e cabelos.

O vitiligo é uma doença progressiva que apresenta novas despigmentações ao longo do tempo. Todavia, alguns casos não evoluem e até 10% dos pacientes apresentam repigmentação espontânea das lesões.

Vitiligo nas mãos e braços
Vitiligo nas mãos e braços

É impossível saber de antemão como evoluirá o vitiligo em cada paciente individualmente. O quadro clínico é extremamente imprevisível, podendo variar desde poucas e pequenas lesões restritas a uma região até um vitiligo universal onde mais de 50% do corpo é acometido.

Tratamento do vitiligo

Medidas gerais (para todos os pacientes)

O primeiro passo do tratamento é cuidar da pele no dia a dia. Protetor solar deve ser usado sempre, porque as áreas sem pigmento queimam com facilidade. Prefira FPS 50 ou maior, com proteção “amplo espectro” — isso quer dizer que o produto protege contra UVB (queimadura) e UVA (envelhecimento e parte do dano profundo).

Aplique uma camada generosa (em média, 1 colher de chá para rosto e pescoço) 30 minutos antes de sair ao sol e reaplique a cada 2 a 3 horas ou após suor excessivo ou banho de mar/piscina. Roupas com trama fechada, chapéu de aba larga e óculos escuros também contam como proteção solar.

Para entender melhor como escolher e aplicar o protetor solar, leia também: Protetor solar: quais são as melhores opções?

Se as manchas forem discretas, maquiagens e corretivos próprios para camuflagem podem reduzir o contraste e melhorar a autoestima. Desde o início, vale conversar sobre o impacto emocional do vitiligo: os resultados costumam aparecer em meses, não em dias, e, se necessário, o suporte psicológico ajuda bastante no enfrentamento da doença.

Tratamentos tópicos (em casos de doença limitada)

Quando as manchas cobrem até cerca de 10% do corpo, os cremes e pomadas são, em geral, a primeira escolha.

  • Corticosteroides tópicos (ex.: hidrocortisona 1% ou desonida 0,05%) ajudam a frear a inflamação que “desliga” os melanócitos (as células que produzem pigmento). Funcionam melhor em manchas recentes. O médico escolhe a força do corticoide de acordo com a área (evitamos produtos muito fortes em face e dobras). Para reduzir o risco de afinamento da pele (atrofia), costuma-se usar por tempo limitado ou em esquemas intermitentes (alguns dias por semana). A melhora costuma ser avaliada após 6 a 12 semanas.
  • Inibidores de calcineurina (ex.: tacrolimo/pimecrolimo) são cremes que modulam a imunidade local sem o risco de afinamento da pele, por isso vão muito bem em pálpebras, lábios e áreas de dobra. É comum o médico indicar seu uso sozinho ou combinado com luz (fototerapia) para acelerar a repigmentação. Em geral, podem ser usados por períodos mais longos.
  • Inibidor de JAK tópico (ex.: ruxolitinibe 1,5% creme) é uma opção mais recente para vitiligo não segmentar e áreas limitadas (em torno de até 10% da pele). Ele bloqueia sinais inflamatórios (via JAK) que atrapalham os melanócitos. A aplicação costuma ser 2 vezes ao dia, e a resposta é gradual: muitas pessoas notam mudança visível após 4 a 6 meses. Se não houver progresso nesse período, o plano terapêutico deve ser reavaliado. Em alguns casos, o dermatologista associa o ruxolitinibe à luz NB-UVB para potencializar os resultados.

Em todos os tratamentos tópicos, o acompanhamento serve para ajustar dose, área e tempo de uso, checar efeitos adversos e trocar de estratégia quando necessário.

Fototerapia

A fototerapia é um tratamento com luz controlada, feito em cabine ou aparelho específico, e é o padrão quando a doença é mais extensa ou quando os cremes não bastam.

  • NB-UVB (narrowband UVB, 311–313 nm) é a modalidade mais usada hoje por combinar boa eficácia e segurança. As sessões costumam ser 2 a 3 vezes por semana, por 6 a 12 meses (algumas pessoas precisam de mais tempo). Face e tronco respondem melhor do que mãos e pés.
  • PUVA (psoraleno + UVA) foi muito popular no passado, mas hoje é menos usado porque exige sensibilização com comprimido/loção e tem mais efeitos cumulativos. Em geral, essa forma de fototerapia fica restrita a situações selecionadas, quando o NB-UVB não está disponível ou não funcionou.
  • Excimer 308 nm (luz ou “laser excimer”) foca manchas pequenas e bem delimitadas, geralmente localizadas na face, mãos ou outras áreas expostas. Costuma ser aplicado duas a três vezes por semana, frequentemente combinado com tacrolimo para acelerar a repigmentação.

Em resumo:

  • Fototerapia com NB-UVB para áreas mais amplas.
  • Fototerapia com excimer para placas pequenas.
  • Fototerapia com PUVA só em casos bem escolhidos.

Controle da atividade (mini pulso de corticoide)

Em algumas pessoas, o vitiligo entra numa fase ativa, quando aparecem manchas novas ou as antigas crescem em poucas semanas. Nessa situação, o objetivo imediato não é repigmentar, e sim frear a progressão para que os tratamentos de repigmentação funcionem melhor depois. Uma estratégia usada em centros especializados é o chamado “mini-pulso oral” de corticoide.

O mini-pulso consiste no uso de pequenas doses de corticoide por via oral em dois dias seguidos da semana (por exemplo, sábado e domingo), sem tomar nos demais dias.

Essa forma intermitente ajuda a acalmar a inflamação que ataca os melanócitos, com menor risco de efeitos colaterais do que esquemas diários contínuos. Os protocolos variam, mas são comuns doses como dexametasona 2,5 a 5 mg (dose única pela manhã) ou 4 mg/dia por 2 dias, repetidas uma vez por semana por 6 a 12 semanas, sempre com reavaliação mensal.

Em estudos e séries mais recentes, esse esquema mostrou capacidade de parar a atividade em boa parte dos pacientes e, em alguns casos, até iniciar repigmentação, especialmente quando combinado com NB-UVB depois que a doença estabiliza.

Procedimentos cirúrgicos

Quando o vitiligo está estável (sem novas manchas e sem crescimento por 6 a 12 meses) e resistente aos tratamentos clínicos, a cirurgia pode ajudar — especialmente no vitiligo segmentar.

Existem técnicas de enxerto de pele e transferência de células (como o transplante de melanócitos/queratinócitos) que recolocam células produtoras de pigmento na região. A seleção adequada do paciente e a experiência da equipe aumentam muito as chances de sucesso.

Despigmentação

Em casos raros e muito específicos, quando o vitiligo atinge a maior parte do corpo e os tratamentos de repigmentação não surtiram efeito, a despigmentação total da pele pode ser considerada como uma alternativa. Essa abordagem busca uniformizar a cor, removendo o que resta de pigmento nas áreas ainda preservadas, para que a pele fique completamente clara.

O produto utilizado nesse processo não é a hidroquinona comum, usada em cremes clareadores. A substância indicada é a monobenzona (monobenzyl ether of hydroquinone), que promove a despigmentação de forma permanente e irreversível. Isso significa que, uma vez iniciado o processo, não há como recuperar a coloração original da pele.

Essa decisão deve ser tomada com muito cuidado, pois exige um preparo emocional do paciente, consentimento bem informado e acompanhamento médico rigoroso. Após a despigmentação completa, a pele perde totalmente sua proteção natural contra os raios ultravioleta, tornando-se extremamente sensível ao sol. Por isso, o uso de protetor solar com FPS 50 ou superior, roupas protetoras e a evitação de exposição solar direta passam a ser medidas essenciais para o resto da vida.

Para algumas pessoas, principalmente quando o contraste entre áreas claras e pigmentadas causa sofrimento emocional significativo, a despigmentação pode trazer alívio. Ainda assim, essa não é uma escolha simples. Trata-se de um recurso reservado apenas para casos bem avaliados, com indicação restrita e após esgotadas todas as demais opções terapêuticas.


Referências



Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Ladijane Simião da Silva

    Como é e onde fazer a despigmentação total?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    A despigmentação total no vitiligo existe, mas é tratamento de última linha, indicado quase sempre só quando o vitiligo é muito extenso (tipo “vitiligo universal”) e a pessoa prefere igualar a cor da pele “por baixo”, em vez de tentar repigmentar. Ela costuma ser irreversível.

    1. Como é feita: o método mais usado é um creme com monobenzona (monobenzyl ether of hydroquinone) 20%, aplicado nas áreas ainda pigmentadas, de forma gradual, por semanas a meses, até uniformizar. Pode causar irritação/dermatite, resultado desigual e necessidade de fotoproteção rigorosa pelo resto da vida (a pele fica muito sensível ao sol). Em áreas pequenas resistentes, às vezes se usa laser/cripoterapia para despigmentar pontos específicos.

    2. Onde fazer: com dermatologista (idealmente com experiência em vitiligo), geralmente em serviços de dermatologia de referência/hospitais universitários. Evite fazer “por conta própria” ou em clínica estética, porque os riscos e a irreversibilidade exigem acompanhamento.

  2. Fernando

    Como saber se uma mancha clara na pele pode ser vitiligo?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Manchas de vitiligo costumam ser mais claras que o tom natural da pele, de contornos bem definidos e, em geral, sem outros sintomas como coceira, dor ou descamação. Elas aparecem com mais frequência nas mãos, braços, rosto, pés e ao redor da boca, olhos e genitais. Em pessoas de pele escura, essas manchas são mais visíveis por causa do contraste. Se você notar uma mancha que não escurece com o sol e vai aumentando com o tempo, o ideal é procurar um dermatologista para avaliação.

  3. Clara

    Vitiligo é contagioso, pode passar de uma pessoa para outra?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Não. O vitiligo não é contagioso e não pode ser transmitido de uma pessoa para outra. Trata-se de uma doença autoimune, ou seja, causada por um desequilíbrio do próprio sistema imunológico da pessoa, que passa a atacar as células produtoras de melanina (melanócitos). Portanto, não é causado por vírus, bactérias ou fungos, e não há risco de “pegar” vitiligo por contato físico, por compartilhar objetos ou por conviver com alguém que tenha a doença.

  4. Gustavo

    Olá doutor vitiligo tem cura?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    O vitiligo não tem cura definitiva, mas existe tratamento, e em muitos casos é possível recuperar parte da pigmentação da pele. Entre as opções estão pomadas com corticoides, cremes imunomoduladores como tacrolimus, fototerapia com luz UV, laser, e em casos mais extensos, até transplante de melanócitos. Em situações muito graves, com grande parte do corpo afetado, pode-se considerar a despigmentação completa com cremes específicos. Mas atenção: o acompanhamento deve sempre ser feito por um dermatologista, pois a resposta ao tratamento varia de pessoa para pessoa.

  5. Zé Rica

    Quanto tempo leva para o tratamento do vitiligo fazer efeito?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    A maioria dos tratamentos tópicos e fototerapia leva de 3 a 6 meses para mostrar os primeiros sinais de repigmentação. Em alguns casos, o tratamento precisa continuar por mais de um ano.

  6. Joel

    Obrigado pelo texto doutor Pedro. Aprendi bastante. Uma dúvida: quem tem vitiligo tem mais risco de ter câncer de pele?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    O vitiligo em si não se transforma em câncer de pele, mas as áreas despigmentadas ficam mais vulneráveis à radiação solar. Isso ocorre porque a pele afetada pelo vitiligo perde a melanina, que é o pigmento natural que ajuda a proteger contra os efeitos nocivos dos raios ultravioleta (UV). Por isso, pessoas com vitiligo devem usar protetor solar diariamente, mesmo em dias nublados, para evitar queimaduras e reduzir o risco de câncer de pele a longo prazo.

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