Antibióticos: o que é, tipos e para que serve


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Revisado e atualizado em outubro 15, 2025
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Introdução

O advento dos antibióticos no final da década de 1920 revolucionou a ciência e trouxe a medicina para a era moderna. Pela primeira vez tivemos o poder de combater e vencer bactérias causadoras de diversas infecções, a principal causa de mortalidade à época.

Os antibióticos são drogas que agem contra infecções bacterianas, não sendo efetivos contra infecções de origem viral, parasitológica ou fúngica. Para esses germes, existem drogas específicas, denominadas antivirais, antiparasitários e antifúngicos, respectivamente.

Neste artigo falaremos das principais classes de antibióticos utilizadas na prática médica. Vamos explicar como funcionam os antibióticos, que tipos de infecções são tratadas por eles, o que significa resistência ao antibiótico e quais são os efeitos colaterais mais comuns.

O que é um antibiótico?

Consideramos ser um antibiótico toda a substância capaz de matar ou inibir o crescimento de bactérias. Os antibióticos podem ser bactericidas, quando destroem diretamente as bactérias, ou bacteriostáticos, quando impedem a multiplicação das mesmas, facilitando o trabalho das nosso sistema imune no controle da infecção.

Para ser efetivo e tolerável, o antibiótico precisa ser uma substância nociva às bactérias, mas relativamente segura para as nossas células. Isso não significa que não possa haver efeitos secundários, mas por definição, um antibiótico deve ser muito mais tóxico para germes invasores do que para o organismo invadido. De nada adiantaria matar bactérias que causam a pneumonia se também estivéssemos matando as células do pulmão.

O primeiro antibiótico descoberto foi a penicilina, em 1928, pelo bacteriologista inglês, Alexander Fleming. A sua descoberta ocorreu por acaso quando suas placas de estudo com a bactéria estafilococos foram acidentalmente contaminadas por um fungo do gênero penicillium. Fleming notou que ao redor destes fungos não existiam bactérias, o que o levou a descobrir a penicilina, uma substância bactericida produzida por estes seres.

Atualmente os antibióticos são substâncias sintéticas, produzidos em laboratórios, muitos deles derivados de substâncias naturais, como no caso da penicilina.

Atenção: não confundir antibióticos com anti-inflamatórios. Leia: Diferenças entre antibiótico e anti-inflamatório.

Como um antibiótico induz resistência?

Um dos maiores problemas da medicina moderna é o uso indiscriminado dos antibióticos, o que tem levado ao surgimento de bactérias resistentes aos mesmos.

Quando os primeiros antibióticos começaram a ser comercializados, tinha-se a ideia de que as doenças infecciosas estavam com os dias contados, e que era apenas uma questão de tempo para estarmos livres de qualquer tipo de infecção bacteriana.

Porém, conforme o uso de novos antibióticos foram se tornando mais disseminados, cepas resistentes de bactérias foram surgindo e multiplicando-se, criando-se, assim, um círculo vicioso que persiste até os dias atuais. Quanto mais antibióticos criamos, mais bactérias resistentes surgem.

Mas se o antibiótico mata as bactérias, como ele induz a criação de cepas resistentes? A resistência aos antibióticos pode ser entendida através das leis da evolução e da seleção natural. Acompanhe o texto junto à ilustração abaixo.

Mecanismo de resistência aos antibióticos
Mecanismo de resistência aos antibióticos

Proponho imaginarmos uma infecção urinária causada pela bactéria E.coli. Quando há uma cistite, estamos falando de milhões de bactérias atacando a bexiga. Essas bactérias são da mesma espécie, mas não são exatamente iguais; não são clones. Quando escolhemos um antibiótico, optamos por aquele que é eficaz contra a maioria das bactérias presentes. Nem sempre o antibiótico mata 100% das bactérias. O que acontece é que se reduzirmos o número de bactérias para 5% ou 10%, a infecção desaparece porque nosso sistema imune é capaz de controlar o que sobrou.

Porém, muitas vezes o nosso organismo não consegue se livrar completamente dessas bactérias, permitindo que as mesmas se reproduzam e causem uma nova infecção, agora composta apenas por bactérias resistentes ao antibiótico escolhido inicialmente.

Este é um exemplo simplificado do que ocorre na realidade. Geralmente são necessários alguns cursos repetidos do mesmo antibiótico, ao longo de meses ou anos, para surgirem bactérias resistentes. Este processo é nada mais do que a seleção natural, na qual os mais fortes sobrevivem e passam seus genes para seus descendentes.

Algumas espécies de bactérias são propensas a criar resistência, assim como alguns antibióticos causam resistência com mais facilidade.

Alguns fatos, entretanto, favorecem o surgimento mais rápido de cepas resistentes. O principal é a interrupção precoce do tratamento. Se um antibiótico está prescrito por 10 dias, é porque se sabe de antemão que este é o tempo necessário para matar praticamente todas as bactérias. Algumas bactérias mais fracas morrem com 24 horas, outras precisam de 7 dias. Se o tratamento é interrompido com 5 dias, por exemplo, as bactérias mais resistentes, que precisavam de mais tempo de antibiótico, continuarão vivas e poderão se multiplicar, levando, agora, a uma infecção bem mais resistente.

Outro fator importante é o uso indiscriminado de antibióticos. Muitas das infecções que temos são causadas por bactérias que vivem naturalmente no nosso corpo, controladas pelo nosso sistema imune, somente à espera de uma queda nas defesas para atacarem. Se o paciente usa muito antibiótico sem necessidade, como, por exemplo, para tratar infecções por vírus, ele estará previamente selecionando as bactérias mais resistentes, e, futuramente, quando houver uma real infecção bacteriana, esta será causada já por bactérias resistentes.

Como saber qual antibiótico é o mais eficaz?

Através de estudos prévios, conhecemos antecipadamente o perfil de cada espécie de bactéria. Por exemplo, sabemos que a E.coli, bactéria que causa infecção urinária, costuma ser sensível aos antibióticos Bactrim e Ciprofloxacina. Entretanto, pacientes com quadros de infecção urinária de repetição, com múltiplos cursos de antibióticos, podem ter E.coli resistentes a estes antibióticos.

Além disso, nem toda infecção urinária é causada pela E.coli, podendo haver infecções por bactérias com perfis de sensibilidade completamente diferentes. Como saber, então, especificamente para cada caso, qual bactéria é responsável pela infecção e qual antibiótico é o mais indicado?

A única maneira de se ter certeza do perfil de sensibilidade de uma bactéria é através do exame de cultura, que pode ser uma cultura de sangue (hemocultura), de urina (urocultura), de fezes (coprocultura), etc.

Nessas análises, coletamos uma pequena quantidade de um fluido ou secreção que imaginamos conter a bactéria infectante e colocamos em um meio propício ao crescimento de bactérias. 48 a 72 horas depois, conseguimos identificar exatamente qual bactéria está presente e realizar vários testes com diversos antibióticos, procurando saber quais são eficazes e quais são ineficazes.

Esse teste é chamado de antibiograma. Todo exame de cultura apresenta, no seu resultado, o nome da bactéria identificada e uma pequena lista de antibióticos resistentes e sensíveis, para o seu médico poder escolher qual a melhor opção.

Quando o paciente se encontra grave e não pode esperar por 72 horas para iniciarmos o antibiótico, optamos inicialmente por antibióticos fortes, que cobrem um amplo espectro de bactérias, trocando-o, após os resultados das culturas, pelo antibiótico mais específico indicado pelo antibiograma.

Que tipo de infecções são tratadas com antibióticos?

Qualquer infecção bacteriana pode e deve ser tratada com antibióticos. Infecções por vírus não melhoram com antibióticos e, portanto, não devem ser tratadas com os mesmos.

Lembre-se:

  • Infecções com vírus devem ser tratadas com antivirais (quando necessário).
  • Infecções por fungos devem ser tratadas com antifúngicos.
  • Infecções por parasitas devem ser tratadas com antiparasitários.
  • Infecções por bactérias devem ser tratadas com antibióticos.

Já abordamos diversas infecções bacterianas que devem ser tratadas com antibióticos, entre elas:

Efeitos colaterais

Os efeitos colaterais mais comuns são náuseas e diarreia. Além disso, alguns pacientes apresentam reações alérgicas a determinadas classes de antibióticos, sendo as mais frequentemente envolvidas as penicilinas e as sulfas.

Grávidas devem ter muito cuidado com antibióticos, pois algumas classes estão associadas a malformações. As penicilinas e cefalosporinas são as mais seguras. Nunca tome antibióticos sem autorização explícita do seu obstetra.

Muitos antibióticos são eliminados pelos rins, por isso, podem se tornar tóxicos em pacientes com insuficiência renal, já que a sua eliminação se torna afetada. Nestes casos, muitas vezes, faz-se necessário um ajuste da dose para evitar excesso de antibióticos na corrente sanguínea.

Dose e tempo de tratamento

O tempo de tratamento e a dose dependem de dois fatores: tempo de circulação da droga no sangue e perfil de resistência da bactéria. Uma mesma infecção pode ser tratada por tempos diferentes dependendo do antibiótico prescrito.

Por exemplo, uma faringite pode ser tratada com:

Algumas infecções são facilmente tratadas com curtos cursos de um único antibiótico, como gonorreia, clamídia ou cistites. Outras, como a tuberculose, precisam de 3 antibióticos e um tratamento de pelo menos 6 meses para serem curadas.

Nas infecções mais brandas, a escolha do antibiótico é empírica, baseada no conhecimento prévio de sensibilidade. Nos casos mais graves ou nas infecções que não respondem inicialmente aos antibióticos prescritos, uma cultura de material apropriado deve ser feita para melhor guiar a escolha do antibiótico.

Antibióticos mais usados na prática clínica

Penicilinas

A penicilina foi o primeiro antibiótico desenvolvido e deu origem a vários outros estruturalmente semelhantes. Os principais antibióticos derivados da penicilina são:

  • Amoxicilina (com ou sem ácido clavulânico).
  • Ampicilina.
  • Azlocilina.
  • Benzilpenicilina benzatina.
  • Carbenicilina.
  • Cloxacilina.
  • Mezlocilina.
  • Nafcilina.
  • Penicilina.
  • Piperacilina.
  • Ticarcilina.

A penicilina em si é atualmente pouco usada, pois a maioria das bactérias já é resistente a mesma. Porém, a penicilina ainda é indicada para sífilis, amigdalites e erisipela.

É importante salientar que, apesar de serem todas da família da penicilina, o espectro de ação entre cada uma é muito diferente, sendo a piperacilina, por exemplo, usada em infecções hospitalares, enquanto a amoxicilina é geralmente indicada para infecções simples das vias aéreas.

Leia também: Alergia à penicilina

Cefalosporinas

As cefalosporinas surgiram logo depois da penicilina e apresentam mecanismo de ação muito semelhante a ela. Exemplos:

  • Cefaclor.
  • Cefadroxilo.
  • Cefazolina.
  • Cefepima.
  • Cefixime.
  • Cefoperazona.
  • Cefotaxima.
  • Cefotetan.
  • Cefoxitina.
  • Ceftarolina.
  • Ceftazidima.
  • Ceftolozano-tazobactam.
  • Ceftriaxona.
  • Cefuroxima.
  • Cefalexina.
  • Cefalotina.
  • Loracarbef.

Assim como nas penicilinas, as diferentes cefalosporinas apresentam espectro de ação muito variável, também podendo ser usadas para desde infecções graves, como meningite, até simples feridas de pele.

Quinolonas

As quinolonas são muito usadas para tratar infecções de bactérias originárias do intestino, entre elas, diarreias e infecções urinárias. As novas quinolonas também são eficazes para pneumonias.

  • Ciprofloxacina.
  • Enoxacina.
  • Levofloxacina.
  • Lomefloxacina.
  • Moxifloxacina.
  • Norfloxacina.
  • Ofloxacina.

Aminoglicosídeos

Os aminoglicosídeos são antibióticos usados na imensa maioria dos casos apenas de modo intra-hospitalar, pois são administrados por via intravenosa. São indicados para infecções graves. Existem algumas formulações para uso tópico ou como colírio.

  • Amicacina.
  • Gentamicina.
  • Canamicina.
  • Neomicina.
  • Estreptomicina.
  • Tobramicina.

Macrolídios

Os macrolídios são geralmente usados para infecções das vias respiratórias, muitas vezes em associação com alguma penicilina ou cefalosporina, para acne, clamídia ou, em muitos casos, como substituto da penicilina em pacientes alérgicos.

Tetraciclinas

As tetraciclinas são atualmente usadas para o tratamento da acne, da cólera, algumas DST, e leptospirose.

  • Doxiciclina.
  • Minociclina.
  • Tetraciclina.

Outros grupos de antibióticos

Além das classes mais conhecidas, citadas acima, existem outros antibióticos relevantes na prática clínica, muitos dos quais são reservados para infecções graves ou resistentes. Abaixo, listam-se essas drogas agrupadas por classe:

Carbapenêmicos

Potentes antibióticos de amplo espectro, frequentemente usados em infecções hospitalares graves, incluindo aquelas causadas por bactérias multirresistentes.

  • Imipenem.
  • Meropenem.
  • Ertapenem.
  • Doripenem.

Glicopeptídeos

Essenciais no tratamento de infecções por bactérias gram-positivas resistentes, como o Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA).

  • Vancomicina.
  • Teicoplanina.

Oxazolidinonas

Indicadas para infecções por bactérias gram-positivas resistentes, como MRSA e Enterococcus resistente à vancomicina (VRE).

  • Linezolida.

Lipopeptídeos

Utilizados no tratamento de infecções por gram-positivos multirresistentes, especialmente MRSA e VRE.

  • Daptomicina.

Glicilciclinas

Derivadas das tetraciclinas, têm amplo espectro e são úteis contra infecções resistentes em ambiente hospitalar.

  • Tigeciclina.

Monobactâmicos

Antibióticos beta-lactâmicos com atividade limitada a bactérias gram-negativas, incluindo Pseudomonas.

  • Aztreonam.

Lincosamidas

Eficaz contra bactérias anaeróbias e alguns cocos gram-positivos. Útil em infecções de pele e tecidos moles.

  • Clindamicina.

Antibióticos usados no tratamento da tuberculose

Empregados em esquemas combinados para tuberculose pulmonar e extrapulmonar.

  • Isoniazida.
  • Rifampicina.
  • Pirazinamida.
  • Etambutol.

Nitrofurano

Utilizado exclusivamente para infecções do trato urinário não complicadas.

Fosfomicina

Indicado principalmente para infecções urinárias agudas não complicadas.

Nitroimidazóis

Eficazes contra anaeróbios e protozoários. Muito usado em infecções intra-abdominais e ginecológicas.

Sulfonamidas

Em associação com o trimetoprim, é utilizado no tratamento de infecções urinárias, algumas infecções respiratórias, além de ser importante em pacientes imunossuprimidos.

Polimixinas

Reservadas para infecções por bactérias gram-negativas multirresistentes, como Acinetobacter, Pseudomonas e Klebsiella resistentes.

  • Polimixina B.
  • Polimixina E (colistina).

Outros antibióticos específicos

  • Fidaxomicina: antibiótico oral usado exclusivamente no tratamento da Clostridioides difficile.
  • Rifaximina: utilizado para encefalopatia hepática e algumas diarreias bacterianas.
  • Mupirocina: antibiótico tópico para infecções cutâneas e erradicação nasal de Staphylococcus aureus.

Referências



Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Ana

    Minha neta foi diagnosticada com leucocitose e o médico passou 5 injeções de Rifocin.

    Para que serve esse Rifocin e e muito grave essa patologia?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Rifocin, se não e engano, é rifampicina ou rifamicina. Mas no Brasil acho que só vende em spray. Em que país ela está?
    Esse antibiótico é geralmente usado para tratar tuberculose ou na profilaxia da meningite. Não sei que doença o médico pensou em tratar com 5 injeções da rifampicina. Não me vem nada à cabeça com essa posologia. Tem que perguntar para ele.

  2. Flora Antônio

    Quais são os antibióticos mais usados…?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Para o quê?

  3. Maria da Fonte

    Excelente informação .

    Gratidão.

  4. Jéssica

    Achei divino tudo o que eu li, consegui sanar muitas dúvidas.

  5. ROZENILDE RODRIGUES DOS SANTOS

    Qual o melhor antibiótico para tratar pneumonia generalizada por uma gripe?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Depende. Não existe um antibiótico melhor, há várias opções que devem ser avaliadas conforme o quadro clínico e o tipo de bactéria provável. Se for somente uma pneumonia viral, não é necessário antibiótico.

  6. Filipe Matos

    Qual é o antibiótico mais eficaz para dor de barriga

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    A imensa maioria dos casos de dor barriga não se trata com antibióticos. Antibiótico é para tratar infecções bacterianas.

  7. Leidiane

    Excelente artigo!

  8. Patricia

    Olá Dr. Por que o antibiótico macrodantina não estar na lista? O senhor pode me falar sobre esse medicamento?

    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Tá na lista, sim. Macrodantina é uma das marcas comerciais. O nome do antibiótico é nitrofurantoína. Temos um texto só sobre ele aqui: https://staging.mdsaude.com/bulas/macrodantina-nitrofurantoina/.

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