Pré-eclâmpsia e eclâmpsia: o que é, sintomas e tratamento


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Revisado e atualizado em abril 1, 2026
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Introdução

A pré-eclâmpsia e a eclâmpsia são complicações graves que podem ocorrer durante a gravidez, especialmente na segunda metade da gestação, geralmente após a 20ª semana. Em algumas mulheres, no entanto, esses quadros podem surgir apenas durante o trabalho de parto ou até mesmo no período pós-parto, nos primeiros dias após o nascimento do bebê.

Apesar de a maioria das gestações afetadas pela pré-eclâmpsia alcançar as 37 semanas — marco que define uma gestação a termo — essas gestantes apresentam risco aumentado de complicações, tanto maternas quanto fetais. Entre os desfechos adversos estão o parto prematuro, o sofrimento fetal, a restrição de crescimento intrauterino, o descolamento prematuro da placenta e, nos casos mais graves, a morte materna ou fetal.

Ao nível mundial, estima-se que cerca de 10% a 15% das mortes maternas relacionadas a complicações obstétricas estejam associadas à pré-eclâmpsia ou à eclâmpsia, o que ressalta sua importância como causa de morbimortalidade na gestação. A condição afeta aproximadamente 3% a 5% de todas as gestações, sendo que cerca de 75% dos casos são considerados leves e 25% evoluem para formas graves.

A pré-eclâmpsia pode surgir em qualquer momento entre a 20ª semana de gestação até alguns dias após o parto, mas a maior parte dos casos se manifesta após a 34ª semana. O diagnóstico precoce e o acompanhamento adequado são fundamentais para reduzir os riscos maternos e perinatais.

Neste artigo, explicaremos em detalhes o que são a pré-eclâmpsia e a eclâmpsia, quais são suas causas, fatores de risco, sintomas, sinais de gravidade, formas de prevenção e opções de tratamento. Também abordaremos a síndrome HELLP, a forma mais grave da doença, e as condutas atuais baseadas nas diretrizes das principais sociedades médicas internacionais.

O que é pré-eclâmpsia?

A pré-eclâmpsia é uma complicação potencialmente grave da gravidez, caracterizada pelo surgimento de hipertensão arterial após a 20ª semana de gestação, associada à proteinúria (presença de proteínas na urina) e/ou sinais de disfunção de órgãos-alvo, como rins, fígado, cérebro, pulmões e olhos.

Trata-se de uma doença exclusiva da gravidez, cuja causa ainda não é totalmente compreendida, mas está relacionada a alterações na formação da placenta e na resposta imunológica materna. A condição pode evoluir rapidamente e afetar tanto a saúde da mãe quanto do feto.

Tipos de hipertensão na gravidez

Durante a gestação, podem ocorrer diferentes formas de hipertensão arterial, cada uma com características específicas:

  1. Hipertensão crônica: a paciente já apresentava pressão arterial elevada antes da gravidez ou desenvolve a hipertensão antes da 20ª semana. A hipertensão persiste mesmo após o parto.
  2. Hipertensão gestacional: a hipertensão surge após a 20ª semana de gestação, sem presença de proteinúria ou disfunção de órgão. Em geral, desaparece após o parto.
  3. Pré-eclâmpsia: caracteriza-se por hipertensão após a 20ª semana associada a proteinúria significativa (≥ 300 mg em 24 horas) ou a sinais de disfunção de órgãos nobres (como elevação das enzimas hepáticas, queda de plaquetas, insuficiência renal ou edema pulmonar). A pré-eclâmpsia tende a regredir após o parto, mas pode se manter por dias ou semanas.
  4. Pré-eclâmpsia superposta à hipertensão crônica: ocorre em mulheres que já eram hipertensas antes da gravidez e desenvolvem proteinúria ou sinais de agravamento da pressão arterial e lesão orgânica após a 20ª semana.

Para mais informações sobre a hipertensão na gravidez, leia: Hipertensão na Gravidez: riscos e tratamento.

Quando a pressão é considerada alta na gravidez?

Durante a gestação, define-se hipertensão arterial como:

  • Pressão sistólica (máxima) ≥ 140 mmHg ou pressão diastólica (mínima) ≥ 90 mmHg

Já a hipertensão grave é caracterizada por:

  • Pressão sistólica ≥ 160 mmHg ou pressão diastólica ≥ 110 mmHg

Vale lembrar que esses valores devem ser confirmados em pelo menos duas medições com intervalo mínimo de 4 horas, em ambiente tranquilo, com a gestante em repouso.

Para saber qual é o valor de pressão arterial considerado normal, leia: Qual é a pressão arterial normal?

Como surge?

A pré-eclâmpsia é uma doença multifatorial cuja origem está relacionada principalmente a anormalidades no desenvolvimento dos vasos sanguíneos da placenta, durante as primeiras semanas da gestação, especialmente no processo de implantação do embrião no útero.

Em uma gravidez normal, as artérias do útero sofrem uma profunda remodelação para permitir um fluxo sanguíneo adequado à placenta, favorecendo o desenvolvimento do feto. Já nas gestantes que desenvolvem pré-eclâmpsia, essa remodelação vascular é incompleta ou defeituosa, o que compromete a perfusão placentária.

Essa má formação dos vasos leva a uma placenta mal irrigada, resultando em isquemia placentária (redução do fluxo de sangue e oxigênio para a placenta). Em resposta ao sofrimento, a placenta começa a liberar substâncias tóxicas na circulação materna, como:

  • Fatores antiangiogênicos, como o sFlt-1 (soluble Fms-like tyrosine kinase-1);
  • Citocinas inflamatórias e radicais livres.

Essas substâncias afetam diretamente o endotélio (camada que reveste os vasos sanguíneos), provocando disfunção endotelial generalizada, o que explica as manifestações clínicas da doença: hipertensão arterial, proteinúria, edema e lesão de múltiplos órgãos, como rins, fígado e cérebro.

A pré-eclâmpsia, portanto, não é somente uma doença da pressão arterial elevada. Trata-se de uma síndrome sistêmica, com repercussões vasculares, imunológicas, renais, hepáticas e neurológicas.

Além disso, sabe-se hoje que mulheres com pré-eclâmpsia apresentam maior risco cardiovascular a longo prazo, com predisposição a desenvolver hipertensão crônica, doença coronariana e AVC anos após a gravidez. Por isso, o acompanhamento médico após o parto também é fundamental.

Fatores de risco

A pré-eclâmpsia pode surgir em qualquer gestante, mas determinados fatores aumentam significativamente a chance de seu desenvolvimento. Esses fatores incluem condições pré-existentes, características da gravidez atual e histórico obstétrico ou familiar.

Principais fatores de risco para pré-eclâmpsia:

  • Idade materna avançada (≥ 35 ou 40 anos) ou muito jovem (< 18 anos): o risco aumenta em extremos da idade reprodutiva.
  • Histórico de pré-eclâmpsia: ter apresentado pré-eclâmpsia em gravidez anterior é um dos fatores preditores mais fortes para recorrência.
  • História familiar de pré-eclâmpsia: ter mãe ou irmã com diagnóstico da doença aumenta o risco, assim como histórico familiar na linhagem paterna (via pai do bebê).
  • Gestação múltipla: gravidezes de gêmeos, trigêmeos ou mais elevam significativamente a chance de desenvolver pré-eclâmpsia devido à maior demanda placentária.
  • Hipertensão arterial crônica: mulheres que já eram hipertensas antes da gestação têm maior risco de desenvolver a forma superposta da doença.
  • Obesidade (IMC ≥ 30 kg/m²): o excesso de peso está fortemente associado à disfunção endotelial e aumento da inflamação sistêmica.
  • Diabetes mellitus (tipo 1, tipo 2 ou gestacional): a presença de diabetes está relacionada a maior risco de complicações vasculares na gestação.
  • Doença renal crônica: mulheres com alterações na função renal têm risco elevado de desenvolver proteinúria e agravamento da pressão arterial durante a gravidez.
  • Doenças autoimunes: condições como lúpus eritematoso sistêmico e síndrome antifosfolípideo aumentam o risco de disfunção placentária.
  • Intervalo longo entre gestações: ter um intervalo de mais de 10 anos entre uma gravidez e outra pode aumentar a suscetibilidade à pré-eclâmpsia.
  • Primeira gestação (nuliparidade): o primeiro contato imunológico com o material genético paterno pode desencadear maior resposta inflamatória.
  • Concepção por fertilização in vitro (FIV): a gravidez assistida está associada a maior risco, possivelmente por características imunológicas e vasculares do embrião implantado.

Observações adicionais:

  • A presença de dois ou mais desses fatores de risco já é suficiente para indicar, em muitos casos, a profilaxia com aspirina em baixa dose, iniciada entre 12 e 16 semanas (detalhes adiante no tópico “Prevenção”).
  • A identificação precoce dos fatores de risco permite um pré-natal mais atento e individualizado, com maior vigilância clínica e laboratorial.

Sintomas

A pré-eclâmpsia pode se apresentar de forma silenciosa ou com sintomas discretos nas fases iniciais, especialmente nos casos leves. Por isso, o diagnóstico muitas vezes depende de um acompanhamento pré-natal cuidadoso, com aferição regular da pressão arterial e exames laboratoriais de sangue e urina.

Pré-eclâmpsia leve

Na maioria dos casos, a pré-eclâmpsia leve não provoca sintomas evidentes. Os sinais iniciais mais comuns incluem:

  • Aumento da pressão arterial após a 20ª semana de gestação — geralmente a primeira alteração detectada.
  • Proteinúria, detectada em exames de urina (≥ 300 mg em 24 horas ou relação proteína/creatinina ≥ 0,3 mg/mg).
  • Inchaços (edema) — especialmente nas pernas, mãos e rosto. Embora o edema seja comum na gravidez normal, o surgimento rápido, acentuado e generalizado pode sugerir complicação.
  • Urina espumosa — pode indicar perda significativa de proteínas pela urina.

Importante destacar que pequenas perdas proteicas na urina (menores que 300–500 mg por dia) não costumam alterar o aspecto da urina de forma visível.

Impactos no feto

Além dos efeitos sobre a saúde materna, a pré-eclâmpsia pode comprometer o desenvolvimento fetal. Entre as possíveis complicações estão:

  • Restrição do crescimento intrauterino (RCIU).
  • Redução do líquido amniótico (oligoidrâmnio).
  • Descolamento prematuro da placenta (DPP).
  • Sofrimento fetal agudo;
  • Parto prematuro espontâneo ou induzido por risco materno.

Essas complicações são mais frequentes nas formas graves ou quando a doença se manifesta precocemente, antes da 34ª semana.

Sinais de gravidade

Aproximadamente 25% das gestantes com pré-eclâmpsia evoluem para a forma grave da doença, que representa uma emergência obstétrica e exige avaliação e intervenção médica imediata.

A pré-eclâmpsia grave é definida pela presença de hipertensão arterial severa e/ou disfunção significativa de órgãos-alvo, mesmo na ausência de proteinúria. Segundo os critérios do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG), os sinais e sintomas abaixo indicam gravidade:

Critérios de hipertensão grave

  • Pressão arterial sistólica ≥ 160 mmHg e/ou pressão arterial diastólica ≥ 110 mmHg (confirmados em duas ocasiões, com intervalo de pelo menos 4 horas, em repouso).

Outros sinais de alarme clínico

  • Cefaleia persistente ou intensa, que não melhora com analgésicos comuns.
  • Alterações visuais como visão borrada, fotofobia, pontos brilhantes (escotomas cintilantes) ou flashes de luz.
  • Dor abdominal intensa, principalmente no quadrante superior direito ou região epigástrica, sugerindo sofrimento hepático.
  • Alterações neurológicas: confusão mental, sonolência excessiva, irritabilidade ou agitação.
  • Falta de ar ou dificuldade respiratória, que pode indicar edema pulmonar.
  • Náuseas e vômitos persistentes sem outra causa aparente.
  • Diminuição da diurese (oligúria) — sinal de comprometimento renal.
  • Sinais laboratoriais de disfunção orgânica (queda de plaquetas, elevação de creatinina, alterações hepáticas).

Esses sinais indicam maior risco de evolução para síndrome HELLP, eclâmpsia, insuficiência de múltiplos órgãos ou descolamento prematuro da placenta, colocando em risco a vida da gestante e do feto.

Conduta recomendada

Toda gestante com sinais de pré-eclâmpsia grave deve ser encaminhada imediatamente para avaliação hospitalar. Na maioria dos casos, a internação é necessária para:

  • Monitoramento materno e fetal intensivo;
  • Início de medicações específicas;
  • Avaliação da necessidade de interrupção da gestação, dependendo da idade gestacional e da estabilidade clínica da paciente.

Critérios para o diagnóstico de pré-eclâmpsia

Segundo o ACOG (American College of Obstetricians and Gynecologists), o diagnóstico de pré-eclâmpsia deve ser considerado em mulheres previamente normotensas que, após a 20ª semana de gestação, apresentem:

1. Pressão arterial sistólica ≥ 140 mmHg e/ou diastólica ≥ 90 mmHg, em pelo menos duas medições separadas por um intervalo mínimo de 4 horas.

E pelo menos uma das duas alterações abaixo:

2. Proteinúria significativa, que pode ser identificada como:

  • 300 mg de proteínas em urina de 24 horas.
  • Relação proteína/creatinina ≥ 0,3 mg/mg em amostra única de urina.
  • EAS com fita reagente com resultado de +1 ou mais (quando métodos quantitativos não estiverem disponíveis).

Importante: a presença de proteinúria não é mais obrigatória se houver sinais evidentes de disfunção de órgãos-alvo, como os descritos a seguir.

3. Algum sinal de disfunção orgânica materna, tais como:

  • Trombocitopenia: contagem de plaquetas < 100.000/µL.
  • Disfunção renal: creatinina sérica > 1,1 mg/dL ou aumento duas vezes acima do valor basal, na ausência de doença renal prévia.
  • Alterações hepáticas: transaminases (TGO/AST e TGP/ALT) ≥ 2 vezes o limite superior da normalidade.
  • Edema pulmonar.
  • Sintomas neurológicos persistentes e inexplicados: como cefaleia intensa resistente a analgésicos comuns ou alterações visuais (escotomas, flashes, visão embaçada).

Esses critérios permitem o diagnóstico mesmo na ausência de proteinúria, desde que haja evidência objetiva de lesão de órgão-alvo. Isso é particularmente importante para identificar formas atípicas ou precoces da doença.

Dica para gestantes: a pré-eclâmpsia pode ser silenciosa no início. Compare sua pressão regularmente e comunique qualquer sintoma novo ao seu obstetra.

Exames laboratoriais modernos para auxiliar no diagnóstico da pré-eclâmpsia

Embora o diagnóstico da pré-eclâmpsia seja tradicionalmente clínico e baseado na presença de hipertensão e disfunção de órgãos-alvo, avanços recentes na medicina laboratorial possibilitam a utilização de biomarcadores placentários para auxiliar na diferenciação entre pré-eclâmpsia e outras causas de hipertensão na gravidez.

Essa abordagem é especialmente útil em casos atípicos, como:

  • Hipertensão sem proteinúria ou sem disfunção orgânica evidente.
  • Quadro sugestivo de pré-eclâmpsia precoce, mas com exames laboratoriais inconclusivos.
  • Dúvida diagnóstica em gestantes com doença renal crônica ou lúpus.
  • Avaliação de risco em gestantes com sintomas inespecíficos no segundo trimestre.

sFlt-1 e PlGF: os principais biomarcadores

O sFlt-1 (soluble fms-like tyrosine kinase-1) e o PlGF (placental growth factor) são dois marcadores liberados pela placenta. Na pré-eclâmpsia, o sFlt-1 aumenta e o PlGF diminui, refletindo um desequilíbrio angiogênico que contribui para a disfunção endotelial característica da doença.

A razão sFlt-1/PlGF é hoje considerada o exame mais promissor para:

  • Apoiar o diagnóstico da pré-eclâmpsia em casos incertos.
  • Prever risco de desenvolvimento da doença nas semanas seguintes.
  • Evitar partos prematuros desnecessários por falso diagnóstico de pré-eclâmpsia.

Interpretação (valores aproximados para gestantes com menos de 34 semanas):

  • Razão < 38: baixa probabilidade de pré-eclâmpsia no curto prazo (alto valor preditivo negativo).
  • Razão > 85: sugestivo de pré-eclâmpsia em evolução.

A razão sFlt-1/PlGF é especialmente útil para excluir o diagnóstico nas pacientes de alto risco, reduzindo intervenções desnecessárias e internações prolongadas.

Limitações

Apesar de seu potencial, os exames sFlt-1/PlGF ainda não estão amplamente disponíveis no sistema público de saúde no Brasil, sendo mais utilizados em centros de referência ou na pesquisa clínica. Seu custo também pode limitar o uso na prática diária.

Síndrome HELLP

A síndrome HELLP é considerada a forma mais grave e potencialmente letal da pré-eclâmpsia. Trata-se de uma condição obstétrica de emergência, que pode evoluir rapidamente com risco elevado para mãe e bebê, especialmente quando não diagnosticada precocemente.

O nome HELLP é um acrônimo em inglês que representa três principais alterações laboratoriais:

  • Hemolysis (hemólise).
  • ELevated Liver Enzymes (elevação das enzimas hepáticas).
  • LPLow Platelets (plaquetas baixas).

O que significam essas alterações?

  1. Hemólise: refere-se à destruição anormal dos glóbulos vermelhos, o que pode causar anemia hemolítica e aumento de bilirrubinas.
  2. Elevação das enzimas hepáticas (AST e ALT): indica sofrimento ou lesão hepática, geralmente secundária à inflamação vascular no fígado.
  3. Plaquetopenia (plaquetas < 100.000/µL): a redução das plaquetas aumenta o risco de sangramentos e pode ser indício de coagulação intravascular disseminada (CIVD) em casos extremos.

Além dessas alterações, a síndrome HELLP geralmente cursa com outros sintomas característicos da pré-eclâmpsia grave, como:

  • Dor abdominal intensa, principalmente no quadrante superior direito (região do fígado).
  • Náuseas e vômitos persistentes.
  • Cefaleia e visão borrada.
  • Hipertensão arterial severa.
  • Sinais de confusão mental ou sonolência excessiva.
  • Sinais laboratoriais de disfunção renal (ex: aumento de creatinina).

Diagnóstico da síndrome HELLP

O diagnóstico é feito por meio de exames laboratoriais, sendo essencial para a conduta obstétrica adequada. Os principais critérios laboratoriais incluem:

  • LDH (lactato desidrogenase) > 600 U/L (indicativo de hemólise).
  • AST ou ALT > 70 U/L (pode variar conforme o laboratório).
  • Plaquetas < 100.000/µL.

Existem formas incompletas ou parciais da síndrome HELLP, que podem apresentar apenas dois dos três critérios — essas variantes também exigem atenção médica urgente.

Riscos associados

A síndrome HELLP aumenta o risco de várias complicações graves:

  • Descolamento prematuro da placenta.
  • Coagulação intravascular disseminada (CIVD).
  • Hematoma hepático ou ruptura do fígado (condição rara, mas fatal).
  • Insuficiência renal aguda.
  • Eclâmpsia (convulsões).
  • Óbito materno e fetal.

Relação com a eclâmpsia

É comum que a síndrome HELLP venha acompanhada de manifestações neurológicas, como cefaleia intensa, visão turva ou convulsões. Quando há crise convulsiva, o quadro é classificado como eclâmpsia, o grau máximo de gravidade do espectro hipertensivo da gravidez.

O que é a eclâmpsia?

A eclâmpsia é o estágio mais grave do espectro das doenças hipertensivas da gestação. Caracteriza-se pela ocorrência de crises convulsivas em mulheres com pré-eclâmpsia já estabelecida, sem outra causa neurológica identificável.

A eclâmpsia é uma condição rara, mas extremamente perigosa, que requer intervenção médica imediata para proteger a vida da mãe e do bebê. Quando não tratada de forma adequada, a eclâmpsia pode evoluir para coma, AVC, insuficiência respiratória, falência de múltiplos órgãos e óbito.

Como se caracteriza a eclâmpsia?

A definição clássica da eclâmpsia é: presença de uma ou mais crises convulsivas tônico-clônicas generalizadas em uma gestante com diagnóstico de pré-eclâmpsia, sem evidência de epilepsia ou outra patologia neurológica de base.

As crises geralmente duram cerca de 60 segundos e podem ser precedidas por sinais de alerta como:

  • Cefaleia intensa e persistente.
  • Distúrbios visuais (flashes, visão borrada, escotomas).
  • Dor epigástrica ou no hipocôndrio direito.
  • Confusão mental ou irritabilidade.

Importante: até 1/3 das mulheres com eclâmpsia não apresentam sintomas premonitórios, o que torna o acompanhamento rigoroso essencial, mesmo em casos aparentemente leves de pré-eclâmpsia.

Eclâmpsia não é apenas a “evolução” da pré-eclâmpsia

Apesar dos nomes semelhantes, pré-eclâmpsia e eclâmpsia não representam uma progressão inevitável. A maioria das mulheres com pré-eclâmpsia grave não evolui para eclâmpsia. Por outro lado, crises convulsivas também podem ocorrer em pacientes com pré-eclâmpsia leve, embora seja raro.

Ou seja, a eclâmpsia não depende apenas da intensidade da hipertensão ou da presença de proteinúria — envolve uma resposta neurológica imprevisível a alterações vasculares e inflamatórias.

Quando a eclâmpsia pode ocorrer?

  • Antes do parto: em cerca de 50% dos casos.
  • Durante o parto: aproximadamente 20%.
  • Após o parto (puerpério): em até 30% dos casos, especialmente nas primeiras 48 horas.

Por isso, mesmo após o nascimento do bebê, mulheres com pré-eclâmpsia devem ser cuidadosamente monitoradas por pelo menos 72 horas, devido ao risco de eclâmpsia tardia.

Prevenção da pré-eclâmpsia

Embora não exista uma forma de prevenir completamente a pré-eclâmpsia, é possível reduzir significativamente o risco de sua ocorrência e das complicações associadas por meio de medidas preventivas, especialmente em gestantes com fatores de risco conhecidos.

Uso de aspirina em baixa dose

Diversos estudos clínicos demonstraram que o uso de aspirina em baixa dose durante a gestação pode diminuir a incidência de pré-eclâmpsia, assim como os desfechos adversos relacionados à doença, como parto prematuro e restrição do crescimento fetal.

Recomendações atuais:

  • Dose indicada: 81 mg por dia (em alguns países, usa-se até 150 mg), conforme prescrição médica.
  • Início: entre 12 e 16 semanas de gestação, preferencialmente o mais precocemente possível dentro dessa janela.
  • Término: geralmente até 36 semanas, salvo recomendação médica específica.

Quem deve tomar aspirina preventiva?

Segundo o ACOG e a USPSTF (United States Preventive Services Task Force), a aspirina deve ser indicada para gestantes com alto risco de desenvolver pré-eclâmpsia, e pode ser considerada para aquelas com dois ou mais fatores de risco moderado.

Indicada para mulheres com risco elevado:

  • Pré-eclâmpsia em gestação anterior.
  • Gestação múltipla (gêmeos, trigêmeos).
  • Doença renal crônica.
  • Doença autoimune (lúpus, síndrome antifosfolípideo).
  • Hipertensão arterial crônica.
  • Diabetes tipo 1 ou tipo 2.

Considerar em casos com dois ou mais dos fatores abaixo:

  • Nuliparidade (primeira gestação).
  • Obesidade (IMC ≥ 30 kg/m²).
  • História familiar de pré-eclâmpsia (mãe ou irmã).
  • Idade materna avançada (≥ 35 anos).
  • Intervalo ≥ 10 anos entre gestações.
  • Fertilização in vitro (FIV).
  • Complicações em gestação anterior (restrição de crescimento, natimorto, parto pré-termo).

Importante: A aspirina preventiva deve ser prescrita e monitorada pelo obstetra. Não deve ser usada de forma indiscriminada, pois pode trazer riscos em algumas situações.

Outras medidas preventivas

Embora a aspirina seja a principal estratégia de prevenção com evidência robusta, outras condutas podem contribuir para o acompanhamento adequado:

  • Pré-natal precoce e regular, com identificação dos fatores de risco desde o início.
  • Controle do peso corporal, especialmente em mulheres com sobrepeso ou obesidade.
  • Tratamento adequado da hipertensão crônica e diabetes, antes e durante a gestação.
  • Suplementação com cálcio, em populações com ingestão dietética muito baixa, pode ter benefício, segundo a OMS.

Tratamento

O tratamento da pré-eclâmpsia e da eclâmpsia depende de diversos fatores, incluindo a gravidade do quadro, a idade gestacional, a condição clínica da mãe e o bem-estar fetal. O objetivo principal é preservar a vida da mãe e, sempre que possível, prolongar a gestação com segurança até um ponto viável para o bebê.

Tratamento da pré-eclâmpsia

Nos casos de pré-eclâmpsia leve e com idade gestacional inferior a 37 semanas, é possível adotar uma conduta expectante, com monitoramento clínico e laboratorial rigoroso. A gestante deve ser acompanhada de perto, muitas vezes com internação hospitalar, para avaliação frequente da pressão arterial, da função renal e hepática, da presença de proteinúria e do bem-estar fetal por meio de ultrassonografias e cardiotocografias seriadas.

O objetivo é tentar prolongar a gestação com segurança até que o bebê esteja mais próximo da maturidade pulmonar, desde que não haja sinais de agravamento.

Quando a idade gestacional é igual ou superior a 37 semanas, a interrupção da gestação costuma ser indicada mesmo em casos leves, pois o risco de evolução para formas graves aumenta com a progressão da gravidez. O tipo de parto — vaginal ou cesárea — será determinado pela situação clínica e obstétrica.

Nos casos de pré-eclâmpsia grave, com pressão arterial severamente elevada (≥ 160/110 mmHg), sintomas neurológicos, alterações hepáticas ou renais, ou sinais de sofrimento fetal, a interrupção da gestação é geralmente indicada independentemente da idade gestacional, após estabilização materna.

Antes disso, é fundamental controlar a pressão arterial com medicamentos seguros para uso na gestação, como metildopa, labetalol, hidralazina ou nifedipina, conforme orientação médica.

Medicamentos anti-hipertensivos comuns, como enalapril, ramipril, lisinopril, losartana, telmisartana, etc., são contraindicados durante a gravidez.

Quando o parto precisa ser antecipado entre 24 e 34 semanas, o uso de corticoides (betametasona ou dexametasona) é indicado para acelerar a maturação dos pulmões do feto. Em alguns casos, os corticoides também ajudam temporariamente a estabilizar alterações laboratoriais da síndrome HELLP.

Tratamento da eclâmpsia

A eclâmpsia é uma emergência obstétrica e requer tratamento imediato. A crise convulsiva deve ser controlada com sulfato de magnésio, que é a medicação de escolha tanto para interromper a convulsão quanto para prevenir novos episódios. O esquema terapêutico inclui uma dose de ataque e, em seguida, doses de manutenção, sob monitoramento cuidadoso dos reflexos, da respiração e da função renal, para evitar toxicidade.

Após a estabilização da paciente, o parto deve ser realizado o mais breve possível, pois a permanência da placenta mantém o estímulo que desencadeia o quadro. A via de parto depende das condições maternas e fetais. Se a paciente estiver em trabalho de parto avançado e estável, o parto vaginal pode ser possível. No entanto, na maioria dos casos, especialmente quando há instabilidade clínica, opta-se pela cesariana de urgência, mesmo em idades gestacionais precoces.

Além do sulfato de magnésio, a pressão arterial deve ser controlada com medicamentos de ação rápida, como labetalol, hidralazina ou nifedipina. Após o parto, a paciente deve permanecer sob vigilância intensiva por pelo menos 48 a 72 horas, pois crises de eclâmpsia podem ocorrer no puerpério imediato.

Perguntas frequentes sobre pré-eclâmpsia (FAQ)

Pré-eclâmpsia tem cura?

Sim. A única cura definitiva da pré-eclâmpsia é o parto, pois a retirada da placenta interrompe os mecanismos que causam a doença. No entanto, os sintomas podem persistir por alguns dias ou semanas após o parto, exigindo acompanhamento contínuo.

Toda mulher com pré-eclâmpsia vai ter eclâmpsia?

Não. A maioria das mulheres com pré-eclâmpsia, mesmo em formas graves, não desenvolve eclâmpsia. As convulsões ocorrem em uma minoria dos casos, mas são imprevisíveis. Por isso, o controle rigoroso da pressão e o uso de sulfato de magnésio são medidas importantes para prevenção.

É possível evitar a pré-eclâmpsia?

Embora não haja prevenção absoluta, o uso de aspirina em baixa dose, iniciado no primeiro trimestre em mulheres com fatores de risco, pode reduzir significativamente a chance de desenvolver a doença. Manter o pré-natal em dia e controlar condições pré-existentes também ajuda na prevenção.

Quem já teve pré-eclâmpsia pode ter novamente em outra gravidez?

Sim. Mulheres que tiveram pré-eclâmpsia anteriormente apresentam um risco maior de recorrência, principalmente se a doença foi precoce ou grave. Porém, com acompanhamento adequado e uso de aspirina preventiva, é possível reduzir bastante esse risco.

Pré-eclâmpsia pode acontecer após o parto?

Sim. A chamada pré-eclâmpsia pós-parto pode ocorrer nas primeiras 48 a 72 horas, e até mesmo após uma semana em casos raros. Por isso, sintomas como dor de cabeça, visão turva, pressão alta ou inchaços anormais no puerpério devem ser investigados imediatamente.

É possível ter pré-eclâmpsia com a pressão normal?

Sim, embora raro, é possível que a pré-eclâmpsia se manifeste sem elevação significativa da pressão arterial, especialmente nos casos iniciais ou nas formas atípicas da doença.

Nessas situações, o diagnóstico pode ser feito com base em outros sinais de disfunção orgânica, como:

— Proteinúria importante.
— Alterações laboratoriais (enzimas hepáticas elevadas, plaquetopenia).
— Síndrome HELLP.
— Sintomas neurológicos (cefaleia intensa, visão borrada).
— Edema pulmonar.

Por isso, mesmo gestantes com pressão aparentemente normal devem ser avaliadas com atenção se apresentarem sintomas sugestivos ou alterações nos exames de sangue e urina.


book Referências bibliográficas


Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Justina João

    Muito obrigado Dr. Pedro Pinheiro, sou de Angola, Parteira Especializada e amei está materia.

  2. Rostalina

    Posso tomar aspirina com 14 a 15 semanas para prevenir pre-eclampsia

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Só com autorização do obstetra.

  3. Roberta Campos

    Tive pressão alta durante a minha gravidez, mas não sei se tive perdas de proteínas na urina. Posso ter tido pré-eclâmpsia?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Se o seu obstetra não disse nada, é pouco provável. Você deve ter tido somente hipertensão gestacional simples.

  4. Mary

    Boa tarde, Dr. Pedro. Sou obesa e hipertensa, se emagrecer corro menos risco de ter pré-eclampsia?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Sim, mulheres com sobrepeso ou obesidade precisam emagrecer para reduzir o risco de terem pré-eclâmpsia. Ajuda bastante.

  5. Mariana

    Boa noite tive pré eclampia grave na minha primeira gestação. Meu BB nasceu com 33 semanas. Se engravidar novamente pode ocorrer de novo Ou pode ser pior????
    Queremos ter outro BB mais o receio é grande.

    Pedro Pinheiro Autor

    Quem já teve um episódio de pré-eclâmpsia tem elevado risco de ter outro.

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