Cistite de repetição: por que a infecção urinária volta e como prevenir


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Revisado e atualizado em março 29, 2026
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Resumo rápido sobre cistite de repetição

A infecção urinária de repetição, também chamada de infecção urinária recorrente, é definida pela ocorrência de 2 ou mais episódios em 6 meses ou 3 ou mais em 12 meses. Na maioria dos casos em mulheres, isso corresponde a episódios repetidos de cistite, que é a infecção da bexiga. Já a infecção dos rins, chamada pielonefrite, é bem menos comum como forma recorrente.

Nas mulheres, a cistite de repetição é relativamente comum e nem sempre significa que exista uma malformação ou outra alteração estrutural do trato urinário. Em muitos casos, há uma combinação de predisposição individual com fatores que favorecem a recorrência, como relação sexual, uso de espermicidas, menopausa e diabetes. Nos homens, por outro lado, a infecção urinária recorrente é incomum e geralmente exige uma investigação mais detalhada.

O tratamento não se resume ao uso de antibióticos durante as crises. Sempre que possível, o primeiro passo é identificar e corrigir fatores que favorecem novos episódios. Quando as infecções são muito frequentes ou têm relação clara com a atividade sexual, o médico pode indicar estratégias preventivas específicas para reduzir o risco de recorrência.

O que é infecção urinária de repetição?

Considera-se que uma paciente apresenta infecção urinária de repetição quando ocorrem dois ou mais episódios de infecção em um período de seis meses, ou três ou mais episódios ao longo de um ano.

A infecção do trato urinário (ITU) é habitualmente dividida em dois tipos:

  • Cistite: é a infecção da bexiga. Seus sintomas mais comuns incluem: dor para urinar (disúria), vontade de urinar a toda hora (polaciúria), sangue na urina (hematúria), dor no baixo ventre e sensação de esvaziamento incompleto da urina.
  • Pielonefrite: é a infecção de um ou ambos os rins. A pielonefrite é um quadro bem mais grave que a cistite. Seus sintomas incluem febre alta, dor lombar, fraqueza, náuseas e vômitos. Se não for tratada adequadamente, ela pode ser fatal.

A imensa maioria dos casos de infecção urinária de repetição são, na verdade, quadros de cistite de repetição. Pielonefrite recorrente em mulheres saudáveis é uma situação rara.

Quase metade das mulheres (44%) que apresenta um quadro de cistite acaba tendo uma recorrência dentro de um ano. Em 25% dos casos, a recorrência ocorre dentro de 6 meses.

Por que a infecção urinária volta?

As bactérias que causam a cistite não vivem no trato urinário; elas são enterobactérias que vivem no trato gastrointestinal e na região ao redor do ânus. A infecção urinária surge quando essas bactérias migram da região perianal e colonizam a região ao redor da uretra.

Como a uretra feminina é curta e fica próxima do ânus, esse trajeto é mais fácil nas mulheres, o que ajuda a explicar por que a recorrência é tão comum nesse grupo.

Proximidade da uretra ao ânus em homens e mulheres explica a maior incidência de infecção urinária no sexo feminino.
A proximidade da uretra ao ânus nas mulheres explica a maior incidência de infecção urinária.

Mulheres que apresentam infecção urinária de repetição têm sua região periuretral mais susceptível à colonização por enterobactérias, principalmente pela Escherichia coli. Essa predisposição parece ter origem genética. As bactérias causadoras de infecção urinária têm mais facilidade de se aderir às células da uretra dessas pacientes do que da população em geral.

É muito comum que uma mulher com infecção urinária de repetição tenha uma mãe, avó ou tia com o mesmo problema.

Vários fatores do dia a dia podem facilitar novas infecções. Os mais bem estabelecidos são atividade sexual, uso de espermicidas e, em algumas mulheres, relação com um novo parceiro sexual. Após a menopausa, a queda do estrogênio favorece alterações na flora vaginal e aumenta a vulnerabilidade a novas crises. Em mulheres mais velhas, retenção urinária e esvaziamento incompleto da bexiga também passam a ter mais importância. Diabetes mellitus e outras condições que dificultam as defesas locais ou o esvaziamento urinário também podem contribuir.

Em resumo, a infecção urinária volta não por um único motivo, mas pela combinação entre predisposição individual e fatores que facilitam a entrada e a permanência de bactérias na bexiga. É justamente por isso que a prevenção precisa ser individualizada: em algumas pacientes, bastam medidas comportamentais; em outras, é preciso investigar fatores associados ou considerar estratégias preventivas específicas.

Existem também os casos de infecção urinária de repetição que costumam surgir somente após uma relação sexual. Nestes casos, chamados de cistite pós-coito ou cistite da lua-de-mel, as mulheres desenvolvem os sintomas de ITU 24 a 48 horas após uma relação sexual.

Cistite pós coito
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Cistite da lua-de-mel

Quando é preciso investigar melhor

Nem toda mulher com infecção urinária de repetição precisa de uma investigação extensa logo no início. Em muitos casos, trata-se apenas de cistite recorrente em pacientes saudáveis, sem alterações anatômicas relevantes. Ainda assim, a avaliação médica é importante para confirmar o diagnóstico, identificar fatores de risco e definir a melhor estratégia de prevenção.

A investigação costuma ser mais importante quando as infecções são atípicas, muito frequentes, surgem com febre, dor lombar, náuseas ou vômitos, ou quando há suspeita de que o quadro não seja apenas uma cistite simples de repetição. Esses sinais podem sugerir infecção mais alta, como pielonefrite, ou a presença de algum fator predisponente que precise ser identificado.

Nos homens, a infecção urinária recorrente merece sempre mais atenção, porque esse quadro é incomum e pode estar relacionado a alterações da próstata, obstruções urinárias, estreitamentos da uretra, cálculos ou outras alterações estruturais das vias urinárias.

Também é importante investigar com mais cuidado quando há dificuldade para esvaziar a bexiga, sensação persistente de urina parada, sangue na urina fora dos episódios de infecção, cálculos urinários, infecções por germes pouco usuais ou falha repetida do tratamento habitual. Nesses casos, o objetivo não é apenas tratar a infecção atual, mas procurar a causa que está favorecendo as recorrências.

Como prevenir a cistite

Se a mulher com infecção urinária recorrente tiver algum fator de risco que possa ser modificado, esse deve ser o primeiro passo na estratégia de prevenção.

Aprender a se limpar corretamente após a evacuação, evitar ducha vaginal, evitar espermicidas, urinar imediatamente após uma relação sexual, evitar o uso de produtos químicos para higiene íntima ou utilizar cremes vaginais à base de estrogênio após a menopausa são algumas das medidas que podem ser instituídas.

Entretanto, muitas mulheres têm ITU de repetição e não conseguem identificar nenhum fator de risco modificável. Esses são os casos nos quais devemos avaliar a instituição de antibióticos profiláticos.

Prevenção ITU
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Quando os antibióticos preventivos podem ser indicados?

A profilaxia com antibióticos pode ser considerada quando as infecções continuam voltando apesar da correção dos fatores de risco e das medidas preventivas mais simples. Antes de iniciar esse tipo de tratamento, é importante confirmar que os episódios são realmente quadros de cistite de repetição e levar em conta as uroculturas anteriores, principalmente para identificar a bactéria envolvida e o perfil de sensibilidade aos antibióticos.

Os antibióticos preventivos não devem ser a primeira medida para todas as pacientes. Embora possam reduzir de forma importante o número de recorrências, o uso prolongado também pode causar efeitos colaterais e favorecer resistência bacteriana. Por isso, a decisão deve ser individualizada e reavaliada periodicamente.

Existem duas estratégias principais de profilaxia antibiótica: a dose única após cada relação sexual, quando os episódios têm relação clara com o coito, e o uso contínuo em baixa dose, quando as crises são frequentes e não apresentam um gatilho tão bem definido.

Antibióticos pós-coito

A profilaxia pós-coito costuma ser uma boa opção para mulheres cujas infecções urinárias surgem repetidamente nas 24 a 48 horas após a relação sexual. Nesses casos, a paciente usa uma dose única do antibiótico prescrito logo após a relação.

Essa estratégia costuma expor a mulher a menos antibiótico do que o uso diário contínuo e pode ser bastante eficaz quando a relação com a atividade sexual é nítida.

As opções mais utilizadas são:

Antibióticos de uso contínuo

Quando as infecções são frequentes e não têm relação evidente com a atividade sexual, pode-se considerar a profilaxia contínua com antibiótico em baixa dose por um período determinado.

A escolha do medicamento deve levar em conta os resultados mais recentes das uroculturas, o perfil de resistência bacteriana, alergias, função renal e características clínicas da paciente. Entre as opções mais usadas estão nitrofurantoína, trimetoprim-sulfametoxazol e cefalexina, mas não existe um único esquema ideal para todas as mulheres. Fosfomicina 3g a cada 7 ou 10 dias também é uma opção válida.

A necessidade de manter a profilaxia deve ser reavaliada periodicamente. O objetivo não é manter antibiótico por tempo indefinido, e sim reduzir a frequência das crises com a menor exposição possível aos medicamentos.

Perguntas frequentes sobre cistite de repetição

Infecção urinária de repetição tem cura?

Em muitos casos, é possível controlar bem o problema e passar longos períodos sem novas infecções. Quando existe um fator favorecedor identificável, como uso de espermicida, relação clara com a atividade sexual ou alterações hormonais da menopausa, o controle costuma ser melhor. Em outras mulheres, a tendência à recorrência pode persistir ao longo da vida, mas ainda assim é possível reduzir bastante a frequência das crises.

Cranberry ajuda a prevenir infecção urinária de repetição?

Pode ajudar algumas mulheres. O cranberry é uma das opções não antibióticas que podem ser tentadas para reduzir o risco de novas crises, principalmente em pacientes com cistite de repetição que desejam evitar o uso frequente de antibióticos.

O problema é que não existe uma formulação padronizada, e a quantidade das substâncias potencialmente ativas varia bastante entre sucos, cápsulas e extratos. Por isso, nem sempre é fácil prever qual produto funciona melhor ou qual dose é a mais eficaz.

De qualquer forma, o cranberry pode ser considerado como medida complementar em algumas pacientes, desde que fique claro que ele não trata a infecção urinária ativa e não substitui a avaliação médica quando os episódios são frequentes.

Infecção urinária de repetição na gravidez exige cuidado diferente?

Sim. Na gestação, a abordagem costuma ser mais cuidadosa, porque a infecção urinária aumenta o risco de complicações maternas e fetais, e a escolha do antibiótico precisa levar em conta a segurança para o bebê. Por isso, gestantes com quadros recorrentes devem ser acompanhadas pelo obstetra, e a necessidade de urocultura, investigação e prevenção medicamentosa costuma ser avaliada com mais rigor.

Falamos da cistite na gravidez no artigo: Infecção urinária na gravidez: riscos e tratamento.

Beber mais água ajuda a prevenir infecção urinária de repetição?

Pode ajudar, principalmente em mulheres que bebem pouca água ao longo do dia. Em pacientes com baixa ingestão de líquidos, aumentar a hidratação pode reduzir o número de episódios, provavelmente por favorecer um maior volume urinário e diminuir o tempo de permanência das bactérias na bexiga. Isso não substitui outras medidas preventivas, mas pode fazer parte da estratégia de prevenção.

Probióticos ajudam a prevenir cistite de repetição?

Talvez ajudem em algumas mulheres, mas a evidência ainda é limitada. Estudos com probióticos, especialmente com algumas cepas de Lactobacillus, mostram resultados variáveis, e ainda não há definição clara sobre a melhor via de uso, dose ou duração do tratamento. Por isso, eles podem ser considerados como medida complementar em alguns casos, mas não como prevenção principal para todas as pacientes.

Se a bactéria aparecer na urina, mas eu não tiver sintomas, preciso tratar?

Na maioria das vezes, não. A presença de bactérias na urina sem sintomas, chamada bacteriúria assintomática, não deve ser tratada rotineiramente em mulheres com infecção urinária de repetição, porque isso pode até aumentar o risco de novos episódios sintomáticos e favorecer resistência bacteriana. As principais exceções são a gestação e algumas situações urológicas específicas.

Falamos da bacteriúria assintomática no artigo: Bacteriúria assintomática: devo tratar ou não?

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Para finalizar, assista ao vídeo abaixo, produzido pela equipe do MD.Saúde.

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Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Ana Maria

    Para o quadro de cistite de repetição, é melhor fazer tratamento de 14 dias com nitrofurantoina 4xdia + 90 dias de uro-vaxom, após o uso da nitrofurantoina ou 90 dias de 1comp/dia de nitrofurantoina + 90 dias de uro-vaxom + cranberry ?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Não entendi, Ana. Você está falando de tratamento ou de prevenção? Também não entendi bem o esquema que você está prepondo.

  2. Elizabeth

    A profilaxia continua em casos de repeticao de infecção urinária pode ser feita também em homem idoso?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Sim.

  3. Maria Cecília Staffa Crepaldi (tenho 64 anos)

    Tenho infecção urinária de repetição devido a uma fístula colo-vesical..tomo um comprimido de macrodantina TD noite como preventivo..isso ajuda tbm na parte da fístula para não criar um abcesso?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    De certa forma sim, mas as bactérias que causam infecção urinária não são necessariamente as mesmas que causam o abscesso.

  4. Débora

    Boa noite.

    Estou com imã infecção urinaria faz 2 anos …meu xixi tem um cheiro horrível, já tomei vários tipos de antibióticos mas nenhum faz efeito.

    Todas as x que faço o exame de urina da positivo para E coli.

    Já fui ao ginecologista que tbm não dá jeito.

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Mas você tem algum sintoma específico, tipo dor para urinar, sangue na urina ou vontade de urinar frequente mesmo com bexiga vazia? Urocultura positiva sem sintomas não é infecção, é apenas bacteriúria assintomática. Dê uma lida nesse artigo e veja se faz sentido: https://staging.mdsaude.com/nefrologia/infeccao-urinaria/bacteriuria-assintomatica/

  5. Núbia

    Minha mãe tem 90 anos. Tem tido vários episódios de infecção urinária, é desesperador, tenho que sair correndo pro hospital, trata e sempre volta. Não sei mais o que fazer. Obrigada.

    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Ela já está sendo seguida por um Nefrologista?

  6. Daniela

    O URO VAXON tambem é eficaz contra a bacteria Klebsiella Pneumoniae? Soube que é bem indicado para tratar as infeccoes por Scherichia Coli mas no meu caso a cultura sempre aponta a Klebsiella … Minhas infeccoes urinarias de repeticao sao sempre por coito.

    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Não, o Uro-Vaxon só age contra infecção urinária provocada pela E-coli.

  7. Ana

    Boa noite tenho uma filha de 5 anos, tem infeções muito frequente foi feita uma ecografia das viaa urinárias mas não deu nada oque pode ser?

    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Nessa idade tem que investigar refluxo vesicuretral.

  8. Daiane Guedes Borges

    Olá doutor, me chamo Daiane. Tento lutar contra essa doença a uns dez anos, a infecção vem vou ao médico,ele passa ciprofloxacina, melhoro por um ou dois meses, depois ela vem com força novamente. Em todo esse tempo nenhum médico me alertou qnd a essa medida profilática. Teria algum médico no Rio de Janeiro que pudesse me indicar?

    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Daiane, eu moro fora do Brasil já há mais de 10 anos. Não conheço ninguém para indicar. Sugiro que você procure um Nefrologista e converse com ele sobre a profilaxia antibiótica.

  9. adilson teixeira dos reis

    Já ouviram falar de infecçâo urinária de repetição no sexo masculino provocada por diverticulite e consequente fístula entero-vesical? Ninguém teve nenhuma idéia ao longo de quase dez anos. Até os sintomas da fìstula se complicarem. Cirurgia vitoriosa. A falta de casos na literatura legou-me rins fracos

    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    A dica para se pensar em fístula entero-vesical é a presença de gases ou fezes na urina. Mas, mesmo sem os sintomas, em um homem com infecção urinária de repetição, alterações anatômicas do trato urinários devem ser investigadas.

  10. Luvualu Ndongala

    Para Africa os dados epidemiologicos / demograficos revelam outros factores de riscos :
    Poligamia
    Promiscuidade
    Pratica de rituais tais como circuncisão em massa
    Falta de cultura de medidas preventivas para ITS

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