Leptospirose: transmissão, sintomas e tratamento


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Revisado e atualizado em outubro 15, 2025
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O que é leptospirose?

A leptospirose é uma zoonose — ou seja, uma doença infecciosa transmitida de animais para humanos — causada por bactérias do gênero Leptospira, especialmente a espécie Leptospira interrogans. Trata-se de uma enfermidade de distribuição global, com maior incidência em regiões tropicais e subtropicais, principalmente onde há condições precárias de saneamento básico.

A doença pode afetar pessoas de todas as idades, sendo mais comum em áreas urbanas após períodos de chuvas intensas e enchentes, quando aumenta o contato com água contaminada.

Formas de transmissão da bactéria Leptospira interrogans

A leptospirose acomete mamíferos, especialmente roedores, como ratos de esgoto, que são considerados os principais vetores urbanos. Outros animais, como cães, gatos, bovinos, suínos, cavalos e ovelhas, também podem ser reservatórios da bactéria.

O animal infectado elimina a Leptospira pela urina, contaminando água, solo e alimentos. A bactéria sobrevive por semanas ou meses em ambientes úmidos, mas morre rapidamente em locais secos ou expostos ao sol.

Principais formas de transmissão:

  • Contato direto da pele (especialmente se houver feridas) ou mucosas com água, lama ou solo contaminados pela urina de animais infectados.
  • Ingestão de água ou alimentos contaminados.
  • Exposição a enchentes, inundações e poças de água em áreas urbanas.

Mitos e verdades sobre a transmissão

Um mito comum é a contaminação por leptospirose ao consumir bebidas em latas contaminadas por urina de rato. Apesar de teoricamente possível, a bactéria não sobrevive em superfícies secas por muito tempo. O risco existe se as latas ficarem armazenadas em locais úmidos e contaminados até o consumo.

Importante: Não existe transmissão de pessoa para pessoa, ou seja, leptospirose não passa de uma pessoa para outra.

A maior parte dos casos ocorre em períodos de chuvas e enchentes, especialmente em áreas com coleta de lixo e rede de esgoto deficientes. O contato com águas de rios e lagos contaminados também pode ser fonte de infecção, enquanto ambientes marinhos, como as praias, oferecem menor risco devido à salinidade, que é letal para a bactéria (leia também: Doenças transmitidas pela água).

Sintomas da leptospirose

Como ocorre em várias outras doenças infecciosas, o quadro clínico da leptospirose varia muito de indivíduo para indivíduo. O paciente pode apresentar desde quase nenhum sintoma até um quadro grave com risco de morte.

O período de incubação pode variar de 2 a 30 dias. A média é de 10 dias de intervalo entre a contaminação e o início dos sintomas da leptospirose.

Principais sintomas da leptospirose:

  • Febre alta (acima de 38,5°C) com calafrios (presente em mais de 75% dos casos).
  • Dor de cabeça intensa.
  • Dor muscular, principalmente em panturrilhas e região lombar.
  • Náuseas, vômitos e diarreia (cerca de 50% dos casos).
  • Hiperemia conjuntival (olhos avermelhados), achado típico.
  • Mal-estar geral, fadiga e prostração.

Outros sintomas possíveis incluem: tosse, dor abdominal, dor articular, faringite, manchas pelo corpo, aumento dos linfonodos, fígado e baço, além de sinais de meningite.

Na maioria dos casos, os sintomas duram cerca de 1 semana. Em cerca de 10% dos pacientes, a evolução pode ser grave, levando a complicações como insuficiência renal aguda, icterícia (pele e olhos amarelados, sinalizando falência hepática), hemorragias e insuficiência respiratória — quadro conhecido como síndrome de Weil.

A doença pode apresentar evolução bifásica, com melhora inicial seguida de piora dos sintomas após alguns dias.

Quando suspeitar de leptospirose?

  • Febre súbita após contato com água de enchente, poços, fossas, lama ou esgoto.
  • Presença de sintomas acima, principalmente em regiões endêmicas ou em períodos de chuvas.

Diagnóstico da leptospirose

O diagnóstico da leptospirose pode ser difícil, especialmente nos estágios iniciais, devido à semelhança dos sintomas com outras doenças infecciosas febris, como dengue, gripe, hepatite viral, febre amarela, hantavirose e malária. Por isso, o diagnóstico correto depende de uma combinação de avaliação clínica, histórico epidemiológico e exames laboratoriais específicos.

Quando suspeitar de leptospirose?

O diagnóstico deve ser considerado em qualquer paciente com quadro febril agudo acompanhado de dor muscular, dor de cabeça e sintomas gastrointestinais, especialmente se houver histórico de:

  • Exposição a águas de enchentes, inundações, lama, esgoto ou poças de água potencialmente contaminadas.
  • Atividades de risco, como limpeza de bueiros, fossas, rios, ou trabalho em áreas rurais e com animais.

Avaliação clínica e laboratorial

  1. Avaliação clínica
    • Os médicos devem considerar o diagnóstico principalmente em regiões endêmicas ou após episódios de chuvas intensas.
    • O dado mais relevante é a exposição a situações de risco, pois não existe sintoma específico de leptospirose.
  2. Exames laboratoriais iniciais
    • Hemograma: pode mostrar leucocitose (aumento dos leucócitos), desvio à esquerda, plaquetopenia (redução de plaquetas) e anemia.
    • Função renal: ureia e creatinina podem estar elevadas em casos mais graves.
    • Função hepática: aumento de bilirrubinas e enzimas hepáticas (TGO, TGP) são comuns em casos com icterícia.
    • Urina: pode mostrar proteinúria (proteínas na urina), hematúria (sangue na urina) e cilindros granulosos.
    • Outros exames de rotina: eletrólitos, coagulograma e marcadores de lesão muscular podem ser solicitados, dependendo do quadro.

Exames específicos para leptospirose

O diagnóstico definitivo é feito pela identificação direta da bactéria ou pela detecção de anticorpos específicos contra a Leptospira interrogans.

  1. Sorologia
    • Teste de ELISA (IgM): é o exame mais utilizado na prática clínica, detectando anticorpos do tipo IgM a partir do 5º ao 7º dia do início dos sintomas.
    • MAT (Microaglutinação – padrão ouro): detecta anticorpos contra vários sorotipos de Leptospira. Requer laboratórios especializados e é utilizado principalmente para confirmação e vigilância epidemiológica.
  2. Exames moleculares
    • PCR (Reação em Cadeia da Polimerase): pode detectar o DNA da bactéria na fase precoce da doença, até o 7º dia de sintomas, antes da soroconversão. Tem alta sensibilidade, mas não está amplamente disponível no sistema público.
    • Cultura: raramente realizada devido à demora no crescimento da bactéria (pode levar semanas) e baixa sensibilidade.
  3. Testes rápidos
    • Existem testes imunocromatográficos de detecção rápida de IgM, úteis em situações de surto e regiões sem acesso a laboratórios especializados, mas sua sensibilidade e especificidade são inferiores à sorologia convencional.

Fluxograma diagnóstico sugerido

  1. Paciente com febre + exposição de risco + sintomas compatíveis: suspeitar de leptospirose.
  2. Solicitar exames laboratoriais básicos e sorologia para leptospirose.
  3. Em casos graves, iniciar tratamento empiricamente antes da confirmação laboratorial.
  4. Avaliar a necessidade de internação hospitalar em quadros graves ou com sinais de disfunção renal/hepática.

Tratamento da leptospirose

O tratamento da leptospirose deve ser adaptado à gravidade do quadro clínico e ao perfil do paciente. Embora muitos casos sejam autolimitados, o uso de antibióticos pode reduzir a duração da doença, o risco de complicações e diminuir a eliminação da bactéria na urina. Além disso, o reconhecimento e manejo precoce das formas graves é fundamental para reduzir a mortalidade.

Princípios gerais do tratamento

  • Iniciar antibiótico precocemente, sempre que houver suspeita clínica, especialmente nos casos moderados a graves ou quando o paciente procurar atendimento médico.
  • O tratamento antimicrobiano deve ser instituído mesmo sem confirmação laboratorial, já que o benefício é maior nas fases iniciais.
  • A maioria dos casos evolui de forma benigna e pode ser manejada ao nível ambulatorial, mas casos graves exigem internação hospitalar.
  • Aspirina e anti-inflamatórios devem ser evitados, pois eles aumentam o risco de hemorragia.

Tratamento de casos leves

Para pacientes com doença leve, ou seja, sem sinais de gravidade, recomenda-se o tratamento ambulatorial com os seguintes antibióticos:

  • Doxiciclina
    • Adultos: 100 mg VO, 2x ao dia, por 7 dias.
    • Crianças: 2 mg/kg/dia, divididos em 2 doses (máximo 200 mg/dia), por 7 dias.
    • A doxiciclina pode ser usada em todas as idades por até 21 dias, pois não provoca manchas dentárias permanentes como outras tetraciclinas.
  • Azitromicina
    • Adultos: 500 mg VO, 1x ao dia, por 3 dias.
    • Crianças: 10 mg/kg VO no 1º dia (máximo 500 mg), seguido de 5 mg/kg/dia nos dias seguintes (máximo 250 mg/dia).
  • Gestantes:
    • Azitromicina (preferencial) 500 mg VO 1x/dia por 3 dias
    • Ou amoxicilina 25-50 mg/kg/dia em 3 doses divididas (máximo 500 mg/dose), por 7 dias

Nota: A azitromicina é preferida se houver dúvida diagnóstica com rickettsioses, pois tem ação contra ambas.

Tratamento de casos graves

Pacientes com doença grave (icterícia, insuficiência renal, hemorragias, insuficiência respiratória, alteração do nível de consciência) devem ser internados e receber antibiótico intravenoso, além de suporte clínico intensivo.

Opções de antibióticos para adultos:

  • Penicilina G cristalina
    • 1,5 milhão UI IV a cada 6 horas, por 7 dias.
  • Doxiciclina
    • 100 mg IV 2x ao dia, por 7 dias.
  • Ceftriaxona
    • 1 a 2 g IV, 1x ao dia, por 7 dias.
  • Cefotaxima
    • 1 g IV a cada 6 horas, por 7 dias.

Para crianças hospitalizadas:

  • Penicilina G: 250.000–400.000 UI/kg/dia IV, divididos em 4–6 doses (máximo 6–12 milhões UI/dia).
  • Doxiciclina: 4 mg/kg/dia IV, divididos em 2 doses (máx. 200 mg/dia).
  • Ceftriaxona: 80–100 mg/kg/dia IV, 1x ao dia (máx. 2 g/dia).
  • Cefotaxima: 100–150 mg/kg/dia IV, divididos em 3–4 doses.
  • Azitromicina: alternativa em intolerância, 10 mg/kg IV no 1º dia (máx. 500 mg), seguido de 5 mg/kg/dia (máx. 250 mg/dia).

Para gestantes com doença grave:

  • Penicilina, ceftriaxona, cefotaxima ou azitromicina são opções seguras.
  • Doxiciclina pode ser considerada em casos especiais, como coinfecção suspeita com rickettsiose, pois penicilina e cefalosporinas não têm ação contra a bactéria Rickettsia.

Reação de Jarisch-Herxheimer

Após o início dos antibióticos, pode ocorrer a reação de Jarisch-Herxheimer, caracterizada por febre, calafrios e queda de pressão arterial devido à rápida destruição das bactérias. Ela ocorre em até 21% dos casos tratados, especialmente quando o antibiótico é iniciado até 3 dias após o início dos sintomas. Apesar de assustadora, geralmente é autolimitada e manejada com suporte clínico.

Suporte clínico

Medidas gerais para casos graves:

  • Hidratação venosa rigorosa e correção de distúrbios hidroeletrolíticos.
  • Monitorização e suporte das funções renal, hepática e respiratória.
  • Ventilação mecânica, se a insuficiência respiratória for grave.
  • Hemodiálise, se houver insuficiência renal grave.
  • Transfusão de hemoderivados em casos de sangramento.

Eficácia dos antibióticos

  • As evidências científicas sobre o impacto dos antibióticos em desfechos graves (como mortalidade) ainda são limitadas, porém, o início precoce pode reduzir o risco de progressão para formas graves.
  • O atraso no início do antibiótico (> 2 dias após os primeiros sintomas) pode aumentar o risco de evolução para doença grave.
  • Não há resistência significativa descrita entre os principais antibióticos usados (penicilinas, cefalosporinas, tetraciclinas, macrolídeos).

Existe vacina contra leptospirose?

Atualmente, não existe uma vacina amplamente disponível para prevenção da leptospirose em humanos. Embora várias vacinas tenham sido desenvolvidas em alguns países, todas são específicas para determinados sorotipos da bactéria e foram criadas para situações epidemiológicas muito específicas, não tendo uso universal. Isso significa que nenhuma vacina humana está disponível de forma rotineira em serviços de saúde, nem faz parte de calendários nacionais de imunização.

Portanto, a vacinação não é considerada uma medida eficaz e acessível para o controle da leptospirose em humanos na maior parte do mundo, incluindo o Brasil.

Prevenção

Como não há vacina disponível para a população, a prevenção da leptospirose se baseia principalmente em:

  • Evitar contato com águas paradas, enchentes e áreas de risco (lama, água de esgoto, áreas alagadas, córregos e rios urbanos).
  • Controle de roedores, principal reservatório urbano da bactéria.
  • Proteção dos alimentos e da água para consumo, evitando contaminação por urina de animais.
  • Uso de equipamentos de proteção (botas e luvas de borracha) por pessoas expostas ao risco em ambientes contaminados.
  • Higienização adequada de superfícies que possam ter tido contato com urina de animais.
  • Vacinação de animais domésticos e de criação, que pode ajudar a reduzir a transmissão indireta, embora a proteção conferida seja variável e alguns animais vacinados ainda possam se infectar e eliminar a bactéria na urina.

Profilaxia antibiótica

Em situações de alto risco, como durante enchentes, desastres naturais ou atividades profissionais específicas (militares, equipes de resgate, trabalhadores rurais), a profilaxia com antibióticos pode ser considerada:

  • Doxiciclina 200 mg por via oral, uma vez por semana, enquanto durar a exposição de risco.

Estudos mostraram que a profilaxia pode reduzir o número de casos clínicos, mas não elimina totalmente o risco de infecção e sua eficácia é considerada modesta. Além disso, o uso rotineiro não é recomendado para toda a população, apenas para grupos ou situações de risco elevado e por tempo limitado.


Referências



Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Júbilo Morais

    Saudações Dr. Pedro
    Li o conteúdo sobre leptospirose e fiquei na dúvida quando diz que Aspirins e anti-inflamatórios devem ser evitamos devido o risco da hemorragia. Eis a minha questão: Qual é o medicamento ideal neste caso para aliviar a dor de cabeça e a febre visto q os antiinf. São proibidos?

    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Se não houver comprometimento do fígado, paracetamol. Dipirona é outra opção.

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